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Atitude Coletiva

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Porque o termo “Esquerda Cirandeira” deve ser abandonado

Segundo especialistas, a expressão está recheada de preconceitos.

Movimento “good vibes”, “abraçaços”, “beijaços”, entrega de flores à policias em protestos, coreografias, flash mob, sarau, camisetas de teor político com estampas humorísticas, textões em redes sociais, ativismo de sofá, entre outras ações que alguns chamam de “pura lacração”.

Com dinâmicas exclusivamente divertidas e midiáticas, grupos atuariam de forma alienada às necessidades concretas da luta social. É assim que a famigerada “esquerda cirandeira” é definida por outros setores da esquerda brasileira.

Será mesmo? Com a popularização do termo, grupos reconhecidos por sua resistência artística e política também se viram envolvidos nessa caça às bruxas. Inclusive as cirandas.

 

Arte como resistência política

É importante não confundir movimentos que utilizam da arte como instrumento de luta. A atriz Thaiane Abel acredita que dentro de uma resistência política, a arte funciona como uma forma do ser humano ler o mundo, pois, “é o registro da passagem do tempo, é o alívio para tempos sombrios, é como todas as sociedades se expressam”.

Rodrigo Mercadante, ator, produtor e diretor teatral, com mais de dez anos à frente da Cia. do Tijolo, coletivo teatral de São Paulo, nacionalmente reconhecido pelos trabalhos de cunho político-social, crê que a arte é um instrumento simbólico, pois permite o reconhecimento do coletivo como força, de criação de conhecimento sobre a sociedade e sobre a vida.

“Nossas intervenções querem estar ao lado de todos aqueles que pretendem assegurar, criar e desenvolver direitos.

De todos e todas que creem que a experiência humana não pode ser reduzida a lógica da mercadoria. A toda gente que acha que a meritocracia um discurso que esconde privilégios seculares. Às pessoas que acreditam que os bens culturais [cultura como produção humana] devem ser usufruídos por todos. Que os direitos devem ser conquistados acabando com uma sociedade de privilégios.

Queremos estar do lado de quem pensa e defende o mesmo. Movimentos sociais, sindicatos e partidos que defendem o mesmo”, explica.

Rodrigo Mercadante em cena no espetáculo “O Avesso do Claustro”

 

Esquerda da luta vs. Esquerda das ideias

Ainda que o lúdico esteja presente em muitas lutas, o movimento festivo (ou cirandeiro, como costumam chamar) vêm recebendo críticas não só de setores da direita, mas por parte da esquerda, que considera os atos realizados por parte dessa militância como ineficientes, vazios e mais preocupados com o resultado midiático, do que com alguma mudança real.

O foco das críticas não é a utilização do lúdico como forma de protesto, mas sim a falta de objetividade concreta em suas ações.

Em 2017, durante os protestos contra o impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff, militantes do PSOL acusaram integrantes do PCO de impedirem uma roda de ciranda durante o ato em Brasília.

A resposta do PCO, de veia mais radical, veio através de uma nota, publicada por dirigentes do partidos, onde se defenderam e negaram qualquer interferência no ato dos psolitas, além de criticarem duramente os métodos de luta de militantes do PSOL. Para eles, utilizar danças, enquanto o país vivia um momento de caos, em meio à protestos com forte repressão policial, era totalmente ineficiente.

Outro ponto abordado por críticos da tal “esquerda cirandeira” é sobre sua forma de pensar. Como os discursos, em sua maioria, partem de pessoas de classe média, branca e acadêmica, acabam por ignorar (ou desconhecer) a dura realidade das pessoas pobres, negras e não escolarizadas no Brasil, ficando apenas na teoria.

Em artigo publicado no site Justificando, o sociólogo Tulio Custódio, ressalta que o discurso de pessoas desse movimento, que pregam uma oposição mais lúdica e pacífica, justamente por desconhecer o que está fora da sua bolha social, acabam se voltando contra a luta de grupos que utilizam uma resistência mais dura.

“Quando um indivíduo (geralmente são homens) diz que uma feminista tem discurso de ódio semelhante a um indivíduo protofascita de um grupo de direita, o que ele está fazendo é apagar a realidade e a experiência do que significa ser mulher numa sociedade misógina que a mata e a violenta sexualmente em questão de minutos.

Quando se diz que a fala de um militante dos movimentos negros tem a fala de ódio assim como um jovem que defende a volta da ditadura militar, o que está apagando é a realidade de morte e aniquilação plena de corpos negros, também em questões de minutos num dos países mais racistas da diáspora”, pontua.

 

Ciranda não é (só) brincadeira de criança!

Mas é muito importante desmitificar o uso do termo “cirandeira”. Quando se fala em ciranda, na maioria das vezes, o que vêm na cabeça é uma brincadeira de criança, algo completamente inofensivo e alienante. Porém, a história por trás da dança de roda não se limita à isso.

Foi entre as décadas de 60 e 70 que a ciranda começou a ganhar forças, no litoral norte de Pernambuco, tendo como principal ponto a Ilha de Itamaracá, onde alguns historiadores acreditam que a manifestação tenha nascido.

Os cirandeiros, como são chamados os participantes da roda, costumavam dançar nas pontas-de-rua, ou esquinas, em terreiros de casas de trabalhadores.

Dançada principalmente pelas camadas mais pobres, como trabalhadores, pescadores, esposas, operários, entre outros, na ciranda não há distinção de sexo, cor, idade, profissão ou posição social. E é justamente por isso que ela é uma forma de manifestação política.

Como a socióloga Sabrina Fernandes explica, dançar ciranda é uma maneira de nutrir a mística da luta popular, o lúdico serve de forma pedagógica como ferramenta para trazer conscientização e força do coletivo em momentos de resistência.

“Dependendo do contexto, ela [ciranda] pode trazer uma mensagem política: de unidade, de resistência, de solidariedade”, explica.

Um de seus seguidores também se manifestou nesse sentido:

Sobre essa mística, em artigo publicado para o DPH, o poeta e mestre em Filosofia, Ademar Bogo, define:

As pessoas que se envolvem na preparação querem expressar, através de uma mensagem, as razões pelas quais lutamos, criando, de forma imaginária, o mundo que queremos alcançar, para que os presentes vejam e se animem a ajudar a construir aquela ideia, aquele sonho”.

Rodrigo Mercadante também acredita que esses momentos e movimentos são de extrema importância: “A arte é instrumento de luta. Gosto de citar as místicas do MST. Cantam juntos dançam juntos”.

A mística em movimentos de resistência também pode ser observada nos povos indígenas. Uma das mais tradicionais danças é o Toré, uma mistura de dança, música e teatro, considerado como símbolo de união entre índios de todo o nordeste brasileiro.

 

Ninguém solta a mão de ninguém?

Elementos festivos, como a cirandas, as místicas, danças, poesia, teatro, rodas de conversa, saraus, entre outras manifestações artísticas e culturais, fazem parte da formação pedagógica e ideológica do povo.

Ainda que parte de grupos da esquerda recebam críticas por atos vazios e ineficientes, Rodrigo Mercadante acredita que desconhecer o poder de comunicação e transformação da arte é como um tiro no pé ou uma forma de tirar a sua importância em um contexto político.

“A prova disso é a tentativa de se apropriar, desmobilizar e desmontar as políticas públicas que subsidiam a arte e a cultura que vêm acontecendo hoje no Brasil”, alerta.

Beatriz Amorim, 19 anos, militante do movimento estudantil Juventude Revolução, de Brasília, vê a arte como elemento político fundamental. Para ela utilizar “esquerda cirandeira” de forma pejorativa, como forma de criticar manifestações vazias é incorreto por diversos motivos:

“Um deles é que a direita faz uso para criticar momentos de resistência e identificação de movimentos sociais como o MST, que utilizam essas práticas.

Outro é devido ao fato de que muitas vezes, no campo da esquerda, algumas pessoas usam ele [o termo] como definição pessoal para aquilo que não está de acordo.

Usar esse termo como algo pejorativo também pode acabar deslegitimando práticas culturais que, acima de tudo, mobilizam as pessoas e são ferramentas de politização.

Creio que o correto seria deixar esse termo de lado e procurar uma melhor definição para aquelas práticas rasas que não possuem plano de ação e nem político”.

Fonte(s): Tese Onze - Youtube, Vem Pra Massa, Jornal da USP, Causa Operária, Academia, Justificando, UEPG, DPH, E-publicações, Fundação Joaquim Nabuco, Ganga Barreto - Youtube, Ciranda Circle - Youtube, Passei Web, Base DHP, Fábio Fernandes Villela - Youtube, Librelibres, Mirim Povos Indigenas do Brasil, PCO - Twitter, Fala Renata - Twitter, PCO - Twitter, Frei Gilvander - Youtube
Junio Silva
Jornalista, cronista, e ex-futura promessa do futebol.

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