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Atitude Coletiva

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Positividade tóxica: não é possível ser feliz o tempo inteiro – e tá tudo bem!

‘Olhar pra si pode ser dolorido, mas é libertador’.

Ah, a vida moderna. Normatizando o anormal, abominando o natural. Parece ser o que muitos costumam seguir, ainda que de forma inconsciente. Corre-corre, bate ponto, cumprir metas. Não sobra, muitas vezes, nem um pequeno espaço para nos reconhecemos como seres humanos, que sente, ri e chora.

Ser feliz o tempo todo, custe o que custar, parece ser uma obrigação. Diferente disso é anormal. Mas não! Não é não é possível ser feliz o tempo todo, e tá tudo bem!

Uma gangorra não funciona quando só um dos extremos faz força. É preciso que as duas partes tenham equilíbrio para a brincadeira funcionar. E no balançar da vida não é diferente.

Ainda que a tristeza seja vista, na maioria das vezes, como uma algo ruim, ela é parte da vida. Mas hoje, se sentir triste parece errado. Esquecemos que não é possível viver, se construir e se autoconhecer só sendo feliz.

É possível crescer sendo apenas feliz?

Corremos da tristeza, mas ela também teu o seu papel. É necessário sentir e entender. É quase impossível viver, se construir e se autoconhecer apenas sendo feliz.

De acordo com a psicóloga Michelle Teixeira, a condição humana “nos proporciona vários sentimentos, e é comum que tenhamos períodos de altos e baixos, de acordo com a situação de vida em que a pessoa estiver passando”, sendo assim, a tristeza exerce papel fundamental em nossas vidas, pois “ela está presente presente no término e início de ciclos, de fases“.

Tristeza não é depressão

Ao passo em que ficamos felizes com pequenas coisas, como um bom almoço, uma conversa ou simplesmente em não pegar trânsito no fim do dia, também podemos ficar tristes por pequenas coisas. E isso não significa ser um problema mais grave.

“É muito comum as pessoas não entenderem tristeza e depressão. A tristeza é uma condição temporária, possui um fator específico que a desencadeia. A depressão é uma condição constante, e é comum que a causa não seja identificada”, explica Michelle.

Os últimos números divulgados pela Organização Mundial de Saúde (OMS) já são altos. De acordo com a instituição, cerca de 322 milhões de pessoas sofrem de depressão no mundo, sendo 11 milhões no Brasil.

Além disso, a taxa de suicídio em nosso país aumentou em 7%, de acordo com o último relatório divulgado, indo na contramão do restante do mundo, onde a taxa diminuiu em 9,8%.

Números preocupantes. Agora imagine quanto isso subiria se toda tristeza fosse tratada como algo anormal ou algum transtorno psicológico?

Coach e sua responsabilidade tóxica

O termo é relativamente novo, mas o conceito é bem antigo. O coach – assim como no futebol americano, por exemplo – é uma pessoa com experiência em determinado campo de atuação que visa, por meio do que sabe, ajudar e guiar pessoas rumo aos seus objetivos.

Porém, nos últimos anos, ao mesmo passo em que o Coaching vem crescendo, também têm causado uma divergência de opiniões sobre a prática. Para alguns, uma forma válida de alcançar seus objetivos; já para outros, puro charlatanismo.

A falta de regulamentação, aliada ao oportunismo, é um dos principais motivos para que o Coaching seja duramente criticado. Apesar de existirem cursos sérios de formação, essa falta de legislação para a profissão abre espaço para que qualquer um exerça a atividade, muitas vezes de forma irresponsável. No Brasil, a prática não é regulamentada.

A maior polêmica envolvendo o coaching reside justamente no campo da psicologia. No caminho contrário dos profissionais da área, o principal ponto trabalhado por coaches é a exaltação da positividade; a necessidade de ser positivo a todo momento, custe o que custar.

Não é difícil encontrar por ai, cursos com promessas que colocam sob seus clientes a responsabilidade – tóxica – de serem felizes a todo momento (“só assim as coisas boas irão acontecer”), responsabilizando-as individualmente, enquanto ignoram toda a estrutura social e a noção de que a tristeza também faz parte do processo de aprendizado.

Principais conteúdos de coaches disponibilizados no Youtube

Michelle Teixeira alerta que é preciso tomar cuidado com tamanha positividade que coaches prometem e dos erros que podem ser cometidos.

“É necessário estar atento à formação de coach. Hoje, temos formação dessa profissão de um final de semana. É perigoso para saúde mental alguém que se prepara em tão pouco tempo, prometendo condições que são impossíveis de serem alcançadas se o cliente possuir um diagnóstico sério. Eles buscam ensinar um lugar de maior felicidade. Mas ensinar é diferente de tratar. Fosse assim, a depressão não seria o mal do século, e estaria erradicada.”, 

Apesar de não ter aprofundamento médico sobre a questão, a coach Thaís Caifa explica que dentro do universo do Coaching, a tristeza também pode ser trabalhada de maneira construtiva:

“Um sentimento importante. As sombras e os vales sempre farão parte da nossa vida e eles nos impulsionam a querermos ser melhores e mais fortes. Autoconhecimento nos trás memórias guardadas que são feridas que ainda podem sangrar. Isso nos tira da zona de conforto, nos impulsionando a querermos melhorar. Autoconhecimento nos liberta, nos trás paz e nos ilumina”, defende a profissional.

O outro é feliz, eu tenho que ser também!

Sorrisos, restaurantes legais, viagens para lugares paradisíacos, conquistas profissionais, festas super badaladas, relacionamentos perfeitos. Não é raro encontrar nas redes sociais ao menos uma postagem desse tipo. A felicidade, hoje, além de vivida, é também compartilhada com o mundo todo.

Mas na internet, ao contrário da vida real, o poder de filtro é grande. É fácil mostrar que tudo está bem, mesmo nos momentos em que as coisas não estão no lugar certo.

As redes sociais enganam e com isso, podem gerar comparações. Por sua vez, elas trazem o sentimento de frustração, incapacidade ou derrota para aqueles que, ao espelharem suas vidas naqueles que possuem mais likes ou uma vida “mais interessante” nas redes sociais, se sentem menos felizes e realizados.

Segundo Michelle Teixeira, essa comparação não é saudável.

“Cada um tem o seu caminho e está tudo bem. Cada pessoa tem seu processo de amadurecimento, para buscar seus objetivos e para entender qual é o seu caminho, quais são  suas habilidades e limites. O autoconhecimento precisa ser fomentado, exercido, divulgado.

Olhar pra si pode ser dolorido, mas é libertador”.

Um estudo recente, realizado pela Royal Society for Public Health, em conjunto com o Movimento Saúde Jovem, mostrou que, dentre todas as redes sociais, o Instagram era a mais prejudicial à saúde mental de jovens e adolescentes.

De acordo com a pesquisa, de 10 avaliados, 7 se diziam influenciados negativamente com a própria imagem através da rede social. Já em relação às meninas, de cada 10 entrevistadas, 9 se diziam insatisfeitas com o próprio corpo ao consumirem o conteúdo que outras mulheres postavam no aplicativo.

“As redes sociais tem um forte papel onde as pessoas buscam lugares ideais e impossíveis de plenitude, sendo este lugar impossível de ser atingido. Isso ocorre porque nas redes sociais podemos ser qualquer coisa, inclusive, muito feliz.

Isso causa a comparação nociva sobre a qual falamos anteriormente, onde o internauta pensa que pessoas ao seu redor estão sendo super felizes, mas o mesmo não tem a menor noção do que está sendo vivenciado no dia-a-dia. Fotos são momentos, não dizem sobre a vivência pessoal diária”, explica Michelle.

Recentemente, as curtidas do Instagram “sumiram”. Atitude tomada por parte dos proprietários do Instagram para reduzir os impactos negativos que a rede vinha trazendo aos usuários.

Tristeza é um sentimento legítimo

Assim como a felicidade, a tristeza é um sentimento legitimo, fazendo nos lembrar que somos humanos. Se você está se sentindo triste mas não consegue lidar com isso, é importante buscar ajuda de profissionais da área, ou seja, psicólogos. Coach não vai te ajudar nessa!

Como dizia Martha Medeiros, em seu livro Doidas e Santas:

“[…] que nos deixem quietos, que quietude é armazenamento de força e sabedoria, daqui a pouco a gente volta, a gente sempre volta, anunciando o fim de mais uma dor – até que venha a próxima, normais que somos”.

Fonte(s): Hana Khalil - Youtube, Pensador, OMS, OMS (2), Abril, Época, RSPH, Febracis, Exame, Mimimidias - Youtube
Junio Silva
Jornalista, cronista, e ex-futura promessa do futebol.

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