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Atitude Coletiva

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Empresas não se importam com LGBTs, e muito menos com você!

Marcas se interessam com uma coisa apenas: o lucro.

Nós precisamos ser realistas e aceitar que muitas empresas, marcas e artistas que “abraçam” causas ou comunidades (feminismo e LGBTQ+ por exemplo) não estão necessariamente preocupadas com o bem estar de seus clientes, fãs ou mesmo da sua equipe. E um caso recente envolvendo o YouTube ilustra bem isso.

O jornalista Carlos Maza, da Vox “Strikethrough”, afirmou no twitter que tem se sentido muito incomodado com as declarações o comentarista político de ultra-direita Steven Crowder constantemente faz no YouTube atacando sua orientação sexual e etnia.

Steven já afirmou várias vezes que Maza é um “âncora beberrão, bichona e mexicano“.

Em resposta, também pelo twitter, à afirmação do jornalista, o YouTube afirmou que leva muito a sério denúncias de assédio mas que, apesar de considerarem a linguagem de Steven “claramente prejudicial“, os vídeos não ferem as políticas da plataforma.

Em uma postura absolutamente descompromissada, o YouTube se isenta da responsabilidade pela manutenção do conteúdo no site e declarou ainda que mesmo que os vídeos permaneçam no ar, isso não quer dizer que eles concordam ou apoiam o conteúdo. A medida mais rígida da plataforma foi suspender a monetização do canal de Steven.

Então o que isso quer dizer?

Em primeiro lugar, fica claro que a postura de uma empresa não pode ser medida por sua adesão a campanhas de apoio a determinadas causas. Em 2016, por exemplo, o YouTube lançava a campanha #ProudToBe (#OrgulhoDeSer), onde se colocava lado a lado da comunidade LGBTQ. Na campanha, dizia:

Estamos juntos com todos que têm a coragem de possuir e compartilhar sua identidade. Estamos juntos para mostrar o poder da solidariedade, o poder do amor, o poder do orgulho.

Para aquelas vozes bonitas e corajosas que continuam a fazer do YouTube a comunidade vibrante, diversificada e empática que é, estamos orgulhosamente com você.

Como deve ser do conhecimento de todos, o YouTube pertence a Google, que também já encampou diversas ações do mesmo tipo, inclusive aqui no Brasil: o presidente da Google Brasil, Fábio Coelho, participou com sua família da parada LGBTQ+, em São Paulo, demonstrando apoio à causa.

No início desse ano, a empresa também se destacou por homenagear com um doodle especial a ativista Brenda Lee nas comemorações do Dia da Visibilidade Trans:

Mesmo com esses posicionamentos de claro apoio (publicitário) à comunidade LGBTQ+, o YouTube se esquiva de medidas concretas, mais incisivas, para conter discursos de ódio dentro da plataforma – como claramente fez no caso envolvendo Carlos Maza e Steven Crowder.

“Quem lacra não lucra”. Será mesmo?

Pesquisas apontam justamente o contrário: quem lacra lucra. MUITO, aliás!

Grandes marcas como a Coca-Cola, Burger King e Doritos já provaram que investir na publicidade “inclusiva” gera bastante retorno. Uma reportagem produzida pela Rede Globo aponta que o Pink Money movimenta cerca de R$150 milhões por ano, só no Brasil.

O Burger King, por exemplo, há pouco viu oportunidade de “lacrar” com uma ação publicitária que criticava o veto do presidente Jair Bolsonaro à campanha do Banco do Brasil que comemorava a diversidade. Parte do texto da ação que convocava modelos, dizia o seguinte:

“Pode ser homem, mulher, negro, branco, gay, hétero, trans, jovem, idoso (…) No Burger King, todo mundo é bem-vindo. Sempre.”

Segundo Fernando Machado, chefe global de marketing da rede, disse ao Estadão, “a reação foi amplamente mais positiva do que negativa”. Curioso que, apesar do número de interessados superar o esperado, a empresa demonstra que não tinha intenção em fazer tal contratação, a convocação era apenas parte de um plano de marketing:

“Investimos cerca de R$ 2 mil na ação e tivemos cerca de 800 milhões de impressões de marca com os compartilhamentos via rede social. Ainda estamos decidindo se faremos um comercial com quem se dispôs a participar da ação, inclusive com o elenco do comercial do Banco do Brasil”, declarou Ariel Grunkraut, diretor de Marketing da rede no Brasil para o UOL.

Convocação do Burker King era apenas uma ação de marketing.

O “lacre x lucro” não acontece apenas com marcas, mas também entre artistas. Anitta, Nego do Borel e  Jojo Maronttinni são alguns exemplos de personalidades do mundo da música que flertam ou em algum momento já flertaram com a comunidade LGBTQ+, isso enquanto promoviam e apoiavam personalidades notoriamente homofóbicas.

Ok. Mas qual o problema?

O problema em si não está na adesão ou não a campanhas inclusivas, visando um público específico – fato que tem seu lado positivo. O problema também não está no fato de adotarem tais medidas para alavancar suas vendas ou carreiras; afinal, são empresas, e como tal querem aumentar seus lucros. Esse é o jogo capitalista.

O que deve provocar reflexão:

  • Essas marcas e artistas têm interesse real nesse público, para além do Pink Money?

  • Qual postura social eles adotam concretamente?

Isso sem contar outro ponto importante, além dos clientes:

  • Como essas empresas tratam seus funcionários?

Afinal, o mínimo que uma empresa séria e comprometida faz é respeitar quem produz.

E esse é o ponto chave da questão:

  • YouTube diz que apoia a comunidade LGBTQ+, mas se nega a retirar do ar discursos de ódio contra eles.
  • Burger King faz comercial apoiando a diversidade em sua empresa, mas explora trabalhadores com jornadas excessiva de trabalho.
  • Anitta, já considerada a “diva gay do Brasil”, durante as eleições presidenciais não se posicionou contra o candidato abertamente homofóbico, ao mesmo tempo que defendeu publicamente o colega que havia sido transfóbico.

Esses são só alguns dos vários casos de grandes empresas ou personalidades que têm práticas extremamente distintas das campanhas publicitárias. Serve de alerta para que a gente reflita sobre até que ponto ações coloridas, bem pensadas e diversificadas devem influenciar nosso poder de compra.

Vale dizer que enquanto produzíamos esse artigo, o YouTube anunciou que vai remover milhares de vídeos e canais que promovem discursos de ódio (a principio conteúdos de supremacistas brancos e revisionismos históricos). Segundo o Washignton Post, isso só aconteceu em face das críticas de que a Google não havia impedido a disseminação de vídeos prejudiciais.

Até essa publicação, o vídeo de Steven Crowder continua no ar.

Fonte(s): The Washington Post, B9, YouTube Creator Blog, Bol, Fala! Universidades, Catraca Livre, Estadão
Daiane Oliveira
Jornalista, feminista e mãe. Discute religião, política, sexo e hábitos sustentáveis. Não discute futebol porque não entende. Quem sabe um dia.

Tá na rede!

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