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Por que orgânicos são caros? Eles querem que você acredite nisso!

25 de janeiro de 2021
Postado por Maite Turetta

Ao escolher produtos de qualidade para sua alimentação, o preço vai falar mais alto. Nesse artigo vou desmitificar o motivo que leva o preço dos alimentos orgânicos nas alturas – e o que você pode fazer para sair dessa.

 

Diante da alta no preço do arroz convencional, uma opção se mostrou viável para os consumidores: o arroz orgânico produzido pela agricultura familiar, que não possui seu preço fixado nos interesses do mercado externo, apresentando menor variação de valor nesse período.

Isso nos leva à pergunta: por que nós não consumimos o arroz orgânico ao invés do arroz convencional produzido pelo agronegócio? Há quem argumente que os “orgânicos são caros”. Mas será mesmo?

A Aliança para Alimentação Adequada e Saudável, organização civil que busca desenvolver ações para uma alimentação mais saudável, por meio do avanço de políticas públicas, aponta como principal motivo para que os orgânicos sejam mais caros nas prateleiras o fato de não receberem os mesmos incentivos fiscais que os produtos ultraprocessados e aqueles provenientes do agronegócio e, claro, dos latifúndios.

 

Antes de continuar…

é preciso entender a enorme e importante diferença entre agricultura familiar, agronegócio e latifúndio:

  • Agricultura familiar: é o cultivo da terra realizado por pequenos proprietários rurais, tendo, como mão de obra, essencialmente, o núcleo família. Esse grupo, que ocupa somente 24% do total das terras produtivas no Brasil, é responsável por cerca de 80% dos alimentos que consumimos.
  • Agronegócio: mantem-se nas mãos mais pessoas (empresas) com a obtenção de grandes quantidades de terras, utilizadas principalmente (!) para a produção internacional.
  • Latifúndio: propriedade agrícola de grande extensão pertencente a uma única pessoa, uma família ou empresa e que se caracteriza pela exploração extensiva de seus recursos. Menos de 1% das propriedades agrícolas é dona de quase metade da área rural brasileira, segundo a Oxfam.

A Frente Parlamentar da Agropecuária, ou “Bancada Ruralista”, como é conhecida – um lobby bancado por associações e empresas do agronegócio – conta com 257 deputados e senadores. Sim, são eles que criam as leis.

 

Como funcionam os incentivos fiscais?

Segundo Matheus Gringo, diretor estadual do MST, 60% do ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços) é descontado para produção do agronegócio, e essa mesma produção não possui taxação de IPI (Imposto sobre Produto Industrializado).

Um exemplo disso são as bebidas e insumos açucarados que possuem um incentivo fiscal ainda mais generoso, pois parte significativa da produção é feita na Zona Franca de Manaus, e as empresas ainda recebem um crédito no valor do imposto que não foi pago, ou seja, elas são duplamente beneficiadas por essa forma de tributação.

Para piorar esse cenário, recentemente, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), solicitou ao Ministério da Saúde uma “revisão urgente” do Guia Alimentar para População Brasileira, alegando que o documento contém muitas restrições aos alimentos ultraprocessados.

A nutricionista Ana Paula Bortoletto, do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (IDEC), argumenta que essa inversão de valores na forma como a tributação incide sobre os alimentos, privilegiando os ultraprocessados em detrimento dos saudáveis, está associada com o aumento de doenças como diabetes, obesidade, câncer etc.

O preço dos orgânicos nas prateleiras dos supermercados e a política tributária sob os alimentos estão intimamente relacionados. No entanto, não é só isso que dificulta nosso acesso aos orgânicos nos supermercados.

 

Aspectos que encarecem os produtos orgânicos nos supermercados

1. Incentivo

Para Arley Gomes da Silva, 37 anos, assessor técnico da Associação Agroecológica Quintal Verde, localizada em Jucati, Pernambuco, falta incentivo.

Ele alega que uma das maiores dificuldades dos pequenos produtores é a falta de assistência técnica continuada, “a transição do modelo de agricultura convencional para a agroecológica não é fácil”, faltam incentivos e acompanhamento para os produtores sobre “diversidade de produtos, forma de cultivo, controle de pragas, cuidados com o solo”.

Além disso, os supermercados não incentivam a produção de orgânicos. Os produtos que estão ali, quando estão, visam atingir um nicho de mercado ainda muito restrito.

2. Taxa de Lucro

Segundo Cristina Petroni, 52 anos, produtora no Sitio Sete Estrelas, Igarassu – Pernambuco,

“os preços que essas redes de supermercados praticam nos alimentos orgânicos é abusiva, e o agricultor é de certa forma prejudicado pelo valor que eles querem pagar pelo alimento, por isso ainda há tão poucas opções de encontrar hortaliças, frutas, beneficiados, oriundos da Agricultura Familiar Orgânica com preço justo nos supermercados.”

Em seu sítio são produzidos pães, bolos, sucos, geleias, conservas, carne de jaca, tudo com o que plantam de forma agroecológica. Ela alega que gostaria de fornecer para supermercados, mas ainda não tem as “burocracias” necessárias, além de considerar abusiva a prática de precificação adotada pelas grandes redes.

Diante desse cenário, os produtores familiares precisam garantir que o produto tenha alguma margem de lucro, e como a demanda ainda não é grande, essa margem pode chegar em até 2 vezes o valor do produto. Para Cristina, no entanto, a demanda por produtos orgânicos tem crescido, e ela vê com otimismo o setor.

3. Embalagens

Para se enquadrar nas normas sanitárias, que também não beneficiam os produtores familiares, os produtos normalmente já são enviados para as gôndolas em isopores, plásticos ou algum tipo de embalagem. Isso encarece o produto, além de não ser nada sustentável.

4. Logística

De onde vem esse produto orgânico que está no supermercado? Será que vem de alguma região próxima, ou tem que passar por um processo mais complexo de distribuição?

Lembre-se de sempre valorizar o produtor local. É uma garantia de qualidade e valorização do trabalho.

Foto: Filipe Augusto Peres

SEM LEGENDA

5. Intermediários

Esse produto veio direto do produtor ou de uma cooperativa? Quanto mais intermediários para que o alimento chegue até o supermercado, mais caro ele fica.

“Há uma diferença grande em preços de alimentos orgânicos praticados em Feiras Orgânicas/Espaços Orgânicos/Agroecológicos, e os mesmos praticados pelos supermercados de maior porte. Nas feiras orgânicas, a comercialização é direta, Agricultores – Consumidores, visando o preço justo para ambos os lados”, explica Cristina.

6. Sazonalidade

Você já notou que nos supermercados tem sempre os mesmos produtos orgânicos?

Isso acontece porque se o alimento não é da época, fica muito mais caro para produzi-lo sem veneno. O agronegócio usa veneno, dentre outros motivos, para forçar a produção de determinado produto fora de sua época natural. Já a produção agroecológica funciona de outra forma:

“Como não forçamos a produção, respeitamos as safras, nosso custo de produção não mexe muito durante o ano (…). Se temos o alimento, vendemos, se não temos, não vendemos, a entressafra não dirá o nosso preço. Só por exemplo, um pé de alface americana é vendido por R$ 2,50 o ano inteiro. E o aproveitamento desse pé de alface é quase total, pois ele não estraga com facilidade (…)”, nos conta a produtora do Sítio Sete Estrelas.

 

Ou seja…

Os produtos orgânicos não são caros, eles são encarecidos por uma política pública que beneficia o agronegócio.

A partir desses elementos entendemos que o que encarece o produto orgânico é a forma como ele é tributado, desencorajando sua produção, e as barreiras que são impostas para que o produto seja facilmente distribuído, dificultando nosso acesso.

Por causa dessa política, as pessoas adoecem mais, gerando altos custos para o sistema público de saúde (SUS), que enfrenta um intenso processo de desfinanciamento desde 2016, como argumenta Joana Cruz, advogada da ONG ACT.

Alexander Marcellus, mestre em Nutrição e criador da página no Facebook “Menos impostos, mais saúde”, defende que uma mudança nesse cenário, além do engajamento individual, necessita de medidas regulatórias como:

  • a diminuição de imposto sobre os alimentos saudáveis;
  • a garantia de uma rotulagem correta dos produtos ultraprocessados (possibilitando maior transparência para o consumidor);
  • e a restrição de publicidade positiva para esses alimentos.

Apesar disso, é possível driblar essas dificuldades para acessar comida de verdade. A seguir vamos apresentar algumas dicas dos produtores para encontrar produtos orgânicos mais baratos e acessíveis do que você imagina!

 

Dicas dos produtores para acessar comida de verdade

Uma das melhores formas de superar as barreiras impostas pelo mercado convencional de alimentos é se aproximar dos pequenos produtores. Dependendo da cidade onde você mora existem redes de cooperação entre produtores familiares.

Faça uma busca na internet, você vai se surpreender com as possibilidades!

1. Feiras Livres de Orgânicos

Aproveite as feiras livres orgânicas que acontecem em várias partes do país. Elas reúnem os produtores locais e oferecem os produtos mais frescos e saudáveis. Já detalhamos como funciona, você pode baixar o aplicativo ou entrar no site Mapa de Feiras Orgânicas.

2. Delivery

Em algumas cidades existe uma variedade de delivery de alimentos orgânicos, procure saber se na sua já está disponível esse serviço. Você pode procurar pela rede de Armazéns do Campo que são lojas de destruição dos produtos da Reforma Agrária (MST) ou redes como:

3. Respeite a Sazonalidade do Alimento!

Esse aspecto é muito importante para que você não leve veneno para sua mesa, já que alimentos produzidos fora do seu período natural possuem mais chances de ter altos níveis de agrotóxico. No material Agricultura Tóxica, produzido pelo Greenpeace, você pode consultar quais alimentos possuem maiores quantidades de veneno em sua produção.

 

Rumo à mudança de hábitos!

Cada passo é essencial para a mudança que queremos! É urgente que tenhamos consciência que uma alimentação orgânica, saudável e acessível é um direito.

Foto: Filipe Augusto Peres

SEM LEGENDA

Os produtores entrevistados são otimistas em relação ao aumento da demanda por produtos orgânicos e saudáveis.

Cristina Petroni, por exemplo, comenta que “faltam pernas pra alcançar as oportunidades!”, além de afirmar que a produção agroecológica é “lucrativa em vários aspectos: financeiro, saúde, qualidade de vida”.

Já Arley, se orgulha de produzir uma boa variedade de hortaliças, mesmo com todas as dificuldades da transição do modelo convencional para o agroecológico.

Retomando a dica de ouro: conheça os produtores e produtoras da sua região e invista um pouco mais de tempo para selecionar a comida que você vai levar para sua casa.

No fim das contas, você vai perceber que a comida orgânica (sem veneno) é mais barata quando acessada diretamente com os produtores, além de ter os benefícios de reduzir as chances de adoecimento e contribuir para redução do impacto ambiental.

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