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Plataformas e o Neo-feudalismo: entenda porque Uber, Netflix e Spotify são donas de você

Igual um servo feudal, você não tem posses, apenas aluga o direito de uso.

Foi-se o tempo em que éramos donos de nossa própria personalidade, do que líamos, assistíamos e jogávamos; agora o mundo é dos senhores feudais da tecnologia.

Exatamente o que você leu.

Qual foi a última vez que você comprou um box de séries para assistir quando quiser? A última vez que comprou um disco ou um CD e o quão grande é a sua coleção em relação aos álbuns salvos no Deezer ou no Spotify? Ainda pensa em comprar carro ou pegar Uber e 99 basta? Nem “seu” pacote Office é seu — deixe de pagar a anuidade do Windows para ver o que acontece.

Deixe-me começar do começo

A economia da Europa Feudal era pré-capitalista e portanto se baseava na redistribuição, um dos três moldes econômicos existentes na época (reciprocidade, subsistência e redistribuição), como bem ilustrado neste vídeo do canal sobre cultura, Wisecrack.

Com a invenção do capitalismo, a nossa economia, em maior e menor grau, passou a se basear no livre mercado, na competição entre empresas pelo oferecimento do melhor produto pelo menor preço.

Claro que, na prática, isso se mantém só no papel, pois nem falamos de monopólios e oligopólios das companhias até aqui.

Um “novo” modelo econômico

Com a chegada da internet, um novo modelo econômico começou a se desenvolver: o de plataformas, no qual uma empresa de tecnologia conecta as duas pontas do mercado, o consumidor e o produtor.

O começo disso está nas empresas de e-commerce, na gringa, o E-bay, aqui, OLX e Mercado Livre que servem o mesmo propósito: você quer se livrar de algo ou é um comerciante que quer expandir as possibilidades de alcance, alguém quer comprar seu produto, pronto, unidos. Mas lentamente, isso se desenvolveu para tudo ao nosso redor.

Quer ouvir música? Spotify coleciona uma quantidade absurda de artistas e você pode ter acesso, basta pagar a mensalidade. Filmes? Netflix e Amazon. Jogos? Steam. Por aí segue. Num primeiro momento, parece um bom negócio, você não precisa mais comprar zilhões de coisas, soa econômico.

É como se você pagasse para ter acesso à coleção de álbuns do seu amigo milionário.

Tome aqui umas músicas, meu caro amigo camponês.

Mas qual o problema disso?

Simples: igual um servo no sistema feudal, você não tem posses, você aluga o direito de uso. Quando o seu “amigo milionário” quiser tirar esse álbum das suas mãos, ele poderá. Você não tem controle algum. Quando a Netflix excluir um título do catálogo, adeus, fique satisfeito com os originais dela – enquanto tiver com a assinatura em dia.

E o cenário tende piorar, pois, com a rentabilidade desses negócios, mais empresas decidiram entrar no mercado de serviços por plataforma e inscrição, como a toda poderosa Disney, por exemplo. Portanto, você terá de pagar mais obrigações feudais, vulgo assinaturas mensais e dados pessoais, se quiser ter acesso a tudo o que gosta.

O buraco é bem mais profundo

Talvez a maior prova do sistema neo-feudal são os aplicativos de entrega e transporte, como iFood, Rappi, 99 e Uber, que alugam as vagas de emprego, cobrando taxas e acessórios dos trabalhadores (carro, bicicleta, bolsas, etc.), sem ter qualquer obrigação trabalhista – falamos mais sobre isso em um artigo próprio (porque merece), leia aqui.

O sistema neo-feudal atinge inclusive as empresas, que estão trocando seus escritórios devidamente regulamentados por alternativas em plataformas como Airbnb, como revelado pela Folha de S. Paulo.

Sem direitos trabalhistas garantidos, entregador por aplicativo usa bolsa comprada por ele, enquanto se locomove com uma bicicleta que ele próprio alugou em outro aplicativo.

E calma, jovem. Antes de querer defender sua plataforma favorita com unhas e dentes, reflita, pois pior do que tá, fica!

A monarquia absolutista, vulgo: monopólio

Antes perder a autonomia fosse o único dos problemas, mas ainda existe o perigo real da centralização de poder por uma ou mais empresas: basicamente estaríamos indo do sistema feudal para a monarquia absolutista. Após o sucesso das plataformas, Google e Apple, que já detém poder absoluto sobre nossas vidas e serviços, decidiram apostar tudo no ramo:

  • Apple anunciou que vai diminuir o foco no desenvolvimento em aparelhos eletrônicos para dominar o mercado de streaming com o Apple TV Plus.
  • Google – que já domina o setor – está lançando o Stadia, a plataforma de jogos que deve assassinar a Stream e que estará conectada ao Youtube, entre outros serviços da própria empresa, prendendo-o mais um pouquinho a uma única marca.

Estas duas gigantes da tecnologia estão à frente de todo o mercado, afinal, são donas de praticamente todos os nossos dados, sabendo como nos alimentar com conteúdos irresistíveis.

Já no mundo das e-commerce, a Amazon vem matando os pequenos negócios um-a-um, em basicamente todos os setores da economia que ela entra. O segredo para seu crescimento é simples: competição injusta.

A empresa pequena decide anunciar na Amazon ao seu preço quase próximo do custo, a gigante da tecnologia reproduz o mesmo produto ou compra-o direto da fábrica e vende por um preço menor ainda, para além de tudo te indicar o próprio produto, já que a plataforma é deles. Se quiser saber mais, assista ao episódio “Amazon” do programa Patriot Act com Hasan Minhaj na Netflix, ou no Youtube.

Os novos senhores feudais

Disney, Amazon, Google, Apple e Facebook matam a concorrência lentamente e dominam cada área em que pisam, simplesmente porque são nossos donos. Donos dos nossos dados. E seus dados são você.

“Proprietários da infra-estrutura da sociedade… acabam com a propriedade privada para as massas e fornecem tudo como um serviço por firmas quase monopolistas.” – Nick Srnicek, teórico político.

Cada dúvida respondida na web, cada conversa com um amigo, reação a um vídeo, tempo de demora para responder a um questionário e até mesmo as coisas faladas perto dos celulares, tudo isso é deles, que poderiam calcular seus próximos passos, se assim quisessem. E o fazem.

As indicações de vídeos, filmes, músicas e produtos te prendem às plataformas e, muitas vezes, ao conteúdo original delas — quantas vezes a Netflix não te indicou após o termino de um filme?

Você já paga os serviços com dinheiro e os dados. Eles são donos das coisas que você ama e do seu comportamento. Tudo isso isso é perigoso em muitos níveis, pois seus dados são commodities, vendidas a quem pagar mais.

Além de que não se pode confiar 100% na qualidade do cuidado delas para com seus dados, pois com um mero quiz uma empresa pode ter acesso aos dados do Facebook e usar em campanhas políticas, como aconteceu no escândalo envolvendo a Cambridge Analytica – explicamos tudo sobre isso aqui.

Sua privacidade está sempre a um termo de uso não lido. Em terra de ninguém, como é a internet, as empresas mais poderosas do mundo controlam seus ‘feudos’ sem garantia aos ‘servos’, como retratado no documentário “Privacidade Hackeada” da Netflix (quanta ironia).

Assim como no feudalismo e na monarquia, fato curioso é que essas corporações mantém uma relação quase religiosa com seus clientes que, como fieis, às defendem de maneira cega e irrestrita. Mesmo com todos os abusos, são praticamente intocáveis.

Extremismo religioso

A comodidade da internet e de seus serviços faz com que nos mantenhamos dependentes de uma economia predatória e neo-feudal. Resta aos governantes regulamentar essa “nova” organização social e econômica, garantindo que acabem os abusos contra usuários e trabalhadores, bem como o mal uso de nossos dados.

Se estamos fadados a repetir a história, revoltas poderão ser cada vez mais frequentes. Isso porque a relação de servidão e falta de oportunidades estabeleceu várias rebeliões camponesas no século XIV, quando reivindicavam a redução das obrigações feudais e maiores parcelas do que era produzido.

O único problema é que os camponeses perderam no final desse filme.

Fonte(s): Minha Educação
Matheus de Moura
Jornalista oriundo de Santa Catarina, radicado nas praias fluminenses. Interessado em temas raciais, economia, política e crime organizado.

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