• Colabore!
  • Sobre nós
  • Contato
  • Anuncie

Crossfit Mental

chevron_left
chevron_right

Martin Luther King Jr. era pró-armas, republicano e conservador?

E votaria no candidato da extrema-direita do Brasil?

Nem o ícone da luta pelos direitos civis da população negra estadunidense escapou das fake news que permeiam o imaginário dos brasileiros na internet.

Martin Luther King Jr.

É possível que você já tenha ouvido falar do reverendo Martin Luther King Jr., pastor evangélico da Igreja Batista, foi conhecido por ser uma das mais importantes lideranças do movimento por direitos civis da população negra dos Estados Unidos, entre as décadas 1950 e 1960.

Dr. King é lembrado frequentemente pelo evento que marcou um século da abolição da escravidão nos EUA, em 1963, ocasião que fez seu famoso discurso apelidado de “Eu tenho um sonho” para cerca de 300 mil pessoas. Foi assassinado em 1968 com 39 anos, em uma visita à Memphis, Tennessee, por apoiar uma manifestação de trabalhadores negros.

Recentemente, o pastor foi colocado no centro de uma polêmica nas redes sociais, com afirmações de que ele teria sido do partido republicano, representante da ala conservadora da sociedade americana, o mesmo de Donald Trump.

E não para por aí: usuários do Twitter afirmaram que ele também era pró-armas e se tivesse vivo e fosse brasileiro, votaria no candidato da extrema-direita, Jair Bolsonaro.

“Alguém disse uma mentira um dia”, Martin Luther King em discurso em 1964

[espacamento-de-seguranca]

Apesar de antigo, o boato foi encontrado perambulando por aí no Twitter depois do episódio protagonizada pela cantora Anitta, que foi pressionada pela comunidade LGBT sobre seu posicionamento contra o a candidatura de Jair Bolsonaro por declarações misóginas, racistas e homofóbicas.

No tweet em questão, a funkeira escolheu, em primeiro momento, não se manifestar. Nisso, o editor do SOS respondeu à artista com uma citação de King e a partir daí a treta começou.

Muita gente ficou desconfiada de que esse seria só mais um roteiro ruim da tragicomédia estrelada pelas fake news das eleições brasileiras de 2018.

Então, o autor do tweet sugeriu aos críticos:

Bom, seguimos o conselho dele e descobrimos, através de fontes seguras, que não é bem assim. A seguir, reunimos as principais falácias sobre assunto e montamos um guia com argumentos fundamentados a partir de informações confiáveis.

 

1. Martin Luther King era republicano?

Até uma celebridade polêmica se envolveu na thread. O ex-integrante do programa CQC e apresentador do SBT, Danilo Gentili, endossou o argumento de que o reverendo era republicano. Mas não é bem assim.

Dr. King nunca foi filiado ao partido Republicano e não há nenhuma evidência que ele tenha demonstrado apoio a ala mais conservadora da sociedade americana. Esse mal-entendido foi desvendado pelo site de checagem Politifact em 2016, quando Philip Van Cleave, presidente da Virginia Citizens Defense League, organização em defesa do porte de armas nos Estados Unidos, afirmou em uma manifestação que Luther King ficou ao lado do partido republicano.

Como relatado na reportagem, de fato, há uma série de declarações como essa, baseando-se, em grande parte, em comentários feitos há quase dez anos por Alveda C. King, sobrinha do líder dos direitos civis.

“Meu tio, o dr. Martin Luther King Jr., durante sua vida foi um republicano”, disse Alveda em um vídeo postado no site da Associação Nacional Republicana Negra, algo que ela mesma depois desmentiu em um artigo que publicou no site Newmax, em 14 outubro de 2013.

A declaração foi rejeitada até mesmo pelo filho do reverendo, Martin Luther King III, em uma entrevista à Associated Press em 2008, afirmando que seria “insincero” dizer que seu pai era republicano. “Ele nunca endossou nenhum candidato à presidência e certamente não há provas de que ele sequer votou em um republicano”, disse o herdeiro de King à agência.

 

2. Martin Luther King foi perseguido pelo partido comunista?

Esse boato foi muito impulsionado por um vídeo gravado por Olavo de Carvalho, um dos maiores representantes do conservadorismo brasileiro.

O escritor, em um vídeo publicado no Youtube em 14 de março de 2016, ao ser questionado sobre comparações feitas entre King e Barack Obama, afirmou que o ex-presidente dos Estados Unidos “estaria usurpando a fama de um grande homem”, e que ele seria “exatamente o oposto de Martin Luther King”, afirmando ainda que “se havia um cara que o Partido Comunista odiava e queria matar era Martin Luther King”.

Como é de se suspeitar, as acusações de Olavo de Carvalho estão equivocadas. Segundo o jornal The New York Times, Martin Luther King foi perseguido e investigado pelo FBI sob acusações de ser “comunista” e praticar ações que eles consideravam “antiamericanas”.

Em uma reportagem de 2014, o jornal americano divulgou uma carta de 1964 em que o FBI chamava King de “besta do mal” e o ameaçava, afirmando que ele “havia apenas uma coisa a fazer. Você sabe o que é”. Segundo a matéria, o pastor teria relatado a amigos que a intenção era fazer com que ele se matasse.

Fica ainda pior para as declarações de Olavo. No livro “A Autobiografia de Martin Luther King”, que reúne textos do reverendo organizados por Clayborne Carson, publicado no Brasil pela editora Zahar, King afirma instigar-se pelo modo como Karl Marx descreve seu desejo por uma sociedade mais justa e igualitária em seu “Manifesto Comunista”.

“Marx levantou algumas questões fundamentais. Desde minha adolescência, eu tinha uma preocupação profunda com o abismo entre a riqueza supérflua e a pobreza abjeta, e minha leitura de Marx me tornou mais consciente desse abismo. (…) Além disso, Marx tinha revelado o perigo do motivo lucro como base única de um sistema econômico: o capitalismo corre sempre o perigo de inspirar os homens a se preocuparem mais em ganhar a vida do que em construir uma vida. Tendemos a avaliar o sucesso de acordo com nossos salários ou com o tamanho de nossos carros, e não pela qualidade de nosso serviço à humanidade e de nossa relação com ela”, escreveu Dr. King em seu diário.

 

3. Martin Luther King era pró-armas?

Não é bem assim, Eduardo.

Como explicado neste artigo publicado no jornal The Guardian, de fato, o reverendo teve o pedido de porte de arma negado em 1956 por razões estritamente racistas. Porém, segundo os autores, “esse episódio não é, como alguns membros da NRA tentaram sugerir nos últimos anos, motivo para que King deva ser lembrado como um republicano pró-armas”.

Depois de um atentado com bomba à sua casa no mesmo ano, o pastor passou a andar com seguranças armados, o que despertou reflexões em si mesmo sobre suas pregações em favor da não-violência e da visão cristã de “amar o próximo”. Em 1959, após uma peregrinação na Índia, ele passou a encarar a não-violência como um “modo de vida”.

Em 1964, com 35 anos de idade, o reverendo recebeu o Prêmio Nobel da Paz por defender a conquista dos direitos civis de modo pacífico.

Seu posicionamento causava divergências entre o próprio movimento negro, que tinha forte expressão do Partido dos Panteras Negras, liderado por Malcom X, que defendia o uso da força como forma da população negra ganhar espaço no país. Em seu discurso ao aceitar o Prêmio Nobel da Paz, ele afirma:

“A civilização e a violência são conceitos contrários. Os negros dos Estados Unidos, seguindo o povo da Índia, demonstraram que a não violência não é uma passividade estéril, e sim uma poderosa força moral que leva à transformação social.”

Um dos momentos mais emblemáticos de sua atuação foi a organização de uma marcha em 1965 entre as cidades de Selma e Montgomery, ambas no Alabama, como uma forma de chamar atenção para a pauta dos direitos dos negros votarem. O evento foi decisivo para o Congresso estadunidense discutir e aprovar, naquele mesmo ano, a equiparação do direito ao voto entre negros e brancos.

Em 1968, seu assassinato impulsionou o debate sobre o controle de armas nos Estados Unidos e foi um dos motivos pelos quais uma lei nesse sentido fosse aprovada seis meses depois, como relatado nesta reportagem do jornal The New York Times.

Caminhada de Selma a Montgomery

 

4. Martin Luther King, conservador?

É difícil dizer. Se por um lado, como defende o editorial de Washington Post de 15 de janeiro de 2017, “Dr. King fez muito para preservar, proteger e defender o melhor de nossos princípios e valores”, por outro, King lutou até a sua morte para romper com a opressão e a violência que eram destinadas à população negra estadunidense.

Como pastor da igreja protestante, não é clara a sua posição, por exemplo, em relação aos direitos da comunidade LGBT. No entanto, segundo uma reportagem do blog destinado à Religião da CNN, há setores que consideram a amizade do pastor com o líder de direitos civis abertamente gay, Bayard Rustin, como evidência de sua simpatia com a causa.

Negro, ativista dos direitos civis, pacifista. É impossível saber como Martin Luther King Jr. se posicionaria hoje no cenário político americano ou nas eleições brasileiras.

Mas, ao analisar sua trajetória, parece improvável que ele se juntaria ao partido de um presidente que chama nações africanas de “buracos de merda”, como afirmou Trump em uma reunião na Casa Branca, ou apoiaria um candidato que defende o porte de armas e afirma que os povos quilombolas “não fazem nada, não servem nem para procriar”, como fez Jair Bolsonaro, em uma palestra para a comunidade judaica no Rio de Janeiro, em 2017.

Lutando contra a opressão em seu país, a única coisa que sabemos é que ele sonhava com um mundo mais inclusivo, igualitário e afetuoso.

Martin Luther King Jr. em seu discurso histórico “I have a dream”, Washington, 1963

Julia De Cunto
Jornalista na era da pós-verdade, feminista, atriz dos maiores dramas da vida cotidiana.

Tá na rede!

Quero mais!

Veja mais artigos!

Em caso de chefe
clique aqui