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Atitude Coletiva

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O que é Niilismo e por que o jovem tem fixação por isso hoje em dia?

Especialistas explicam o motivo pelo aumento de interesse sobre o conceito filosófico.

O niilismo pode ser considerado, facilmente, a ovelha negra da família das correntes filosóficas. Enquanto a maioria tenta explicar e dar sentido as coisas da vida, essa corrente age como uma especie de “anti-filosofia”, se apegando, principalmente na total descrença de que exista algum sentido para as coisas.

Niilismo, do latim “Nihil”, significada nada. E é esse o principal ponto dessa corrente. A vida vem do nada e termina no mesmo nada, sem qualquer sentido. Além disso, o fenômeno que nasceu junto da pós-modernidade trás uma lógica de questionamento de valores sociais como tradições, dogmas e crenças que regem a vida, se apegando na certeza de que tudo é nada, ou seja, não há sentido.

Essas descrenças levam à uma vida onde tudo pode, tudo é permitido.

Considerado por muitos como um dos maiores nomes do niilismo, o filósofo alemão Frederich Nietzsche (1844-1900), é conhecido por ser o homem que “matou Deus”, porém, essa morte, na sua visão, não é apenas no sentido religioso, mas sim dos princípios que eram regidos por instituições sociais ou políticas.

“Isso – Foda-se você Deus, hoje não”

Segundo essa teoria, ao matar os “ídolos” – que aqui nada tem a ver com cantores ou astros de cinema – o homem finalmente conheceria o livre arbítrio e seria capaz de viver a sua vida sem se basear em valores impostos. Ao atingir esse estado, o homem seria, de acordo com o filósofo, um Übermensch, ou seja, o Super Homem.

O movimento surgiu ao mesmo passo em que a Revolução Industrial e Cientifica se desenvolviam, o que talvez possa ser uma explicação para a descrença e negação de sentido para a vida, pois, ao passo em que o mundo evoluía, valores antigos começavam a ser questionados.

Segundo o professor de filosofia, Luan Araújo, “o niilismo nasceu durante o romantismo como sendo uma cultura elitista e daqueles que pelo fato de terem tudo restavam a eles o nada (nihil)”, o que pode explicar a negação de valores e de sentido para a vida.

Hoje, em uma sociedade pós-moderna, as motivações podem ter outras caras. A incerteza sobre o futuro, o declínio da economia, a falta de oportunidades, o aumento no número de doenças psicológicas ou mesmo os escândalos religiosos que fazem com que a fé seja colocada em cheque.

O niilismo e a cultura POP

Hoje, a cultura popular parece ter papel importante na exposição de pensamentos niilistas, ainda que muitas vezes os jovens não tenham noção do que estão consumindo, e até mesmo de que aquilo é niilismo.

Séries como Rick & Morty, Bojack Horseman e alguns filmes do Studio Ghibli, costumam abordar, cada qual a sua maneira, diversas formas de niilismo e crises existenciais.

“Ninguém existe por um propósito. Ninguém pertence a lugar algum. Todo mundo vai morrer.”

Os personagens de algumas dessas animações e séries possuem características que ignoram os costumes e regras, vivendo uma vida “livre”. Essa liberdade, e a descrença no sentido da vida, faz com que eles não sofram com questões éticas, o discernimento entre o “certo” e “errado”.

Segundo Luan, esses conteúdos que retratam personagens com crises existenciais e que não vêem sentido na vida, muitas vezes pode legitimar determinado comportamento para os jovens.

“Às vezes me parece que esses produtos (animações, filmes, blusas, comportamentos) não tem na prática nenhuma utilidade, são apenas modos de expor uma vida ideal que cria uma casta “iluminada” por um suposto conhecimento”, indaga o filósofo.

O professor enfatiza que a compreensão do niilismo através desses conteúdos, e até mesmo a crítica que os autores fazem sobre as atitudes dos personagens, pode perder o sentido real quando mal interpretado.

“Certamente há uma distorção desonesta, nefasta e um tipo de revisionismo que não é pensamento, filosofia, realidade e nem crítica. O acesso a internet e a possibilidade de viralização de qualquer coisa transmite um sentimento de onipotência em algumas pessoas, a ponto delas acharam que podem tornar fácil a compreensão de coisas tão caras e sem respostas”, comenta.

Mas até mesmo em meio a avalanche de conteúdo que o jovem está exposto hoje em dia na internet, muitas vezes não compreendendo a mensagem que é passada e tomando as atitudes de alguns personagens como legitimas para a vida, há algumas obras que abordam o niilismo de uma forma mais responsável, fugindo dos esteriótipos.

Um desses exemplos é o filme “Vidas ao Vento” (2013), do Studio Ghibli, que é conhecido por tratar de temas ligados à reflexão sobre a vida. Na animação, Jiro Horikoshi é um jovem engenheiro de aviões e tem o sonho de projetar um avião de caça mais veloz do que os que existem.

O contexto político e social que o cercava, como os abusos do Japão na guerra, parecia não afetar o personagem que, apesar de toda tensão e todos os conceitos éticos e morais que a construção de um caça mais potente poderia trazer para o mal, não consegue enxergar isso, apenas suas obsessões.

E como bem falado no canal de vídeos ensaios Quadro Em Branco, o final desse filme é uma das coisas mais niilistas do estúdio japonês.

Mas afinal, por quê a fixação do jovem de hoje pelo niilismo?

Apesar de antiga, polêmica e controversa, o niilismo vêm ganhando cada vez mais adeptos nos últimos anos, principalmente entre os mais jovens. Mas por que? Um processo que reflete os rumos que a sociedade vem tomando, influências ou modismo?

Segundo o Google Trends, o termo ‘niilismo’ teve aumento de buscas ao longo dos últimos 5 anos.

Os rumos que a sociedade pós-moderna vêm tomando, talvez possa ser uma das explicações para jovens estarem se aproximando cada vez mais dessa linha de pensamento. No Brasil, alguns dados podem explicar tal questionamento sobre a existência de sentido na vida.

Outro fator é a busca pela inserção em grupos sociais e a necessidade de se destacar em relação as massas; que sempre existiu. Porém, de acordo com o mestre em Ciências Sociais, Frederico Tomé, esse cenário, hoje, mudou de motivações.

“De certa maneira, o que antes era uma vinculação social e política, preocupada com o coletivo, hoje está mais ligada à uma preocupação com o pessoal, uma maximização dos prazeres individuais e o rompimento de laços sociais.

Nesse caso, de fato, os jovens acabam encantados por essa condição de pós-modernidade do niilismo e buscam, através dessas práticas, essa inserção. Me parece que, ao invés dos jovens buscarem essa prática, é ela que condiciona a vida da juventude nos tempos atuais”, reflete.

Já o filósofo Luiz Felipe Pondé, querido entre “jovens niilistas”, destaca em vídeo publicado em seu canal no Youtube, que existem aqueles que “brincam de niilistas”. Ele explica que esse fato, geralmente, acontece em pessoas de classes sociais mais altas, que participam de círculos intelectuais e entendem de fato o conceito do niilismo, utilizando isso como uma forma de “parecer descolado”.

Em artigo publicado no jornal Gazeta do Povo, o filosofo ainda destaca o cuidado que devemos ter com o niilismo e na ideia de que nada tem sentido, principalmente entre os mais jovens. É importante lembrar que nem sempre o niilismo está ligado com transtornos psicológicos, pois, não é uma doença, e sim um conceito filosófico abrangente.

Então niilismo é bom ou ruim?

O niilismo causa divergência de opiniões entre as pessoas, principalmente pelos vários lados e visões que pode ter. O nada, base do conceito filosófico, pode ser tão amplo ao ponto de ser tudo. Mas no fundo, o niilismo é bom ou ruim?

“Essa nova forma de vida industrial nos coloca em uma condição onde as pessoas vão ficando cada vez mais unidas fisicamente e mais separadas sentimentalmente, por que é como se configura essa vida urbana.

Em termo antropológicas, mais que uma visão positiva ou negativa, há uma percepção  de uma consequência, onde existem pontos positivos e negativos.

Uma ideia de maior aproveitamento da vida, a partir da fuga dessas amarras religiosas e sociais, e como o niilismo nega esses valores. Nesse caso ela seria altamente positivo. No lado negativo, ele vem pra mostrar como as sociedades estão fragmentadas e fraturadas, configurando assim uma condição da pós-modernidade”, conclui Frederico Tomé.

Fonte(s): Quadro em Branco - Twitter, Quadro em Branco - Youtube, Meteoro Brasil - Youtube, Luiz Felipe Pondé - Youtube, InfoEscola, Quora, Gazeta do Povo, Ludoviajante - Youtube, Philipe Peters - Youtube, Revista Galileu, IPEA, Observatório Terceiro Setor, IBGE, OMS
Junio Silva
Jornalista, cronista, e ex-futura promessa do futebol.

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