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Funkeiros Cults: nasce uma revolução de dar orgulho à Paulo Freire

Com recurso freiriano, jovens da periferia demonstram interesse por política e sociedade.

Junio Silva Publicado: 23/06/2020 16:04 | Atualizado: 23/06/2020 17:52

Localizado na zona oeste de Manaus, o bairro Compensa é conhecido por ser uma das áreas mais perigosas da capital amazonense, sendo considerado um dos berços da facção Família do Norte (FDN). Foi nesse cenário que o criador da página Funkeiros Cults, Dayrel Azevedo, 21, viveu toda sua vida.

 

Como nascem os funkeiros cults

Apesar do ritmo ainda ser marginalizado por parte da elite nacional, como acontecia com o samba no início do século XX, funk é um dos principais movimentos que faz a cabeça dos jovens da periferia. Com Azevedo não era diferente.

“O funk sempre esteve presente na minha vida, só faltava o cult”, revela Dayrel.

Ironicamente, o interesse por arte, literatura e cinema só surgiu na vida do jovem depois de terminar a escola, através das redes sociais. Foi por lá que ele começou a consumir esses conteúdos, criando gosto pela coisa.

“Você pega dicas, expande, sai da bolha!

Eu sempre lembro de uma frase do Criolo de um vídeo, que diz ‘saber que as coisas existem muda sua visão do mundo”, conta.

O primeiro emprego que Dayrel conseguiu com carteira assinada, depois de trabalhar em alguns bicos para ajudar sua família, também teve papel importante para o surgimento do lado cult em sua vida.

Durante um ano trabalhou como bedel (uma espécie de auxiliar administrativo) em uma universidade particular. Por lá, teve maior acesso à informação e educação, fazendo surgir o desejo de ocupar uma daquelas cadeiras, como estudante de psicologia.

“A mente humana foi algo que sempre me atraiu, eu sempre pensei em outras áreas como letras, história, jornalismo, mas acho que todas elas de uma forma ou de outra voltam pra mente humana. Queria aprender sobre o ser humano antes de ir pra outro campo. É algo que realmente me atrai. Infelizmente tive que adiar por conta da pandemia, gastos, outras prioridades etc”, desabafa.

Com a crise de coronavírus, há algumas semanas, Dayrel perdeu seu emprego.

 

Choque de realidades

Camisas de time, correntes de prata, cabelo sempre na régua, óculos espelhado, risquinho na sobrancelha. O estilo chavoso de Dayrel, consequência de sua vivência ligada à cultura periférica, chamava a atenção de seus colegas de trabalho. Principalmente daqueles que ainda tem a visão de que todas pessoas da periferia são envolvidas com crime.

“Era notório. Apesar de haver respeito, sempre tinham coisas e falas, talvez até sem pensar, que eram para mim. Lembro que se eu chegava com algo novo, como um relógio, já vinham as piadinhas sobre roubo”, lembra.

Mas ele não chamava atenção apenas por seu estilo. Nessa época, já muito ligado à cinema e literatura, acabava causando surpresa ao falar sobre determinados assuntos, como cinema, literatura e política. Os comentários, lembra, eram sempre de surpresa: “ih, olha lá, Dayrel tá por dentro, manja”.

Chavoso da USP, o estudante de ciências sociais, Thiago Torres, conhece bem esse sentimento de causar espanto quando alguém sem o estereótipo acadêmico mostra que sabe das coisas.

Thiago Torres (Chavoso da USP).

Depois de entrar em uma das maiores universidade do país, a Universidade de São Paulo (USP), Thiago sentiu o peso enorme de ser um jovem negro, periférico e gay em um meio tão elitizado. Com um texto de desabafo postado nas redes sociais, acabou ganhando visibilidade.

Hoje, Chavoso da USP possui milhares de seguidores nas redes sociais, canais que usa para levantar debates e reflexões sobre desigualdade social, a vida como universitário e local de troca de informações.

Essa visibilidade que as redes sociais trouxeram pra a vida do estudante fez com que se tornasse exemplo para muitos jovens, mesmo que não goste de se auto-rotular dessa maneira.

“Acho que a gente não pode se auto intitular porta voz ou representante de nada, são as pessoas quem vão definir isso.

Mas, sim, muita gente fala que se sente representada por mim. Seja os estudantes universitários periféricos, seja os alunos das escolas em que eu dou palestras, ou meus seguidores periféricos em geral.

E, querendo ou não, eu faço essa ponte entre a quebrada e a universidade, seja compartilhando o conhecimento que adquiro na universidade, seja pressionando a universidade, por dentro, a se tornar mais inclusiva aos estudantes pobres”

 

Funkeiros também podem ser cults

Dayrel conciliava seu tempo entre o trabalho, os bailes e páginas que mantinha onde postava trechos de filmes e livros. Para ele, aquilo era uma espécie de grafite online. Mas perceber que, mesmo nas redes sociais, as coisas ainda eram muito elitizadas, incomodava. Coisas da sua realidade, como o funk, não tinham espaço junto desses conteúdos.

“Parece que não encaixa na mente das pessoas, como se o que você ouvisse ou vestisse impedisse de saber de outras coisas”, denuncia.

Para ele, isso era uma “fita absurda”. Pensando em desconstruir essa ideia de que o modo de se vestir e falar influenciam no conhecimento, decidiu fazer uma mistura entre o mundo intelectual e o funk. No inicio deste ano nascia a página Funkeiros Cults.

No começo, Dayrel não esperava tamanha repercussão. “Lancei a page (página) mas admito que ainda assim achei que ia ser algo bobo algo, normal, não achei que ia ter esse crescimento todo”, mas depois de ver que as publicações estavam viralizando na internet percebeu a força daquilo.

As primeiras publicações eram montagens bem humoradas com imagens de funkeiros famosos e frases de filmes e livros traduzidas para a linguagem do funk. Depois de um tempo, Dayrel quis fazer algo novo, mais original.

Segurando o livro “A Metamorfose” de Franz Kafka, fez uma mini sinopse do livro, considerado um clássico da literatura mundial. “Caralho, o menor virou um inseto“. Preciso e certeiro, como uma das letras de funk que entram na cabeça e não saem mais.

Dayrel Azevedo

Percebendo que mais que uma página de meme, aquilo poderia ser um bom canal para desconstruir o preconceito ainda existente em relação à cultura periférica. Começou a trazer pessoas reais para suas postagens, mostrando que quem gosta de funk não é um poço de ignorância, como alguns ainda pensam.

“Queria mostrar que tem pessoas reais. Ai comecei a fazer as fotos com os crias aqui da área mesmo, meu irmão, meus amigos, tudo moleque sangue bom”, conta.

Além disso, pessoas vem aderindo à causa, mandando fotos para a página. Essa adesão gerou otimismo:

“Eu vejo o pessoal vindo real com a intenção de quebrar esse preconceito que ainda existe”.

 

Paulo Freire e o poder da linguagem

Reconhecido por ser um dos principais educadores do país e do mundo, Paulo Freire acreditava que entender o contexto de vida do educando e trazer isso para o processo de educação era um dos principais pontos para o sucesso.

Sem ter a pretensão de ser comparado com um dos maiores nomes da educação mundial, a Funkeiros Cults acabou seguindo os passos do notório educador, mesmo sem saber.

“Hoje mesmo um mano veio e disse que tá aprendendo mais pela page, pegando dica, do que o que aprendeu na escola”, conta o criador da página.

Max Maciel, coordenador pedagógico do coletivo RUAS, vê essa tradução de conteúdos considerados cults para a linguagem das ruas, como a Funkeiros Cults, como uma inversão do que sempre foi feito, além de facilitar a criação de novas:

“O conteúdo acadêmico nada mais é que a linguagem da rua traduzida pro academicismo, onde as pessoas valorizam, batem palmas, fazem congressos, seminários, publicam teses, mas o povo em si não sente em sua vivência todo esse aprendizado.

Se você consegue traduzir esses conteúdos pra linguagem das ruas, você está devolvendo todo esse processo pra rua, numa compreensão e sinergia”.

O coletivo Ruas é uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP), focado na mudança social de jovens do Distrito Federal.

 

O último bailão do fim do mundo

Com o sucesso da página, um grupo no Facebook, chamado “Funkeiros Cults – O último Bailão do Fim do Mundo“, foi criada, inicialmente para o compartilhamento de memes. Porém, a iniciativa chamou a atenção de professores de todo o Brasil, que se juntaram neste grande baile para ajudar os funkeiros cults da forma como conseguirem.

Mais de 100 professores, divididos por disciplina, se disponibilizaram para tirarem dúvidas de alunos, compartilhar materiais de estudos, além de participar das discussões sobre política, gênero, sociedade, ativismo entre outros assuntos que rolam por lá.

Rafael Santos, professor de Geografia, é um dos muitos que se juntaram nesse grande baile solidário, que de uma simples brincadeira, hoje já começa a dar frutos:

“Busco ajudar as pessoas o máximo que eu puder. Saber que outras pessoas também estão fazendo o mesmo é muito gratificante, ainda mais nesse momento que estamos vivendo. O pessoal do grupo precisa e vamos ajudar no que der, afinal, conhecimento é libertador, como dizia Paulo Freire”.

 

Fonte(s): Androgia Brasil, Info Escola, Funkeiros Cults - O último Bailão do Fim do Mundo - Facebook, Funkeiros Cults - Instagram, Chavoso da USP - Instagram, Coletivo RUAS
Junio Silva
Jornalista, cronista, e ex-futura promessa do futebol.

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