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Atitude Coletiva

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Quatro coisas que aprendi somente aos (quase) 30

Chegar aos quase trinta é perceber que, no final das contas, merecemos começar de novo.

Framepool, http://footage.framepool.com/en/shot/756074514-blowing-out-birthday-cake-birthday-party-candle

A era balzaquiana bateu à minha porta. E como boa entusiasta da maturidade, mesmo sendo a rainha das crises de idade desde os 18, estou recebendo-a com (a)braços mais abertos do que porta de puteiro e drogaria 24 horas.

É incrível e digno de muito orgulho perceber a nossa evolução pessoal, embora às vezes role um cadinho de vergonha de enxergar comportamentos e ações do passado e me questionar: “Meu Deus, sério que eu era assim?”.

Gostaria de dividir com vocês alguns dos meus aprendizados e reflexões dessas quase três décadas vividas – não tão bem quanto gostaria, mas é o que temos pra hoje.

1. A idade é apenas um número

Dígitos não definem quem você é, acredite. Maturidade está longe de se relacionar à quantidade de casas decimais da nossa existência. Percebi que estereótipos relacionados à idade, salvo raras exceções, são completamente inúteis.

Você pode, e é perfeitamente capaz de dar conta de cursar uma faculdade de artes aos 40, descobrir o seu propósito profissional aos 37, descobrir o amor aos 71, começar a jogar futebol aos 25, dançar ballet aos 23 e fazer qualquer coisa que lhe dê na telha quando bem convier.

O desempenho está muito mais ligado à persistência, coragem e vontade de aprender o novo do que àquilo que a sociedade chama de tempo certo. Que aliás, tem tudo a ver com o segundo item dessa lista.

2. Bem sucedida pra quê? Pra quem?

Filha de uma professora exemplar e de um homem que sempre trabalhou em profissões com cargos elementares, mas que sempre deu o melhor de si em todas as atividades que realizava, cresci perfeccionista e almejando o sucesso, mesmo sem saber o que era exatamente isso. Tive um conflito inevitável entre o que eu definia como “vencer na vida” e o que repetiam em meu ouvido na televisão, nas revistas e guias de carreira, na família e até na escola.

Deixei me levar por essas influências e acabei acatando o conceito imposto por outras pessoas, em vez de respeitar a capacidade de definir o que era melhor pra mim.

Eu não queria ser uma secretária executiva de salto alto. Uma diretora de operações de uma rede alimentícia. Muito menos uma aspone (assessora de porra nenhuma), nome dado a quem ocupa um cargo público, ganha bem e trabalha o mínimo, pois foi apadrinhado por algum político e só está ali pra fazer número e peso na folha de pagamento.

Eu queria escrever até dar tendinite no punho. Foi preciso praticamente dez anos gastos com cursos que nada tinham a ver comigo, um diploma empoeirado no fundo do meu guarda-roupa, lágrimas e muito sangue derramado pra perceber o óbvio – que sou uma pessoa única, assim como todas as outras, e tenho necessidades individuais. Parei de seguir o fluxo, chutei o pau, a barraca e a lona e comecei a investir tempo e amor no que amo.

Ou seja, comecei uma carreira praticamente do zero, com o mínimo de conhecimento teórico e sem nenhum atalho – mais conhecido como indicação. Não tenho carro, nem flat na zona sul, compro roupas em bazar de igrejas e de vez em quando meu pai empresta dinheiro pra pagar a fatura do cartão de crédito.

Nunca estive tão feliz.

3. A saúde é a maior riqueza que temos

Fui obesa mórbida desde sempre – e ainda sou. Sempre negligenciei a minha saúde, colocando alguma outra prioridade irrelevante na frente dos cuidados que deveria ter com o corpo e a mente. Só que a máquina um dia arrebenta, e eu negligente, pensei que isso nunca fosse acontecer.

Hipertensão, diabetes e problemas nas articulações foram apenas a ponta do iceberg. Com o tempo, o meu suado salário era destinado quase que totalmente a remédios, táxis e coisas que trouxessem conforto e fossem alívio temporário para as minhas doenças – como travesseiros caríssimos e colchões especiais.

Quando cheguei ao fundo do poço, resolvi dar a devida atenção para o meu corpo e a mente e iniciei vários tratamentos – com o uso, inclusive, de medicamentos psiquiátricos. Mergulhei na terapia – algo que sempre tive aversão – estou no caminho do autoconhecimento e a cada dia amanheço um pouco melhor. Mas sei que isso é trabalho pra vida toda.

4. Ridícula sim, obrigada!

O passar dos anos me fez perder a vergonha na cara e o medo de parecer tosca, nonsense, feia, inadequada e burra para os outros. Sempre fiz a linha da mulher forte que não chora. Da boazinha que todo mundo adora – aquela que sempre se fode. Da parceira que não se envolve, que não dá de primeira e que mantém um certo distanciamento, pra nunca perder o controle da situação.

O que eu ganhei com isso? Nada, além de depressão e da perda de várias oportunidades que jamais voltarão, mas que alguém mais esperto que eu vai saber abocanhar.

Botar a cara no sol foi libertador: falo merda (não de forma proposital, mas às vezes sai, paciência), escrevo posts nas redes sociais sem fazer uma revisão de português que Pasquale e Saconni aplaudiriam de pé, falo palavrão pra caralho, viro as costas e a bunda pra quem não gosta de mim de forma gratuita – em vez de tentar conquistar a todos com meu sorriso e voz de criancinha, não respeito a ordem dos fatores – ainda não tive noção do produto que vai resultar isso, e acima de tudo, não tenho medo de ser ridícula.

Críticas? Dizem por aí que marketing negativo não existe. Concordo com essa galera.

Chegar aos quase trinta é perceber que, no final das contas, merecemos começar de novo.

Aline Xavier
Ex-concurseira olímpica. Psicóloga para os amigos, não sabe o que fazer com a própria vida. Apaixonada por ovelhas negras, com as quais comumente se identifica. Está se descobrindo aos poucos nos cursos de escrita e na terapia semanal. Escreve em alinexavier.me.

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