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Relatos de ex-atrizes mostra o lado sombrio da indústria pornográfica

Das cenas pornográficas mais acessadas, 88% contêm agressão.

Espancamento, sufocamento e ferimentos graves. Essas são algumas das violências relatadas por ex-atrizes pornôs em seus trabalhos.

Nas últimas semanas, relatos de experiências dolorosas e traumatizantes de atrizes que atuaram em produções pornôs ascenderam o debate sobre o movimento antipornografia nas redes sociais.

Antes de tudo, é importante frisar que a antipornografia nada tem a ver com movimentos moralistas e religiosos, nem com o “No Fap” (algo como “anti-masturbação”), fórum que serve como grupo de apoio para homens que desejam evitar a pornografia e a masturbação – falamos mais sobre isso aqui.

A antipornografia é, na verdade, pauta do movimento feminista. As informações foram divulgadas pela revista QG Feminista a partir de depoimentos reunidos no site da Shelley Lubben, uma ex-atriz de filmes pornográficos que criou a fundação Pink Cross para ajudar outras atrizes vítimas de traumas.

Segundo a revista, tanto o site de Lubben, que morreu no início deste ano com 50 anos de idade, como o da Fundação Pink Cross tiveram quase todas as informações que continham retiradas do ar, sendo que alguns depoimentos retirados dos sites ainda podem ser encontrados em artigos acadêmicos.

Shelley Luben, fundadora da Pink Cross.

Em entrevista para o SOS, a QG Feminista, que pesquisa o tema desde sua fundação, em agosto de 2017, compartilhou dados importantes sobre como a cultura pornográfica moldam nossas ideias sobre relacionamentos e sexualidade, causando assim a objetificação e exploração da mulher.

“1. A pornografia perpetua a cultura do estupro.

Porque é um discurso de ódio contra as mulheres. 88% das cenas pornográficas contêm agressão, sendo que em 70% delas são atos cometidos por homens e, em 94% delas, contra as mulheres.

2. O roteiro dos filmes ignoram os desejos femininos.

Um roteiro comum de filmes pornográficos é a atriz dizendo que não deseja fazer sexo ou apanhar, mas o ator ignora seus apelos e a cena continua, enquanto a atriz continua sorrindo e no final aparenta ter gostado, ou seja, a mensagem passada é de que estupro é normal, e que o “não” das meninas e mulheres significa ‘sim’.

3. Muita audiência, pouca responsabilidade.

Os sites de pornografia têm mais visitas por mês do que Netflix, Amazon e Twitter combinados. Hoje sabemos que uma parte significante do acesso provém de meninos menores de idade, inclusive pré-púberes.

4. A exploração é direcionada em sua maioria às mulheres.

59% das vítimas de tráfico de pessoas hoje são exploradas sexualmente, das quais 94% são do sexo feminino, segundo dados da ONU.

5. Pornografia infantil prospera na internet.

Em relação à pedofilia, 20% de toda a pornografia disponível na internet possui abuso sexual de crianças”segundo o National Center for Missing and Exploited Children.

Além disso, para o grupo, a conscientização sobre a indústria do sexo é importante, já que esse mercado tem como cerne a violência e subjunção da mulher.

“Acreditamos que em uma sociedade realmente igualitária, não deve haver pessoas que sejam tratadas como objetos de consumo e nem uma desigualdade social tão gritante entre os sexos”, afirma a QG.

Feminista e abolicionista

Discutir a pornografia não é simples, até porque ela é alvo de discordância entre o próprio movimento feminista. Há vertentes que defendem o “pós-pornô”, que é explicado como a subversão dessa produção pornográfica heteronormativa e machista da indústria pornô, propondo uma pornografia mais diversa e política.

Outras são a favor da antipornografia, como é o caso da QG Feminista, que afirma ter um posicionamento abolicionista quando o assunto é indústria do sexo.

“Nós não acreditamos que a reforma de instituições misóginas seja algo com potencial de verdadeiramente transformar as estruturas sociais. A verdadeira subversão da produção pornográfica seria sua destruição.

Não enxergamos a pornografia como algo que precisa existir e, portanto, não buscamos uma saída pela via de uma pornografia menos exploratória. A saída que enxergamos é uma sociedade em que mulheres e homens possam expressar sua sexualidade livremente e de forma saudável, sem precisar recorrer a estereótipos pré-moldados em imagens”, ressalta o coletivo.

Como já mostramos anteriormente aqui no SOS, um estudo publicado pela autora estadunidense, Peggy Orenstein, na revista TIME mostra que muitas jovens estão encarando a pornografia como um modelo a ser seguido para o sexo e de como deve ser o comportamento da mulher nessa situação.

O caso é que, segundo o especialista em sexualidade e pornografia, Alex Doherty, quanto mais cruel e violenta, mais as pessoas vão ficando dessensibilizadas.

“O problema para a indústria pornográfica é que há apenas muitas maneiras de mostrar uma mulher sendo penetrada anal, vaginal e oralmente e há pouco a fazer com uma mulher agora além de matá-la”, disse o autor.

Já falamos sobre os problemas que a pornografia causa em nossa sexualidade, aqui.

Para a ativista Caitlin Roper “não há nada de ‘feminista’ na defesa da pornografia”. Ela explica que encarar a antipornografia como algo moralista não é defender a liberdade.

“O fato de que qualquer objeção a materiais pornográficos seja caracterizada como puritanismo antissexual ilustra como a indústria pornográfica é eficiente em alinhar seu produto com a libertação sexual, e não a exploração sexual. Os pornógrafos conseguiram pegar atos de dominação, crueldade e violência e chamá-los de sexo”, escreveu Roper em um artigo para o Huffington Post.

Seja de que maneira for, apoiando ou desaprovando, antes de consumir outro produto pornográfico, é preciso questionar os problemas que essa indústria causa, principalmente no estimulo a violência contra as mulheres, a objetificação dos seus corpos e à cultura do estupro.

Leia os relatos de ex-atrizes pornô, coletados pela QG Feminista:

Fonte(s): QG Feminista, Medium Antipornografia, Huffpost
Julia De Cunto
Jornalista na era da pós-verdade, feminista, atriz dos maiores dramas da vida cotidiana.

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