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Por que me apaixono rápido? O segredo escondido na infância

Traumas da infância têm mais impacto na vida adulta do que imaginamos.

Ariane Barrocal Velasco Publicado: 05/05/2021 12:04 | Atualizado: 05/05/2021 12:09

Diversos comportamentos que carregamos na vida adulta são reflexos diretos da infância. Nesse artigo, vamos detalhar porque isso acontece e como podemos transformá-los.

 

Os segredos obscuros da infância

Todos gostam de pensar na infância como uma época tranquila, feliz e sem obrigações, onde podíamos jogar bola, brincar de esconde-esconde e correr para um adulto quando nos machucávamos.

No entanto, a infância, como tudo, tem o seu lado “obscuro”: ela é uma fase extremamente complicada, e provavelmente a época de nossa vida onde estamos mais frágeis.

Desde os primeiros anos, em que dependemos de nossos pais para tudo, até o início da adolescência, os primeiros anos de nossa vida nos impactam mais do que pensamos.

É na infância que passamos a perceber (ainda de maneira confusa) que nossa mãe não é uma extensão de nós – e que nossos pais têm como função controlar nossos impulsos (em outras palavras, impedir que nos matemos). É bem verdade que alguns pais podem ser rigorosos demais, no entanto, o que pode contribuir para ainda mais traumas.

Os acontecimentos da infância influenciam diretamente a vida adulta

Os limites traçados durante a infância, bem como as primeiras sensações tidas como ruins, como raiva, ciúme e necessidade de aprovação, aliadas a impossibilidade de fazer coisas que, embora perigosas, nós queríamos (em outras palavras: de realizar nossos desejos)… tudo isso e muito mais pode se transformar em feridas que, por mais incrível que pareça, carregaremos durante toda a nossa vida.

Os resultados disso são claros: alguns adultos crescem extremamente controladores, outros não sabem lidar com a própria raiva, reprimem qualquer sentimento negativo e se culpam. Existem também aqueles que se apaixonam fácil demais – e se tornam emocionalmente dependentes.

Tudo isso porque, quando crianças, nossa própria incapacidade (natural) de compreender o mundo nos impediu de entender a complexidade das situações.

Além dos casos mais óbvios de violência, abusos psicológicos e alienação parental, muitas vezes, nossos pais discutiam simplesmente porque casais discutem ou ficavam semanas fora a trabalho pelos compromissos que a contemporaneidade exige.

Embora essa compreensão seja obtida com o tempo, foi Freud que disse que, na vida psíquica, o que é registrado não desaparece, ou seja: a sensação de abandono, mesmo racionalizada anos mais tarde, pode ser o motivo por trás de um apego exagerado a um parceiro, por exemplo.

 

Por que a infância?

É na infância que passamos a nos perceber enquanto sujeitos.

O comportamento daqueles que vivem perto de nós passa a ser imitado e, justamente por ser esse comportamento que servirá como modelo de como agir no mundo, ele também nos afeta com muito mais facilidade. A infância é uma fase de desenvolvimento (e isso é mais do que suficiente para sua importância).

A psicanálise deu atenção especial a essa fase da vida, analisando pacientes através de relatos que não se limitavam ao tempo presente de suas vidas. Esse tipo de abordagem considera que o passado tem peso e influência em nossas decisões, no modo como a psique se configura.

É a partir do conceito de inconsciente, trabalhado principalmente por Freud e Lacan, que questões como o trauma são analisadas.

Sigmund Freud, fundador da psicanálise

Embora existam outras abordagens (psicológicas) que desconsiderem o inconsciente – como o behaviorismo de Skinner – ou psicanalíticas, que trabalhem através da noção de inconsciente coletivo (como é o caso de Carl Jung), a psicanálise freudiana é amplamente difundida atualmente, o que a torna uma boa introdução para quem quer compreender a questão dos traumas de infância.

Freud foi o primeiro a se atentar à importância dos acontecimentos da infância para a organização da psique. Suas teorias sobre o desenvolvimento do sujeito ainda nos primeiros anos da infância podem dar uma boa ideia de como a mente “grava” os acontecimentos e os retém, de modo que eles continuam tendo grande influência mesmo na vida adulta.

 

Todo mundo tem traumas?

Verdade seja dita: de um jeito ou de outro, todo mundo precisa de terapia.

Isso nem sempre quer dizer que a pessoa tenha problemas psicológicos graves, ou que sua vida não esteja boa: está mais do que na hora de acabarmos com esse estigma. A terapia é uma forma de nos conhecermos melhor, de sabermos os motivos por trás de nossas ações.

Quem nunca agiu por impulso? É completamente normal! Por outro lado, você já refletiu sobre por que agiu por impulso, ou por que fez o que fez no momento da raiva, ou da tristeza?

Não precisamos olhar para a palavra trauma com medo: no fundo, ela é parte de quem nos tornamos. O que precisamos não é evitar o trauma a todo o custo, mas saber como lidar com ele.

 

O que dizem os psicólogos

Para entender melhor como profissionais da área lidam com o assunto, o Almanaque SOS entrevistou três especialistas: Abel Beserra, psicólogo formado pela Universidade de São Paulo (USP), Gabriela Mafra, neuropsicóloga pelo Centro Universitário das Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU) e Larissa Simões, psicóloga formada pela Universidade São Judas Tadeu (USJT), que podem explicar muito bem por que os traumas de nossa infância causam tanto impacto na vida adulta. Confira a seguir.

Almanaque SOS: por que a infância nos afeta mais do que outras fases? Ela afeta mais do que a adolescência, por exemplo?

Abel Beserra: Segundo a psicanálise, a infância tem muita importância por ser a fase em que constituímos as bases da nossa personalidade. Não que outros períodos não interfiram, pois reeditam os principais conflitos e impasses que nos marcam na infância. Além disso, também é possível que eventos posteriores nos desestabilizem ou tenham um impacto disruptivo, sobretudo quando o desfecho dos conflitos infantis é precário ou instável.

Gabriela Mafra: Se pensarmos sob um aspecto de desenvolvimento, sim. É na infância onde nos desenvolvemos não apenas em um nível psicológico, como também o sistema motor, linguagem e tantas outras habilidades que serão essenciais para o resto de nossas vidas. É nessa fase que “descobrimos o mundo” e isso vai impactar diretamente na forma como iremos interagir com ele.

Larissa Simões: Porque é a fase em que o sujeito está mais dependente do ambiente externo para conseguir sobreviver e se desenvolver, necessitando inteiramente de um outro ser humano que possa lhe garantir a satisfação de suas necessidades de alimentação, de amparo, e de proteção contra qualquer possível ameaça à sua vida. Afinal, como as possibilidades de defesa do bebê ainda são muito primitivas e pouco potentes, tudo para ele pode ser experimentado como muito perigoso, demandando bastante a presença de alguém que esteja atento a ele.

Como o cérebro e as estruturas psíquicas ainda não estão completamente formados, qualquer acontecimento que escape à capacidade de compreensão da criança, ou que cause ameaça à sua integridade física durante este período, é capaz de provocar registros bastante intensos, podendo comprometer seu desenvolvimento psíquico e emocional em etapas posteriores da vida.

Mesmo a adolescência sendo um período também de experimentações, descobertas e de um certo grau de vulnerabilidade, o cérebro se encontra nas etapas finais de sua completa formação. Desta forma, o indivíduo possui mais recursos psíquicos para lidar com situações complexas ou geradoras de sofrimento, quando comparado à infância.

Especialistas explicam como os traumas de infância influenciam na vida adulta

SOS: existem diversas abordagens na psicologia. Fale um pouco melhor sobre a sua e como ela lida com traumas infantis.

AB: Eu trabalho com psicanálise, fiz psicologia, mas não sou psicanalista. Considero que a psicanálise oferece um respaldo teórico e prático muito interessante, sobretudo a partir dos casos de Freud. A transferência, a associação livre, são dispositivos técnicos que permitem que conflitos inconscientes, cuja base é a infância, possam vir à tona e ser trabalhados.

Desse modo, é possível oferecer uma escuta ao paciente, um tratamento, que trabalha as questões do paciente em amplo sentido e, ainda, evitar a reprodução de dispositivos normativos, ou seja, que estabeleçam metas exteriores àquelas que o próprio sujeito constrói para si mesmo. Esse é um ponto ético fundamental nesse trabalho com psicanálise.

GM: A Neuropsicologia dialoga com a Neurologia e a Psicologia, fazendo essa ligação entre as funções cerebrais e a forma como o indivíduo se comporta.

Nesse caso do trauma, podemos trabalhar a percepção do indivíduo sobre o ocorrido e utilizar conceitos da Psicologia Comportamental, observando as relações de estímulo e resposta da criança e então criar algumas técnicas para enfrentamento do trauma.

Esse processo é gradual, com muitos aspectos lúdicos no caso da criança e com muito diálogo. É importante que os cuidadores participem e estejam envolvidos também, para que tenhamos melhores resultados.

LS: A Psicanálise é uma abordagem que teve início com as descobertas de Sigmund Freud sobre a existência do “Inconsciente” que, em poucas palavras, é uma grande parte do nosso psiquismo onde não temos acesso. Neste espaço estão registrados conteúdos, tais como memórias, desejos, sentimentos e pensamentos que, por alguma razão, estão afastados do que chamamos de “Consciência”. Assim, tudo o que é inconsciente está impedido de ser lembrado, nomeado ou percebido pelo sujeito com facilidade.

Aquilo que é mantido no Inconsciente não permanece ali à toa, porque são conteúdos que, caso fossem lembrados ou expressos pelo sujeito, teriam fortes chances de causar sofrimento ou desconforto para ele próprio e/ou para alguém. Um evento traumático é um exemplo disso.

A depender da intensidade do trauma para a criança, numa estratégia de se defender do sofrimento decorrente, o psiquismo afasta da consciência a lembrança do que foi vivido. O resultado disso é o sujeito não se lembrar daquilo que vivenciou, ou se lembrar muito parcialmente e de forma confusa, distorcida. Entretanto, mesmo que a memória do trauma vá para o Inconsciente, este segue ali vivo e tende a se manifestar sob a forma de alguns sintomas: ansiedade, fobias, pesadelos, dificuldades de relacionamentos interpessoais e bloqueios são alguns deles.

Num processo de psicoterapia que segue a abordagem psicanalítica, a depender do teórico específico no qual o terapeuta se baseia, os sintomas funcionarão como pistas, pois ligam o sofrimento consciente do paciente ao conteúdo traumático mantido no seu Inconsciente. É um processo bastante complexo, pois será através da fala do sujeito em sessão que o profissional começa a atribuir sentidos e significados ao emaranhado de conteúdos trazidos pelo paciente.

Além disso, é um trabalho que demanda muito cuidado por parte do terapeuta, pois trazer à Consciência a lembrança de um evento traumático pode ser extremamente sofrido e terrível para o paciente. Trata-se muito mais de auxiliar o sujeito a perceber que seu sofrimento está ligado a uma vivência muito difícil, para que ele possa aos poucos ir atribuindo significados a essa experiência e descobrindo maneiras menos penosas de lidar com ela.

SOS: É possível nos livrarmos completamente dos traumas de infância através da terapia? É necessário nos livrarmos de todos eles?

AB: Nós somos efeito desses acontecimentos na primeira infância e não o contrário. Logo, a pergunta precisa ser invertida: caberia a nós sermos diferentes se estes acontecimentos fossem distintos? Além disso, a própria ideia de trauma precisa ser relativizada, talvez melhor ponderada.

Conflitos, embates, impasses, contradições, podem ser chamadas de trauma ou seriam somente aquilo que nos humaniza? Que é parte de quem somos? Pretender um ser humano acima de sua finitude é trabalhar, tacitamente, com um ideal de ser humano que abstrai a experiência concreta de todos nós.

GM: É possível nos livrarmos das consequências que afetam nosso dia a dia e trabalharmos certos pensamentos ou aspectos negativos na terapia, mas tudo varia de pessoa para pessoa, na verdade. Existem casos em que a intervenção medicamentosa é necessária e existem casos em que apenas a terapia já é o suficiente. Não existe uma regra geral quando se trata de seres humanos, todos temos aspectos muito únicos.

O trauma se dá quando as reações causadas por determinado acontecimento são maiores do que o sujeito consegue lidar e isso causa sofrimento, então é importante que esses traumas sejam tratados para que o indivíduo tenha uma qualidade de vida melhor. Os mecanismos de defesa gerados pelo trauma geralmente não eram presentes ou tão intensos no comportamento do indivíduo antes do acontecimento. Isso pode ser identificado pela entrevista inicial, que é feita com os pais.

LS: É interessante pontuar que existem diferentes tipos de trauma, e que nem todos são tão terríveis para o sujeito que os vivencia. É difícil pensar em “se livrar” deles, pois ainda que ele seja esquecido e mantido no Inconsciente, ainda segue ali acompanhando o indivíduo por toda a vida, eventualmente se manifestando em sonhos ou sintomas, por exemplo.

Assim, ao invés de pensarmos em como apagá-los completamente, já que não é possível, a alternativa é tentar diminuir a intensidade dos impactos causados por eles. Sem dúvidas, a possibilidade que o contexto terapêutico oferece de acolhimento e de expressão dos afetos relacionados, contribui significativamente para a compreensão do que foi vivido, possibilitando alternativas mais saudáveis de como lidar com as cicatrizes resultantes do impacto gerado pelo trauma.

Dentro da Psicanálise, um dos teóricos que se dedicou bastante aos estudos dos traumas foi Sándor Ferenczi. Segundo suas descobertas, o trauma do tipo patológico possui 3 personagens principais: a criança, o agressor e o adulto em quem a criança confia para contar o ocorrido e que irá desacreditar de seu relato, minimizando ou invalidando seu sofrimento. Como consequência, a criança fica entregue a um sentimento de desamparo, duvidando de si mesma se o terror que sentiu foi de fato real ou fruto de sua imaginação, perdendo a confiança também em figuras parentais que não lhe ofereceram a proteção ou o acolhimento de que tanto necessitava.

Desta forma, o que o processo de psicoterapia proporcionará, sobretudo, é a escuta e validação do trauma, algo que nem sempre o paciente conseguiu obter quando criança. É importante que o terapeuta ajude o sujeito a nomear o que foi vivido, reconhecendo a experiência como real, verdadeira e potencialmente ameaçadora, numa fase de grande vulnerabilidade e poucas possibilidades de se defender sozinho.

De um modo geral, a pré-condição para um evento ser considerado “traumático” pelo sujeito é a ausência de preparo e a incapacidade de se defender daquilo. A pessoa é surpreendida de maneira muito súbita e imprevisível, sem nenhuma chance prévia de antecipar o evento e ter alguma chance de então se organizar para lidar com ele.

Podemos pensar que um evento traumático é algo que atravessa o indivíduo, como uma porta de vidro sendo estilhaçada. Considerando essas características e analisando o grau de sofrimento apresentado pelo sujeito, é possível identificar a intensidade do impacto que aquele acontecimento provocou no psiquismo, e que por ele foi percebido como algo traumático.

Dependendo do momento do desenvolvimento em que um trauma é vivido, a personalidade do sujeito poderá ser mais ou menos afetada. Como ela começa a ser formada nos primeiros meses de vida e estará praticamente consolidada no final da adolescência, este tende a ser um período sensível, em que o ego do indivíduo estará em processo de se tornar sólido e integrado. Uma vez que um trauma atravessa este ego ainda frágil, os efeitos tendem a comprometer o relacionamento saudável da criança com seu mundo interno e com a realidade externa.

Como consequência, a personalidade que estava sendo desenvolvida num processo contínuo, de repente sofre impedimentos, apontando para o surgimento de sinais e traços de uma personalidade mal adaptada ao mundo externo e às relações, desviando do que seria esperado de uma vida psíquica saudável. Em casos mais extremos, o sujeito pode romper com a realidade externa que lhe foi tão ameaçadora e desprazerosa, entrando num quadro psicótico.

Fazer terapia é a melhor opção para lidar com traumas

SOS: Quais são os principais traumas observados no consultório atualmente?

AB: Eu reformularia os termos da questões para: quais seriam os principais conflitos ou questões na psicopatologia contemporânea? Assim como no início do século XX as neuroses obsessivas e a histéricas tinham grande destaque, hoje observamos a ansiedade, a depressão e as compulsões como problemas marcantes no consultório. O motivo é, em suma, as mudanças sociais.

Nossas questões mais internas, segundo Lacan, são uma extimidade e revelam uma alteridade, um Outro, com o qual interagimos desde muito cedo e que marca a formação da nossa personalidade. Esse outro, essa alteridade, é tanto pessoal (a partir de um cuidador encarnado) quanto cultural (por meio de enunciados, do discurso, que nos situa no desejo de quem nos ama e com quem lidamos desde que nascemos).

Se não bastasse isso, essa interferência social desde o princípio da formação da nossa personalidade, o modo como podemos enunciar nosso desejo, demandá-lo, é mediado por condições sociais específicas. Em um sociedade neoliberal, capitalista, que atravessa toda a vida social, temos cobranças, individualização da culpa, um discurso da eficiência em detrimento das relações afetivas e do bem-estar, etc. É o ponto em que Freud encontra Marx, como tão bem exemplifica Marcuse em Eros e Civilização, por exemplo.

GM: Existem diversos e também acredito que isso vá depender de profissional para profissional. Luto e abuso são situações que infelizmente estão muito presentes.

LS: É inevitável considerar que o período atual de pandemia, de crises econômicas, políticas e de saúde pública é um cenário bastante propenso à vivência de traumas para todas as faixas etárias. Vivemos uma fase de ameaças de perdas sucessivas e crescentes de pessoas próximas, de trabalho e de fontes de prazer que antes tínhamos. Os sentimentos de desamparo e de desesperança, também típicos do trauma, atualmente estão bem presentes na vida das pessoas.

Mas trazendo um recorte da minha experiência clínica, desde a época da graduação, tive contato com casos envolvendo traumas relacionados ao abuso sexual infantil, violência, negligência e perdas de pessoas próximas que não puderam ser simbolizadas na infância pelo paciente.

Fonte(s): How our childhoods affect our adult lives | YouTube
Ariane Barrocal Velasco
Estudante de filosofia e redatora. Quando não está lendo, está escrevendo.

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