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Vai, planeta!

Nescau lançou canudinho de papel dentro do plástico; resolve alguma coisa?

Muito além dos canudinhos, precisamos repensar a questão do consumo.

Não é novidade que enfrentamos uma verdadeira crise mundial com lixo plástico. Aqui no SOS falamos várias vezes a respeito do assunto: desde como é lucrativo para a indústria continuar o processo de produção desenfreada de plásticos, até como nosso sal de cozinha está repleto de partículas plásticas, bem como a nossa água.

Quando o assunto é canudos plásticos, o que temos é um movimento global que busca banir esse item – quase sempre desnecessário. Falamos melhor sobre isso nesse artigo. No Brasil, alguns estados e várias cidades já baniram o item do comércio em geral.

Muito bem. A Nestlé, uma das três empresas que mais poluem os oceanos com plástico, anunciou uma parceria com o Projeto Tamar. Em 2019, apresentou o projeto #JogaJunto, cuja finalidade é reduzir a quantidade de lixo plástico gerado pela Nescau, mais especificamente do achocolatado em caixinha.

Uma das propostas do projeto trata da substituição gradativa do canudinho plástico, que acompanham a bebida láctea ‘Nescau Prontinho’, por um canudinho feito de papel. A ideia é que até 2025 essa substituição esteja completa.

Mas afinal, canudinho de papel faz diferença ou não?

Atualmente, com a comercialização desses produtos já sendo feita de maneira mais ampla, as discussões sobre o real impacto dessa medida são pertinentes para repensarmos nossos hábitos de consumo – e os hábitos de produção.

Em entrevista ao SOS, Nathália Machado, doutora em Ecologia e Consultora Ambiental, mencionou que toda iniciativa de redução do lixo plástico é bem vinda, mas que a ação da Nestlé é pouco perto do que a empresa pode oferecer:

É um passo pequeno. A Nestlé precisa pensar muito maior. Eles têm total condição de pensar em algo muito maior do que atender apenas essa demanda do mercado, que é uma demanda de uma visão ainda muito pequena sobre a questão dos descartáveis”, destacou.

O ecologista, mestre em Ciências Ambientais e permacultor Djalma Nery, afirma que a substituição não tem peso, visto que a empresa não cogita abandonar o uso do plástico:

Essa proposta mostra que eles [Nestlé] estão preocupados em atender uma demanda de mercado, mas não chegaram a questionar realmente o ponto principal da questão, que passa por abandonar o uso de plástico em seus produtos.

É bacana refletir sobre isso, mas o impacto representado por essa substituição é ínfimo”, apontou em entrevista ao SOS.

Djalma mencionou, ainda, que os canudos plásticos representam menos de 0,5% de todo lixo plástico gerado e que, por isso, não devem ser entendidos como inimigos número 1 do meio ambiente.

Teríamos que repensar e debater sobre toda a cadeia produtiva do plástico em geral. E debater a pertinência do uso de garrafas, copos e todo tipo de utensílio descartável em plástico que acaba indo parar nos mares ou em qualquer outro local onde é nocivo ou prejudicial”, alerta o ambientalista.

Nathália também menciona que simplesmente substituir por papel esses itens de uso único, como canudos e copos, por exemplo, não consiste em uma solução real para o problema, porque a produção de papel também é impactante.

Outra ação do projeto é o movimento #JogaPraDentro. As caixinhas de Nescau vêm com instruções para que o consumidor insira o canudinho dentro da embalagem após o uso. Em tese, isso é importante porque os canudos são muito pequenos e dificilmente chegam à fase de reciclagem.

Sobre essa alternativa, Nathália fez algumas ressalvas:

De fato, itens muito pequenos são muito difíceis de chegar na cadeia final do processo de reciclagem. Porém, a reciclagem precisa ser pensada como uma última etapa. Se você tentou tudo para evitar gerar aquele lixo e você, realmente, precisou gerar aquele lixo, aí sim a gente pensa em reciclagem. Porque é um processo que também demanda recursos, como água e energia“, pontuou.

E os animais marinhos?

Uma imagem que chocou – e ainda choca muitas pessoas – é da tartaruga encontrada em 2015 por ambientalistas. Havia um canudo plástico em suas narinas. A substituição dos canudos de papel agiria também neste problema?

A bióloga Andréa Borin mencionou em entrevista ao SOS que o papel se degrada mais rápido, porém mesmo mesmo assim os canudos biodegradáveis podem ferir as narinas dos animais ou serem ingeridos. Borin destacou, ainda, que a celulose não é digerida pelo organismo animal.

E agora, quem poderá nos salvar?

Não é o Chapolin, e muito menos a Nestlé. Afinal, a própria empresa tem em sua cartela de produtos, milhares de descartáveis plásticos que continuam sendo comercializados normalmente.

Toda essa discussão nos mostra que iniciativas privadas no sentido de reduzir a quantidade de lixo gerado são positivas; mas estão longe de tratar a raiz do problema: o consumismo e a lógica descartável. Não podemos resumir essa batalha em proibição ou substituição de canudinhos plásticos, por exemplo.

A sociedade precisa se apropriar e estender o debate, bem como suas ações.

O canudo precisa ser olhado como uma metáfora, e a gente precisa pensar em todos os descartáveis. Temos que ampliar essa visão”, finaliza Nathália.

E, mesmo quando se trata da manutenção cultural dos canudos, já existem soluções nacionais mais inteligentes no sentido ambiental, como a empresa Taloo, que comercializa canudos 100% naturais, feitos com talos de trigo – e eles não vêm em embalagens plásticas.

Fica a dica, Nestlé.

Fonte(s): Ciclo Vivo, Nestlé, UOL
Daiane Oliveira
Jornalista, feminista e mãe. Discute religião, política, sexo e hábitos sustentáveis. Não discute futebol porque não entende. Quem sabe um dia.

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