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Atitude Coletiva

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“Sozinho sim, e feliz pra sempre”

Depois que deixei de ser meu inimigo, ficou muito mais fácil sorrir.

Enrique Coimbra Publicado: 12/02/2016 16:29 | Atualizado: 12/02/2016 16:29

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flickr

Desde pequeno ouvi que eu sou uma das pessoas mais estranhas que todo mundo já viu — quando, na real, sou eu quem acha todo mundo insano quando paro pra analisar (não que eu saia ileso).

Apelidos passivo-agressivos como “extraterrestre”, “Noku” (uma referência esdrúxula ao alienígena “Goku” do anime Dragon Ball) e CdF (“Cu de Ferro”, óbvio) fizeram parte do versátil leque de nomes que recebi por ter comportamentos e manias incomuns para o que estavam acostumados: educado demais, quieto demais, lendo Harry Potter em vez de caçar mulheres peladas na internet, beijando garotos em vez de garotas e tal, tal, tal.

De tanto cagarem na minha cabeça com piadas babacas utilizando tais apelidos — mesmo que a intenção da metade desses ignorantes não fosse de me magoar — e por ter a constante sensação de falar, mas de não ser ouvido ou compreendido, fui me refugiando na minha companhia. Não como um completo antissocial, pois quando necessário, sempre me virei bem com pessoas, apesar da timidez.

Simplesmente compreendi que ninguém veria nada do jeito que eu via. Ninguém seria tão eu comigo, tão fiel ao comportamento que eu mesmo esperava das pessoas. E ninguém receberia o que eu compartilhasse da mesma maneira com que eu recebo essas coisas.

Assim atestei que minha necessidade de estar com outros humanos é pequena desde que eu era criança, mas por me sentir muito “à parte” dos círculos sociais que conhecia, suprimi meu desejo de ficar completamente só na maior parte do tempo e me forcei a ser como a maioria das pessoas tende a ser: mais mascarado — não que eu considere usar máscaras errado! Todo mundo usa pra algum campo da vida.

Mesmo assim, meus padrões de comportamento se repetiam incessantemente: toda festa que ia, dormir fora de casa era cansativo demais, então eu preferia voltar drogado pra casa, passando perrengue para pegar ônibus de madrugada, só para não ter de enfrentar uma manhã precisando me adaptar ao ritmo das outras pessoas.

O pior é acordar com ressaca de ter ido à festa, sabendo que teria ficado muito melhor em casa, na minha. Sozinho, preferencialmente.

Me perguntei se o latente desejo de estar sozinho poderia ser trauma das zoações no passado ou incompatibilidade/intolerância com o meio atual, mas não.

Eu não sou um “solitário moderno”, incapaz de empatia ou generosidade. Também não sou o “solteiro da geração Y” que lidera uma marcha de iguais. Gosto de companhias, mas muito específicas, para coisas muito específicas.

Não sou de pensar em filhos — ao menos não humanos, pois cachorros são maravilhosos — ou em me tornar um maridinho gay endireitado pela heteronormatividade e religiões. Sou um rapaz se dando a oportunidade de ser um pouco menos maniqueísta consigo. De não se culpar por preferir construir uma vida ao redor de si do que ao redor dos outros, muito menos a partir de opiniões alheias.

No máximo, o que participa de muitas construções dos outros e permite que outros participem da construção dele. Único requisito? Sem hipocrisia.

Dizer “não” para a festa de 25 anos do amigo que adora tequila e olha feio pra maconha, porque prefiro ficar em casa vendo documentários chapado, fica cada vez mais fácil. Chamar de família apenas quem eu realmente amo também fica. Sem dar explicações que não quero dar. Sem tradicionalismos estúpidos.

Mentir sobre isso, sobre quem eu sou, do que realmente gosto e do que quero fazer com minha própria vida, é a única ofensa que realmente me tira do sério. Por sorte — ou seria azar? — é algo que apenas eu posso fazer contra mim.

Depois que deixei de ser meu inimigo, ficou muito mais fácil sorrir.

Sorrir para mim, com o outro, e por mim.

Enrique Coimbra
"Sem H" mesmo. Escreveu os livros "Sobre um garoto que beija garotos", "Um Gay Suicida em Shangri-la" e "Os Hereges de Santa Cruz". Também grava vídeos para o canal "enriquesemh" do YouTube, é capista, e criou o site Discípulos de Peter Pan , sobre comportamento e bem-estar!

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