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Atitude Coletiva

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A mulher negra para casar é a mulher branca

Caso contrário, fica só o desejo intenso para o sexo sem compromisso. Apenas.

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Mulheres são objetificadas de forma geral, isso é fato. Porém, algumas delas sofrem múltiplas opressões. Como mulher e negra, diariamente sinto nas costas o peso do machismo e também do racismo – fruto do passado e de uma mente escravocrata que, lamentavelmente, ainda persiste na sociedade. Somos vistas como fáceis, fogosas, desejadas intensamente para o sexo sem compromisso – ou no máximo para envolvimentos frugais.

Em contrapartida, somos preteridas para os envolvimentos sólidos e duradouros. Como se fôssemos menos dignas, de menos valia. Inclusive – e talvez – principalmente, pelos homens negros (mas isso é assunto pra outro texto). A ala masculina se defende e jura de pés juntos que suas preferências nada mais são que “questão de gosto”. Porém, gostos são construídos socialmente, conforme padrões aos quais estamos expostos desde a infância.

Nunca tive um relacionamento sério – e sei que isso não se deve somente ao meu nível de beleza e ao fato de ser uma mulher gorda. Tenho amigas brancas, ou com a pele mais clara, tão ou mais gordas que eu, essas que, em sua maioria, estão noivas ou casadas. Algumas felizes, outras não. Mas a questão é que elas têm ou tiveram alguma história de amor pra contar, ao contrário de mim.

Lembro de quando conheci um rapaz na faculdade – com quem tive o “envolvimento” mais longo de toda a vida – três meses. Ele afirmava não estar priorizando um namoro no momento, e propôs que nos conhecêssemos sem maiores expectativas. Concordei e depois de um tempo, ele terminou, aparentemente sem motivos, pois nunca cobrei um relacionamento dele. Três semanas depois, ele estava namorando com uma colega de sala – branca, loira de olhos claros e esguia – usando aliança de compromisso e bradando pro mundo o quanto estava apaixonado. Você consegue imaginar como eu me senti?

E não há dúvida que a mulher considerada bonita, que aparece na TV com frequência, que é capa e recheio das revistas de moda, que atua em papéis relevantes no cinema e no teatro – só pra citar alguns exemplos, é branca (e magra). As negras que têm algum espaço são, em sua maioria, as de cabelos cacheados, pele e olhos mais claros e traços caucasianos. Ou seja, mais aceitáveis e próximas do padrão eurocêntrico de beleza, como Taís Araújo, Camila Pitanga e Ildi Silva.

Raramente uma negra retinta – de pele bem escura – é vista na mídia. E quando aparece, quase sempre está representando papéis subalternos e/ou estereotipados: a favelada barraqueira, a “mulata” que vai ao samba todo domingo e rebola sem parar, a sem modos que briga por causa de homem, entre outros.

Segundo a Socióloga Ana Paula Alves Pacheco: 

“Em nosso imaginário cultural, as características raciais e fenotípicas da mulher negra – considerando a cor da pele, as características do cabelo, a estética – estão o tempo todo associadas a estereótipos negativos. Essas representações estão vinculadas não apenas ao imaginário social, mas também ao imaginário acadêmico, literário. Na música, nas imagens socialmente produzidas, o que sempre se destacou (em relação à mulher negra) são essas características, relacionadas a um comportamento sexualizado, quase que servil – e isso é a reprodução de uma concepção bem colonial, quase que a imagem reproduzida da mulher escravizada, que estaria, portanto, para servir ao outro, ao senhor. E a outra representação é a do trabalho, de como a mulher negra seria ‘pau para toda obra’, seria boa para o trabalho servil e doméstico, e não seria uma mulher com desejos, com possibilidades de construir uma afetividade, de ter projetos pessoais, familiares, de uma mulher que tenha a capacidade de pensar. Em contrapartida, a imagem da mulher branca está vinculada a um comportamento mais condizente com uma expectativa de gênero mais tradicional, aquela que seria ideal para casar, para se manter um relacionamento, para ser mãe, enquanto a mulher negra não caberia nessa representação”.

O preterimento de nós, mulheres negras, leva ao adoecimento físico e principalmente, mental. Ansiedade crônica e depressão são comuns e nos tornam mais vulneráveis a relacionamentos abusivos. A solidão afetiva baseada na cor destrói a autoestima. Por isso, o empoderamento é um ato político tão importante. Enxergar a beleza existente em nossos cabelos, lábios e narizes é imprescindível pra que reconheçamos o nosso valor enquanto mulheres.

E aos homens brancos e negros, cabe a responsabilidade de refletir sobre seus gostos e principalmente, desconstruí-los. Porque se a preferência de quase todos é apenas uma cor de pele, existe algo muito errado aí.

Deixo aqui algumas sugestões de leitura: Síndrome de Cirilo e a solidão da mulher negra A solidão da mulher negra e o racismo cotidiano e A solidão tem cor.

E vídeos: Claudete Alves (parte 1 e parte 2) e Taís Araújo no programa Espelho.

Aline Xavier
Ex-concurseira olímpica. Psicóloga para os amigos, não sabe o que fazer com a própria vida. Apaixonada por ovelhas negras, com as quais comumente se identifica. Está se descobrindo aos poucos nos cursos de escrita e na terapia semanal. Escreve em alinexavier.me.

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