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Porque não devemos compartilhar memes com intérpretes de Libras

Por ‘preconceito enraizado’, ridicularizamos uma profissão séria.

Daiane Oliveira Publicado: 15/05/2020 11:04 | Atualizado: 15/05/2020 11:30

Para a compreensão dos surdos, a presença dos tradutores e intérpretes de Libras (Língua Brasileira de Sinais) têm se tornado cada vez mais frequente: desde pronunciamentos do governo, até as lives realizadas por artistas durante o distanciamento social em virtude do novo coronavírus.

Com a aparição mais habitual desses profissionais, uma quantidade enorme de memes surgiu e se espalhou rapidamente pela internet, principalmente nas redes sociais.

São postagens fazendo piada ou mesmo ridicularizando a atuação dos intérpretes. Ao que parece, por conta dos esvaziamento de significado em tempos de memes, brasileiros conectados na internet ainda sofrem com a tal “Síndrome da 5ª série“.

 

Desabafo

Emanoela Bezerra de Araújo, enfermeira bilíngue (Português e Libras) publicou um vídeo que é, ao mesmo tempo, um desabafo e um apelo para que não publiquem ou endossem publicações que depreciem os intérpretes e tradutores de Libras.

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No vídeo, postado no Facebook, Emanoela destaca que independente do posicionamento político de quem assiste e de se concordar ou não com o que está sendo dito, é um direito de toda a comunidade surda ter acesso ao que nós, ouvintes, temos.

Em entrevista ao SOS, a profissional, que milita pelos direitos linguísticos dos surdos em ambientes clínico-hospitalares, se mostrou indignada com a quantidade de memes feitos com intérpretes de Libras de maneira especial traduzindo discursos e pronunciamentos oficiais do atual governo.

“O intérprete de língua de sinais não tem privacidade para trabalhar, diferente com o que acontece com tradutores de outras línguas. Você não vê ninguém fazendo piada com tradutor de inglês, alemão, de russo, por mais ‘engraçado’ que seja”, destacou.

Para o profissional dessa área conseguir passar a mensagem, é fundamental sua própria exposição. Mas quando ridicularizamos o ato, além de prejudicar a mensagem, podemos prejudicar a moral do intérprete.

Emanoela pontuou que as expressões faciais fazem parte da gramática, caracterizando sensações ou pontuações, por exemplo. Dessa forma, não faz sentido e, pior, chega a ser ofensivo quando utilizamos essas mesmas expressões para produzir memes.

“Se você não faz uma cara de zangado quando o assunto é sério, aquilo não tem sentido. Você não pode fazer um sinal de raiva e estar sorrindo, entende? A expressão facial é essencial para a língua de sinais”, explicou.

Ainda ao SOS, Emanoela Araújo destacou que, mesmo reconhecendo a importância de se fazer cumprir a Legislação no que diz respeito à presença dos tradutores e intérpretes inclusive no debate político, o que se vê é o que a profissional chamou de acessibilidade seletiva.

“Essa acessibilidade que o presidente está proporcionando é muito limitada. Você vê intérprete nos pronunciamentos, sim. Mas na demissão do Mandetta e do Moro, por exemplo, não se viu intérprete. Surdo só tem direito a ter ciência do que está sendo falado quando o presidente determina?”, questionou.

 

Contexto

Um estudo publicado no segundo semestre de 2019, pelo Instituto Locomotiva, apontou que existem 10,7 milhões de brasileiros com deficiência auditiva, o equivalente a cerca de 5% de toda a população do país.

Nesse cenário, a figura do tradutor e intérprete da Língua Brasileira de Sinais mostra-se essencial para garantir que os falantes dessa língua tão específica possam se comunicar e se inteirar do que acontece na política, na cultura, nos esportes e no mundo como um todo.

Vale destacar que a profissão de Tradutor e Intérprete da Língua Brasileira de Sinais foi regulamentada há pouco menos de 10 anos, por meio da Lei nº 12.319/2010, sancionada pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O estudo feito pelo Instituto Locomotiva também apontou que 6 em cada 10 brasileiros com deficiência auditiva têm dificuldade para realizar atividades cotidianas.

Somando isso à recente e crescente onda de ridicularização dos profissionais intérpretes, o que poderia ser um instrumento de inclusão pode facilmente se transformar em vergonha.

Nesse sentido, Emanoela alerta sobre o preconceito enraizado:

“Para minha irmã, para os meus amigos, aquela janelinha é tão significativa. Eu fico imaginando os surdos que já morreram e não tiveram acesso a isso, como eles se sentiriam lembrados e respeitados com aquele espaço ali para eles.

E aí vem uma pessoa culturalmente desinformada, com preconceito enraizado, e faz piada com esse instrumento importante para o entendimento da pessoa surda”, pontuou.

Para finalizar, Araújo destaca que a desvalorização do profissional intérprete de Libras representa também e infelizmente a desvalorização da Língua de Sinais – e definitivamente não é disso que precisamos.

Fonte(s): Febrapils
Daiane Oliveira
Jornalista, feminista e mãe. Discute religião, política, sexo e hábitos sustentáveis. Não discute futebol porque não entende. Quem sabe um dia.

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