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Sinta-se Bem

Vegana e pobre? Texto bomba na internet ao revelar porque o veganismo é elitista

O incrível relato ‘Como é ser vegana e favelada’ viralizou nas redes sociais.

Basta falar em evitar o consumo de leite ou carne para muita gente pirar a cabecinha. É claro que o assunto é bastante controverso, visto que vivemos à base de alimentos de origem animal há milhares de anos.

Nesse embate, além da discussão nem sempre saudável sobre veganismo e seus benefícios ao planeta e aos seres humanos, existe um ponto bastante pertinente: Como se tornar vegano sendo pobre?

Para falar sobre isso, nada melhor do que alguém que sente na pele. Por isso, vamos compartilhar com você um excelente texto da Thalitta Flor, blogueira ativista responsável pelos conteúdos do blog “SIM, SOU VEGANA E FEMINISTA PRETA!“, que debate exatamente essa questão. Vale a pena a leitura, mesmo se for fanático por churrasco, se liga.

 

“Como é ser vegana e favelada

Hoje eu vim falar de um assunto que queria falar há muito tempo. Sempre falo sobre esse assunto, mas eu sinto que na maioria das vezes nunca digo tudo o que eu queria dizer. Parece que a discussão fica incompleta, que faltou algo.

Afinal, como é ser vegana e ser favelada? Como é ser vegano pobre? É possível? É difícil? As pessoas sempre perguntam.

Primeiro gostaria de diferenciar dois termos muito usados nessas discussões “elitista” e “caro”. Elas não possuem o mesmo significado. Quando eu digo que o veganismo é elitista, é uma verdade. Quando digo que o veganismo é caro, é uma mentira. Vamos ver isso melhor…

Ser vegano tá longe de ser caro.

Veganismo é uma ideologia ética e política na qual você faz o teu possível para não causar nenhuma crueldade aos animais. Então, nós veganos não comemos animais, não vestimos animais, não usamos produtos testados em animais, e por aí vai.

Mas desde quando vegetais são caros?

Até onde eu sei, o quilo da batata é bem mais barato que o quilo da carne. Então nas compras do mês quem é vegetariano faz economia. Pra vestir, até onde sei, jaqueta de couro animal é mais caro que couro sintético, então outra coisa que não é nenhum problema, certo?

A parte que pode ficar mais complicada, é a de produtos de limpeza. Aqui na favela onde eu moro, por exemplo, a marca mais conhecida que não testa [em animais] e que tem diversos produtos sem ingredientes de origem animal, é a Ypê. A Ypê aqui é caro. Eu não compro Ypê quando tô com pouco grana. Eu compro o sabão mais barato, limpo a bunda com o papel higiênico mais barato e escovo os dentes com a pasta de dente mais barata. Esse é o meu limite.

Eu faço o meu possível para causar o menor impacto possível aos animais. Infelizmente, não tenho condições de comprar produtos mais caros. A questão é que eu não sou menos vegana por causa disso. A minha luta, não vai deixar de acontecer, por eu não conseguir abraçar o mundo. Sou pobre, sou vegana e faço tudo que está ao meu alcance.

Então não, ser vegano não é caro.

Mas por que o veganismo é elitista?

É elitista porque o acesso a informação sobre diversas coisas do mundo vegano não chega na periferia. É elitista porque mesmo não sendo caro o custo da comida, os lugares cobram caro por ela. Porque é criado um conceito que vegetariano é coisa de rico, e pessoas ricas sentem prazer em pagar caro. Por isso muitas vezes o vegetarianismo é associado a coisa de gente “fresca”, porque muito artista, por exemplo, é vegetariano pensando em saúde. E todos nós sabemos que cuidar da saúde é caro.

Uma das coisas que mais me indagam aqui na favela é “nossa, mas não ia conseguir, tem que ter carne no prato pra ficar de pé”. As pessoas não pensam primeiro naquele x-tudo delícia que não iriam mais comer, elas pensam em “preciso ficar forte pra trabalhar”. A gente sabe que o paladar mexe muito com o ser humano, e que temos caprichos. Mas acredite, para um morador de favela, sua maior preocupação é estar vivo.

Quebrando esse tabu da saúde, chegamos em outro obstáculo: o status.

Enquanto a Fátima Bernardes ficar sorrindo na TV fazendo propaganda de frango caipira e dizendo que na mesa dela tem, pobre também vai querer quando tiver grana. É possível fazer um trabalho de formiguinha? É possível, MAS… se as pessoas da classe alta começarem a propagar a ideia do que é o “luxo”, é um caminho bem mais fácil.

Ainda que tenha esse conceito que só pessoas ricas que podem usufruir do vegetarianismo, a ostentação mais conhecida ainda é filé mignon e caviar, venhamos e convenhamos.

Eu converso muito com pessoas daqui, e elas vão entendendo muitas coisas, pessoas pobres não são ignorantes, não confundam as coisas. Mas existe muitos fatores, que antes de tu apontar esse dedo, você deveria refletir.

Existem os casos de hierarquia clássica, onde o homem sai pra trabalhar, e é a mulher que fica em casa, faxinando, cuidando dos filhos, cozinhando.. e se ela ousar fazer comida vegetariana pro jantar, quando o marido chegar do trabalho cansado pode causar até agressão.

Existem os casos de pessoas que sempre tiveram pouco durante uma longa jornada de suas vidas, e tudo que elas querem agora é encher a pança de carne, porque ela sabe o que é estar na pior. E existem pessoas que recebem doação, e sendo assim não é possível controlar os alimentos que consomem. Se a pessoa recebe arroz e salsicha pra comer no dia, não dá pra comer só arroz.

Esses exemplos são mais direcionados áqueles veganos que acham que qualquer um pode ser vegetariano, “basta querer”. Não migo, não é assim que a banda toca.

Mas é claro que o contrário também me enjoa. Pessoas que não são pobres e consomem carne, puxando carteirinha de pobre de não sei da onde pra mandar essa. Como quem diz “eu sou pobre e sei o quanto é difícil ser vegana” NÃO MORE, CÊ NÃO É. VOCÊ SÓ TÁ COM PREGUIÇA DE SER VEGANA! Aí você pega o exemplo do seu Zé da favela, que não tem NADA a ver com você, e diz que é coisa de rico ser vegano. APENAX PARE!

Escrevi esse texto outro dia na página do meu buffet, e vou compartilhar aqui também:

“O Veganismo…

Infelizmente, o veganismo ainda não é acessível a todos.

É muito difícil você encontrar pessoas da periferia que sabem o que significa a palavra vegano.

Muito mal, vão entender quando você fala vegetariano. E elas vão rir da sua cara. Porque pra elas, ser vegetariano é coisa de granfino. Pra nós, da periferia, ser vegetariano, é coisa de gente chique.

E é mesmo. Não porque é caro, é por causa da ideia vendida por aí. Se a gente parar pra pensar, quanto mais pobre se é, mais vegano indiretamente você se torna. A alimentação diária de uma pessoa muito pobre fica praticamente à base de feijão e farinha de mandioca. Não sobra mais dinheiro pra comprar carne, nem mesmo a processada, a de segunda mão. Só que ainda assim, mesmo o termo [veganismo] tendo um conceito tão simples “pessoas que só consomem alimentos de origem vegetal”, ainda assim ele é vendido.

É vendido porque sempre achamos que só os artistas podem ser [veganos]. É vendido porque existe uma infinidade de empresários que querem lucrar com o ramo e colocam pratos feitos à base de legumes baratos à preço exorbitantes, e ainda por cima 80% desses vendem coisas ruins, o que afasta ainda mais o interesse das pessoas. É vendido porque é propagada uma falsa ideia que pra ser vegetariano tem que ser magro, natureba e hipster.

O veganismo é vendido pra elite.

Só que tem uma coisa… tem gente aqui inquieta tentando mudar esse quadro. Tem gente da favela que trabalha com comida vegana. E não é só o Banana Buffet, tem outros veganos tentando fazer a diferença.

Eu já sou amiga dos funcionários do sacolão, já sou amiga das caixas do supermercado, aos poucos, eles veem o que eu compro diariamente pra realizar o meu trabalho, aos poucos eu vejo diariamente que eu to fazendo a diferença.

Eu não vou vender minha comida caro, eu vou vender a um preço justo. Justo pra mim, justo pra você.

Eu vendo comida pro pessoal aqui da favela mais barato, tenho vizinhos clientes, tenho comerciantes clientes. Pessoas que provaram e quebraram o mito de que é ruim, que provaram e estão dispostas a repensar o consumo de carne, que fazem perguntas, que são curiosas! Pessoas que estão tendo a oportunidade de ter acesso ao veganismo.

Eu sou vegana, eu luto e eu resisto. O veganismo ainda é elistista, sim, mas tá mudando. Tá mudando e muito! E não é só por mim, é por muita gente incrível que faz do trabalho um ativismo de dar orgulho!”

Tudo o que quero dizer com isso é: minha experiência como pobre, favelada e vegana, não pode ser usada como padrão, cada um é cada um.

De fato posso explicar para qualquer um que caro não é, mas como eu expliquei ao decorrer desse post, existem muitos fatores que podem estar envolvidos que não é apenas o dinheiro.
Então três recados:

  1. Se você é pobre e tá com a consciência pesada, tá tentando ser vegetariano, tô aqui de braços abertos. Posso te ajudar no que precisar pra se virar, principalmente na cozinha que sei que é uma das coisas que mais pegam na adaptação.
  2. Se você é vegano, e acha que pode ficar cagando regra pra geral, manera aí. Seres humanos tem um privilégio sobre os animais não humanos, mas ainda assim, muitos desses humanos também são explorados. Então se tu não saber fazer recorte, não vai chegar a lugar nenhum.
  3. Se você é classe média e fica fazendo cosplay de pobre, apenas pare e toma vergonha na cara que não adianta ter cachorrinho adotado em casa e comer porco, explorar vacas e mostrar carteirinha de pobre falsa. Desce do salto.”

 

Para acompanhar outros textos da Thalitta, basta acessar o blog dela aqui.

Fonte(s): Sim sou vegana e feminista preta
Dario C L Barbosa
Fundador e editor do Almanaque SOS. Paulistano, formado em Comunicação Social, trocou os anos em redes de rádio e televisão (SBT, Record, Band, etc.) pela internet em 2012. Vegano e meditante, busca evoluir junto com todos os seres enquanto caminha. ( Twitter - Instagram ).

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