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Vício em Pornografia: o que sabemos sobre isso até agora

O que cientistas e estudos dizem sobre a compulsão por conteúdos adultos.

Leitor, preste bem atenção nesta frase: até o momento, a ciência não comprovou a existência de vício em pornografia — o que não quer dizer que ela não cause problemas.

Há pouco menos de dez anos, manchetes como “A emergência e o crescimento do vício em pornografia” vêm se tornando um lugar comum em veículos de mídia. Esses textos tendem a falar sobre um aumento no número de viciados e nas maleficências dos conteúdos eróticos; sem apresentar fontes confiáveis ou apontar dados concretos de quantos são os “viciados” em pornografia, tornando impossível medir a dimensão do problema.

Quem é a pornografia hoje?

O que realmente se sabe sobre pornografia é que é uma indústria de quase 5 bilhões de dólares. E que aqui no Brasil é muito mal regulamentada, pondo quase todas as decisões éticas e morais nas mãos dos produtores, como reclama o diretor, produtor e ator, Brad Montana, dono da companhia homônima.

“Aqui no Brasil não tem um bom momento, o pornô. Lá fora, nos Estados Unidos, tem sim uma indústria organizada. Ciente disso fica difícil falar de responsabilidade, como é que eu vou falar de responsabilidade de algo que não é organizado, que não tem uma voz singular. Minha responsabilidade é apresentar coisas que eu julgo serem saudáveis, oriundas de um sexo prazeroso.”

Também se sabe que no Brasil apenas 22 milhões de pessoas assumem consumir essa mídia, sendo que 76% são homens e 24% mulheres, já denotando um traço importante para toda essa discussão: gênero.

A maioria desse público é jovem, 58% têm menos de 35 anos, e 69% está num relacionamento sério. Basicamente metade tem ensino médio, enquanto 40% têm superior. Esses dados são de uma pesquisa mercadológica do canal Sexy Hot.

E eles podem ser cruzados com os da análise anual do PornHub sobre o perfil do consumo de seu site. Basicamente, em 2018, foram registrados 100 milhões de acessos diários de todo o mundo, sendo que o número só vem crescendo.

Top 20 países por acesso em 2018

Mas antes que isso gere pânico, o próprio PornHub analisa que isso pode estar acontecendo por causa da ampliação do alcance da internet, da banda larga e dos smartphones. Quanto mais gente se conecta, mais se acessa pornografia.

Por outro lado, numa análise do consumo de 2007 para 2017, o site notou que a tendência é uma diminuição no tempo gasto com pornô; o número caiu de 13 minutos para 9, pendendo a 10, numa curva que descende suavemente.

Em contraste com a pesquisa do SexyHot, lançada em 2018, 35% dos acessos provindos do Brasil são de mulheres, sendo 65% de homens.

O mais curioso dos dados do PornHub é quais as categorias mais pesquisadas no Brasil, do primeiro pro quinto: lésbico, anal, hentai (tipo de desenho japonês), transexual, sexo a três. Com exceção do anal, que é por natureza um gênero de pornografia hardcore (sexo pesado), o resto aponta para um baixo consumo de sexo essencialmente violento.

Na verdade, a tendência geral é de que vídeos considerados violentos sejam menos consumidos, em detrimento dos que demonstram prazer mútuo — o que não quer dizer que não haja vídeos abertamente violentos e humilhantes nos sites pornográficos, nem que o nicho que os consome não deva ser levado em consideração.

O que sabemos sobre o “vício em pornografia”

Há poucas pesquisas sobre o número de pessoas com consumo compulsivo de pornografia. Uma das poucas — e de longe a mais confiável — é do Instituto Kinsey. De 2012, que descobriu que 9% das pessoas que assistem à pornografia têm dificuldade em parar de consumi-la.

Mesmo assim, é comum que os dados usados para gerar uma ideia de que há um aumento exponencial no número de “viciados” são os de consumo, citados há pouco neste artigo, e que não podem servir de amostragem para consumo problemático, pois a dimensão de uma indústria não pode ser confundida com a de um vício.

E mesmo o dado dos 9% não serve para definir vício por si, mas compulsão.

A diferença entre compulsão e vício é extremamente complexa e fruto de debate no campo científico. Ainda assim, conseguimos uma explicação simplificada pelo psiquiatra Marco Scanavino, pesquisador que lidera o Ambulatório de Impulso Sexual Excessivo e de Prevenção aos Desfechos Negativos Associados ao Comportamento Sexual (AISEP), na USPEle explica:

“Vício não é uma palavra usada, pois é muito popular, o termo em inglês é e a melhor tradução é dependência”.

O conceito de dependência vem de uma série de dados neurobiológicos e tem muitos estágios como: a habituação, a compulsão, o escalonamento do uso, a abstinência e a tolerância. Em outras palavras, compulsão é uma característica da dependência. Para complementar, o psiquiatra Flávio Gikovate trabalha um pouco mais o conceito de compulsão em seu blog:

“As compulsões correspondem a hábitos específicos que se perpetuam apesar de terem um caráter frequentemente inconveniente ou mesmo nocivo. São exemplos de compulsões o ato de roer as unhas, os variados tipos de automutilação, como por exemplo se ferir com as próprias unhas, assim como os transtornos obsessivo-compulsivos (TOC).

O que os caracteriza, a meu ver, é uma propriedade muitas vezes difícil de ser detectada, qual seja, a de que provocam uma redução de ansiedade: se alguém está muito nervoso e desenvolveu a compulsão de roer as unhas, será nessa hora que o fará, posto que isso provocará uma melhora do estado emocional.”

Seguindo a linha de Flávio Gikovate, sabe-se que o problema no consumo de pornografia está amplamente atrelado a depressão e ansiedade.

Muitos tentam apontar para uma relação causal da pornografia causar doenças psicológicas, entretanto, num artigo de 2014 que revisa a literatura sobre o modelo de vício, os acadêmicos David Ley, sexólogo pesquisador independente e escritor, Nicole Prause, filiada à Universidade da Califórnia e Peter Finn, da Universidade da Indiana, concluíram que as evidências apontam para o oposto:

“O uso de pornô pode ser elevado por conta de problemas de saúde mental que não são diretamente sexuais, como a depressão. Aqueles com uso mais frequente de pornografia reportaram mais sintomas depressivos, pior qualidade de vida e saúde mais deteriorada (…) O número de horas desprendida vendo pornografia também está relacionado com a severidade dos sintomas psicológicos.”

O artigo também conclui que essas mesmas pessoas costumam usar álcool entre outras drogas com mais frequências. E isso faz sentido dentro da teoria do comportamento compulsivo.

A pornografia, muitas vezes, serve como um escape para quando a pessoa não se encontra bem. David Ley afirma que usar dessa mídia para tal tende a ser negativo, mas que, ainda assim, é parte de um problema maior, ou seja, é a própria depressão. Embora sua visão esteja em consonância com a comunidade acadêmica, é importante ressaltar que a ligação entre o pornô e as doenças mentais não estão totalmente claras, sendo esta apenas uma revisão das evidências preliminares.

Ao mesmo tempo, cientistas vêm observando que a pornografia retoma o caráter escapista para homens em relacionamentos em crise. O que contrasta com o fato de que o consumo feminino em condições similares tende a aumentar a intimidade e a conexão sexual do casal.

Vício ou incongruência moral?

Mas voltando aos 9%. Dentro da porcentagem há gente que sequer sofre dessa compulsão. Pois, lembrando, são pessoas que dizem não conseguir parar mesmo tentando; e pode não ser porque elas consomem demais, pois, mesmo que o uso seja semanal, ou mensal, já soa como demasiado por conta de uma incongruência moral.

Em seus dez anos de pesquisa, Joshua Grubbs, PhD pela Universidade de Bowling Green State, descobriu que a grande maioria das pessoas que se auto-diagnosticam viciados em pornografia, sofre de conflitos morais, não comportando um comportamento que elas considerem prazeroso.

A última pesquisa dele envolveu 1.461 pessoas, com uma amostragem representativa da demografia estadunidense, com base no censo de 2010, cruzando com dados de outra pesquisa sobre consumo de internet. Respeitou-se nesta amostragem tanto gênero quanto raça e classe.

Quanto perguntados qual seu posicionamento com a constatação “sou viciado em pornografia”, 11% dos homens viam algum nível de verdade nisso e 3% concordavam veementemente com a afirmação; com mulheres, esses números eram 3% e 1%, respectivamente.

Em comparação com outro estudo feito na Austrália, homens que se diziam viciados era em torno de 3% e mulheres, 1%. Depois, para testar a ligação da moralidade com esses resultados, Grubbs fez perguntas referentes ao caráter e à religiosidade dos entrevistados. O resultado foi de que quanto mais religiosa a pessoa mais ela concordava com a afirmação “sou viciado em pornografia”.

A conclusão do estudo é de que a maioria as pessoas mais religiosas vivem em conflito ao se entregar aos prazeres do sexo, mesmo quando virtual e solo.

Grubbs trabalha também com atendimento clínico e, conta, ao aplicar seus conhecimentos na rotina médica, opta por acatar os desejos dos pacientes e ajudá-los a se livrar do consumo de pornô, se é isso que a moral deles dita. Em sua avaliação, as pesquisas se provam verdade no cotidiano, na qual a maioria das pessoas que o procura sofrem de incongruência moral muito mais que compulsão.

“Eu tento ajudar meus pacientes a primeiro diminuir o consumo, até eliminá-lo de vez, pois não acho que seja bom para ninguém viver com conflito com suas base morais, não importa o quão maluca possa soar”, explica.

Largar a pornografia pode fazer bem para a confiança de algumas pessoas

O pesquisador Alec Sproten, da área de economia comportamental pela Universidade de Erlangen-Nuremberga, Alemanha, estudou como a abstinência dos membros do subreddit NoFap afetava eles, fazendo perguntas sobre preferências e consumo, misturando psicologia e economia.

Ele analisava quanto tempo uma pessoa era parte da comunidade ou estava em abstinência e como isso afetava as respostas. Foi uma pesquisa breve, com uma amostragem de novembro para dezembro; um mês de abstinência. As pessoas começaram a tomar mais riscos depois desse mês.

“É positivo pois elas têm mais chances de encontrar um parceiro e gastar mais, o que seria positivo num sentido econômico. As pessoas também ficam mais altruísta também”, nos explica Alec.

Na sua visão, entretanto, esses resultados só se mostram com pessoas que de fato tem problemas com pornografia e masturbação, não se repetindo com a grande maioria. Alec é um dos poucos pesquisadores a acreditar fortemente no vício em pornografia.

“Na minha opinião é viciante, mas é mais difícil de medir que cocaína, por exemplo”, discorre.

Em contraste com essa visão de Alex, Nicole Prause, neurocientista fundadora do instituto de pesquisa independente Liberals LLC, explica que não é que é mais difícil de medir que cocaína, mas que a pornografia sequer ativa as mesmas áreas do cérebro.

“Fizemos uns 10 estudos publicados sobre isso. Alguns mediam o cérebro e outros só comportamentais. Descobrimos que o consumo de pornografia não ativa certas áreas do cérebro que marcam biologicamente o vício”, explica.

E como quase tudo nesse assunto, esse resultado também está em debate. Há outras pesquisas que apontam exatamente o contrário, sendo talvez a mais famosa — por conta da presença em inúmeras matérias e alguns documentários — a de Valerie Voon, da Universidade de Cambridge.

Analisando o cérebro de pessoas com compulsão sexual, ela concluiu que há semelhanças no comportamento do cérebro com o de um alcoólatra, principalmente nos consumidores mais jovens.

E mesmo assim, em entrevistas, ela chama atenção para o fato de que os resultados são muito incipientes e não devem ser utilizados para afirmar que pornografia é inerentemente viciante ou que os pacientes são dependentes.

O artigo continua em uma segunda parte, leia aqui.

*Todas as ilustrações são do artista espanhol Luis Quilles.

Matheus de Moura
Jornalista oriundo de Santa Catarina, radicado nas praias fluminenses. Interessado em temas raciais, economia, política e crime organizado.

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