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Morando Sozinho, pela primeira vez – O Primeiro Mês

Relato do Lucas, ex-filhinho da mamãe, que resolveu sair de casa para morar em outro continente.

Dario C L Barbosa Publicado: 21/10/2013 12:15 | Atualizado: 21/10/2013 23:48

Texto por Lucas C. Vidigal

Sempre vivi no conforto máximo da casa dos pais. Desde criança fui acostumado a ter uma pessoa à disposição para arrumar o que quer que fosse meu. Quarto bagunçado? Sem problema, no dia seguinte estava tudo nos trinques. Comida? Minha casa era um restaurante. Caiu mostarda na blusa? Amanhã ela aparece limpa no armário, como mágica.

Acontece que num belo dia acordei e decidi que queria fazer intercâmbio em Lyon, na França, já no fim de meu curso na universidade.

Nisso, eu me lembrei de que, no intercâmbio universitário, precisaria morar sozinho. Não teria uma família à disposição como na viagem da minha irmã aos Estados Unidos no ensino médio. Era eu comigo mesmo. “Putz, só sei fazer ovo mexido, raramente arrumo meu quarto e nunca lavei roupa, louça, nem nada”, pensava.

Mas numa coisa tinha razão: morar sozinho se aprende morando sozinho.

Embarquei.

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Aí vou à residência estudantil. Tudo o que eu teria era um quartinho de nove metros quadrados sem banheiro.

Quando entro no cubículo, o susto. NADA. Só uma escrivaninha e uma cama com colchão sem lençol, travesseiro nem nada. Uma vassoura e uma pá. O único luxo (tá, isso era MUITO luxo) era um frigobar. Na hora me lembrei da música da “casa muito engraçada”. Sentei e entrei em pânico por alguns segundos.

Respirei fundo e pensei: se eu não resolver, ninguém resolve. Pior que faz um bem pro ego isso.

Fui ao mercado. Lista de compras enorme, mas precisava ser objetivo: só produtos de “casa”. Uns amigos que também haviam acabado de chegar foram juntos, o que foi bom até para a gente se ajudar. Comprei coisas que não pensei que fosse precisar tão cedo na minha vida. Panelas, detergente, lençol, edredom, travesseiro, bucha, copos, talheres, pratos… É claro que muito vinho também: aqui se a garrafa custa mais que quatro euros, ela é muito cara.

Ainda bem tinhas amigos que sabiam falar francês melhor que eu, pois eu não fazia ideia de que detergente era “lave vaisselle”, por exemplo.

Arrumei meu quarto com post-its lembretes, horários, recados e listas para dar uma personalizadinha. Ficou bonitinho e com minha cara.

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Mas o problema: cinco dias depois de arrumado… PÂNICO E CAOS! Nada estava arrumado e não tem empregada ou mamãe para ajudar. Então bora. Liguei o som alto e comecei a varrer. Arrumar o quarto com música é gostoso, exceto quando o pó cai da pá e aí você precisa revarrer a sujeira caída. Também deu pânico ver que… o ser humano fede! Passo perfume, desodorante e tomo banho todo dia, juro! Mas, poxa. Um espaço fechado por cinco dias não deve cheirar bem.  Então, taca desinfetante (cheiro de maçã verde. Estranho, mas nada mau).

Depois, comprar comida. Aqui me dei bem com comida congelada, apesar de a consistência não ser tão bonita. Só sabia mexer ovos, mas aos poucos comecei a ousar mais como colocar carne na frigideira – para quem nunca cozinhou isso é um passo gigante, sério.

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Mas aí vi que prato e talher não se limpam sozinhos. Para cada minuto apreciando a comida, dois minutos para lavar a louça. Coisa que também jamais havia feito. Lógico que comecei errado: passando pano de prato para tirar gordura (o que não surtia muito efeito). Foi aí que descobri a bucha, ou esponja. Ô coisa divina. Ela e o detergente tiram tudo!

Lavar roupa seria um problemão porque eu não fazia ideia nem de como começar. A sorte é que na residência há duas máquinas que funcionam muito bem. Tem até secadora. Sempre tem gente na lavanderia, então é até bom para o social.

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Mas foi na hora de lavar roupa que caí no erro de não olhar as recomendações das etiquetas. Eu tinha uma camisa que adorava. Não era a mais bonita, mas servia tanto para ir à universidade como às baladas. Encolheu e ficou com uma consistência esquisitíssima. Não era para colocar na secadora e agora não sei o que faço com ela – estou com dó de jogar fora.

Inclusive, acabou para mim o mito de que comer em casa é comer de graça. Afinal, é preciso COMPRAR a comida que fica na geladeira, que nem sempre é barata. There’s no free lunch. Parece idiota, mas quando a gente mora com os pais parece que a reposição é automática. Quando eu vejo, sai o mesmo preço comer em casa ou no restaurante universitário (aliás, o RU daqui é ótimo e tem até cerveja).

Também aprendi que existe uma coisa chamada prazo de validade. De nada adianta comprar mil coisas que vão vencer em cinco dias. Não dá. Aí comecei a fazer uma espécie de plano alimentar de acordo com os prazos. É claro que nem sempre sigo, mas ajuda.

O grande lance é que no começo isso tudo é desesperador. É claro que quando a gente usa o mantra “estou viajando, estou viajando” fica tudo mais fácil, mas vi que era eu quem precisava fazer as coisas. O mais legal é no fim, quando tudo fica prontinho e dá aquela sensação de independência. Muah.

E é nisso que a gente aprende também que existe um trabalho muito duro por trás de uma casa nos trinques. Fico pensando em como deve ser difícil às pessoas que trabalham para cuidar de dois lares (a nossa e a deles) – até mesmo ser obrigado a limpar a sujeira alheia com mais cuidado que do que a própria. É fácil ser contra assinar carteira de domésticas, quando se viveu a vida inteira achando que toda a arrumação era automática.

A maior recompensa de arrumar as próprias coisas é tê-las de acordo com seu próprio jeitinho. Só quem mexeu na minha bagunça daqui (porque ainda assim é uma bagunça rs) fui eu. Isso dá um gostinho bom.

Mas o melhor de tudo é se presentear com uma garrafa de vinho do bom (que custou dois euros ou nem isso) ao final de cada arrumação pesada. Hummmm!

 

MANDE SUA HISTÓRIA

Dario C L Barbosa
Fundador e editor do Almanaque SOS. Paulistano, formado em Comunicação Social, trocou os anos em redes de rádio e televisão pela internet em 2012. Vegetariano, meditante e ecossocialista na luta por consciência e equidade. ( Twitter - Instagram ).

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