• Colabore!
  • Sobre nós
  • Contato
  • Anuncie

Atitude Coletiva

Fascismo, Bolsonaro e você: O que todo mundo precisa saber!

A bola do fascismo está rolando, mas você ainda pode pará-la.

O mundo inteiro está falando a mesma coisa, a democracia no Brasil está em jogo.

Esfaqueamento, ameaça de estupro, atropelamento, violência policial, abuso de poder e humilhação. Um cenário provável em uma zona de guerra é, na verdade, parte de uma onda de agressões ligadas à disputa eleitoral deste ano no Brasil.

Entre os dias 30 de outubro e 10 setembro foram registrados pelo menos 50 ataques por parte de apoiadores do candidato de extrema direita à presidência do Brasil, Jair Bolsonaro.

Há quem relacione a brutalidade desses atos a um movimento fascista, já que as agressões são ecos de discursos que incitam ódio à negros, mulheres, LGBTs e indígenas. O assunto é tão urgente que até mesmo a novela Malhação, da Globo, exibiu uma aula expositiva sobre fascismo para jovens.

Mas, afinal, o que é fascismo e o que é que você tem a ver com ele?

 

1. O que é o fascismo?

O fascismo não é um rótulo, e, sim, um processo histórico que aconteceu em um contexto específico. Seu início é datado em 1914, quando o político italiano Benito Mussolini fundou o grupo Fasci d’Azione Rivoluzionaria que, mais tarde, em 1922, tornou-se o Partido Nacional Fascista.

A palavra origina do termo em italiano “fascio”, que tem dois significados assimilados pelo grupo de Mussolini: o de “feixe”, isto é um grupo de partículas que se unem; além de ser o nome de um machado cujo cabo era feito por varas de madeira.

Tal instrumento, comumente empregado na Roma Antiga como forma de punição corporal, foi utilizado como símbolo do partido autoritário.

Símbolo do movimento fascista italiano

Com o fascismo, o líder italiano prometia a volta dos tempos “áureos” do antigo Império Romano. Suas ideias ganharam força em um contexto de grave crise pós Primeira Guerra Mundial (1914-1918), que aprofundou as consequências da unificação tardia da nação italiana.

Assumindo o poder como primeiro-ministro em 1922, Mussolini instaurou na Itália um sistema político nacionalista, imperialista (ele era chamado de “il duce”, que significa o título de nobreza “duque”), antiliberal e antidemocrático. Sua forma de governo totalitária sobrepunha os conceitos de raça e nação sobre os valores individuais.

O regime fascista de Mussolini terminou em 1945 com a derrota do “Eixo”, aliança formada por Itália, Alemanha e Japão, quando Mussolini, capturado e fuzilado por guerrilheiros da resistência italiana, teve seu corpo foi exposto em praça pública em uma imagem que imortalizou a derrota das forças do Eixo.

Benito Mussolini e Adolf Hitler

A partir de então, “fascista” se tornou um termo pejorativo para se referir às propostas de governos de extrema-direita, autoritários, que desrespeitam liberdades individuais e os direitos humanos, em referência a um dos processos históricos mais traumáticos do século passado.

O nazismo, regime autoritário de Adolf Hitler na Alemanha é tido como a pior expressão do fascismo, assim como também são considerados fascistas o regime franquista, na Espanha e de Salazar, em Portugal.

 

2. O fascismo é de direita ou esquerda?

Embora a internet reúna as mais diversas opiniões sobre o assunto, há um consenso entre a historiografia mundial de que o fascismo é um movimento de extrema direita, principalmente pela sua forte oposição ao socialismo, oposição essa que ganha força com o apoio do empresariado, latifundiário e boa parte da classe média.

“Tanto o nazismo alemão quanto o fascismo italiano surgem após a Primeira Guerra Mundial, contra o socialismo marxista – que tinha sido vitorioso na Rússia na revolução de outubro de 1917 -, mas também contra o capitalismo liberal que existia na época. É por isso que existe essa confusão.”, afirma Denise Rollemberg, professora de História Contemporânea da Universidade Federal Fluminense (UFF) à BBC.

Por isso, muitos pesquisadores hoje usam o termo neofascismo, ao invés de fascismo.

Ao mesmo tempo, por incrível que pareça, voltou a circular nos últimos anos um dos principais discursos difundidos durante a ascensão do fascismo no século XX, o risco de uma “ameaça comunista”.

Acontece que estamos muito longe de vivenciarmos um regime comunista, ainda mais no Brasil, um país historicamente capitalista; inclusive nos 14 anos de governos petistas. Esse boato é mais uma das fake news que ganharam os grupos de família no Whatsapp – e não se preocupe, também não existe a possibilidade de virarmos uma Venezuela.

 

3. Bolsonaro é fascista?

Na última semana, muitos fãs de Pink Floyd foram pegos de surpresa quando o telão do show ex-baixista e vocalista da banda, Roger Waters, em São Paulo, estampou um grande #EleNão.

Tinha também uma tela com os dizeres “neo-fascismo em alta“, seguido por uma lista de países e líderes políticos, incluindo “In Brazil – Bolsonaro”.

Em vídeos divulgados pelos fãs, pode-se ouvir gritos de apoio, mas também um enorme coro de vaias, surgindo indagações entre as redes sociais de que se os fãs brasileiros realmente sabiam do que se tratavam suas músicas, já que o Pink Floyd é conhecido por letras e filmes que apresentavam críticas ferrenhos ao autoritarismo, seja de esquerda ou direita.

Resta-nos questionar: Bolsonaro representa o fascismo no Brasil? Do mesmo jeito em que não há um consenso sobre a própria definição do fascismo nas expressões políticas que ocorrem após a segunda guerra mundial, há divergências apresentadas por especialistas no assunto.

Mulheres juntaram-se sob o chapéu do movimento #EleNão no Rio de Janeiro.

Para o filósofo Vladimir Sfatle, Bolsonaro assume uma posição fascista por conta de sua “adesão à ditadura militar notória, a ponto de saudar e prestar homenagens a torturadores”, como afirma em sua coluna publicada na Folha de S. Paulo.

Por outro lado, Pablo Ortellado, também filósofo e pesquisador no âmbito das polarizações políticas afirma que não á fascismo, porque ele não apela para um forte nacionalismo: “o presidenciável não tem pautas nacionalistas concretas e não defende nem a indústria, nem os empregos, nem a cultura brasileira”, explicou neste artigo.

O que precisa ser levado em consideração é que assim como defendiam os regimes autoritários do século XX, o projeto de governo do candidato do PSL, Bolsonaro, favorece a diminuição das liberdades individuais de mulheres e de minorias, como as comunidades LGBTs, a população negra, bem como os povos indígenas e tradicionais.

 

4. Táticas Fascistas

O professor da Universidade de Yale, nos Estados Unidos, Jason Stanley, autor do livro “How Fascism Works: The Politics of Us and Them” (Como o fascismo funciona: as políticas do nós e eles, em tradução livre) afirmou, em recente entrevista à Folha de S. Paulo, que Jair Bolsonaro usa mais táticas associadas ao fascismo do que o presidente americano Donald Trump.

“Ele é contra gays e fala de minorias como preguiçosos? Ele fala em matar os adversários políticos? Se apresenta como o cara durão, que vai chegar e matar os criminosos sem tribunal? Ele fala que mulheres não deveriam ser líderes políticas, deveriam ficar em casa? Ele elogia ditadores, como Trump faz? Elogia ditadores passados no Brasil? Ele fala de militares, como ele é o verdadeiro Brasil, como os esquerdistas estão arruinando o país e como ele vai fazer algo sobre isso? Essas são as características.”, concluiu.

Entre as táticas fascistas registradas pela historiografia mundial, as seguintes são utilizadas pelo candidato do PSL:

– Violência contra minorias

A agressão à minorias e opositores do candidato do PSL tomaram as manchetes de inúmeros jornais no país. Um caso de grande repercussão foi a trágica morte do mestre de capoeira Moa do Katende, assassinado com 12 facadas nas costas na madrugada após o primeiro turno (8), em um bar em Salvador, depois de ter declarado voto no PT.

Moa do Katende.

Os ataques à comunidade LGBT marcaram profundamente o cenário desta corrida eleitoral. Na última terça (16), uma travesti foi morta a facadas em uma briga de bar em São Paulo. Testemunhas afirmam que os homens envolvidos no crime gritavam “Bolsonaro”.

Outro crime chocante aconteceu alguns dias antes da eleição (3), em Curitiba, no Paraná, um dos estados com maior número de neonazistas no Brasil. Um homem gay foi encontrado morto com sinais de tortura em um armário após dias desaparecido. O assassino o conheceu através de um aplicativo de relacionamentos e depois de cometer o crime, roubou o celular da vítima e enviou mensagens de apoio ao candidato do PSL.

Dias depois, com o número crescente de ameaças relatadas pela comunidade LGBT em todo Brasil, o Grindr, aplicativo social dedicado à homossexuais, alertou aos usuários para que tomassem medidas de segurança frente ao risco de violência.

Até mesmo um perfil no Instagram foi criado para denunciar locais onde acontecem agressões à LGBTs motivadas pelo fascismo, chamado @elenãovainosmatar.

Reunindo mais de 100 mil usuários, foi criado pelo produtor de moda Felipe Lago depois de ouvir de três homens que caminhavam atrás dele que “Isso aí na frente vai deixar de existir porque Bolsonaro vai matar viado”, como conta nesta entrevista.

Diferentemente do Bolsonaro, muitos usuários das redes sociais já entenderam que esses casos de violência não são “fatos isolados” – como afirmou o candidato em uma entrevista ao UOL – e também estão reunindo os relatos de agressões, como fez essa thread:

A lista infelizmente não para de crescer.

– Notícias Falsas

As fake news não são um problema exclusivo à contemporaneidade e já foram instrumentos de regimes totalitários em todo o mundo, com destaque para a Alemanha nazista de Adolf Hitler.

Joseph Goebbels, o “arquiteto” da propaganda nazista cunhou a máxima “uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade” e foi sob o seu comando que se espalharam notícias falsas acusando os judeus dos problemas econômicos na Europa, divulgando estudos sobre a “superioridade” da raça ariana e considerando seus opositores como imorais e degenerados.

Adolf Hitler e Joseph Goebbels.

Apropriando-se dos meios tradicionais de comunicação, o estado nazista conseguiu com as fake news trazer boa parte da população alemã para o seu lado, usando o medo e o orgulho como ferramentas de convencimento e manipulação.

Nos últimos anos, as redes sociais se tornaram grandes meios de circulação de notícias falsas e vem influenciando o modo como muitos eleitores enxergam a política e avaliam seus candidatos. O SOS inclusive fez um artigo ensinando a detectar e denunciar fake news no Whatsapp e Facebook, veja aqui.

Elas vêm de todos os lados, mas quem tem tirado maior proveito disso é a extrema direita. Segundo um levantamento feito pela Agência Lupa, das 10 fake news mais compartilhadas durante o primeiro turno da eleição, 9 beneficiavam Jair Bolsonaro.

E a pouco foi descoberto um esquema milionário de fake news, que pode ter mudado o resultado da eleição no primeiro turno, pelo menos. Segundo a denúncia da Folha de S. Paulo, empresários bancaram uma gigantesca campanha contra o PT pelo WhatsApp, com contratos que podem chegar a R$ 12 milhões; a prática viola a lei por ser doação não declarada, podendo ser considerado Caixa 2.

– Antifeminismo

Um dos maiores pilares do fascismo é o patriarcado. As mulheres não tiveram qualquer tipo de protagonismo nesse tipo de governo, sofrendo com o retrocesso de seus direitos e com perseguições.

Na Alemanha nazista, o campo de concentração chamado Ravensbruck foi um dos primeiros a serem criados e era destinado exclusivamente às mulheres. Estima-se que 130 mil passaram por lá, torturando não apenas judias, mas também prisioneiras políticas, ciganas, doentes mentais, prostitutas ou qualquer mulher que fosse considerada “inútil” para o estado nazista.

O antifeminismo é uma das maiores bandeiras da extrema-direita no Brasil. Com o crescimento exponencial das intenções de voto em Jair Bolsonaro, cerca de 4 milhões de mulheres se uniram em um grupo no Facebook em oposição ao candidato do PSL, lançando a hashtag #EleNão e liderando manifestações contra o fascismo em 114 cidades brasileiras.

A rejeição é resultado de diversas declarações cometidas pelo candidato, como em uma fala no plenário da Câmara dos Deputados, em 2014, disse à deputada Maria do Rosário (PT-RS) que não a estupraria “porque ela não merece”, além da afirmação de que não empregaria mulheres com o mesmo salário que homens porque elas engravidam, entre outras.

– Anticorrupção

No fascismo, a luta contra a corrupção, que se diz prezar pela honestidade, é, na verdade, uma forma de corromper direitos e garantias das populações.

Assim como Mussolini e Hitler, que cresceram frente a um cenário de crise, Bolsonaro também se aproveita da instabilidade econômica para promover discursos sobre mudanças radicais na política tradicional, atribuindo ao Partido dos Trabalhadores (PT) a culpa da corrupção que assola o sistema político brasileiro (desde a ditadura, pelo menos).

Porém, o mesmo candidato se exime da responsabilidade de ter sido filiado por 11 anos ao Partido Progressista (PP), o mais investigado na Operação Lava-Jato.

– Práticas Antidemocráticas

O próprio filósofo Jason Stanley alerta para os discursos de Bolsonaro irem contra o Estado Democrático de Direito.

“Bolsonaro é assustador porque ele é abertamente antidemocrático. Fala abertamente em prender e matar os adversários. Políticos fascistas geram pânico ao falar sobre estrangeiros destruindo a força do país. Bolsonaro faz tudo isso. Por que pensar que alguém assim abriria mão do poder? Fascistas nunca abrem mão do poder. Eles veem a democracia como fraqueza”, disse na mesma entrevista à Folha.

Pouco antes da votação do primeiro turno, o candidato do PSL afirmou em entrevista em rede nacional que não aceitaria resultado diferente de sua eleição.

 

5. O esvaziamento do significado

Ainda há resistência em chamar Jair Bolsonaro de fascista, muito porque o adjetivo já foi distribuído à muitas posições à direita que não necessariamente representavam posições extremistas.

Como já resumiu o escritor George Orwell, fascismo se tornou uma palavra que se refere ao que é arrogante, obscurantista e inescrupuloso, que “quase todo inglês vai aceitar ‘troglodita’ como sinônimo de ‘fascista’”, considerando-a degradada à nível de um palavrão.

As comparações extremas em discussões políticas na internet são tão frequentes que, há cerca de três décadas o advogado americano Mike Godwin chamou atenção para o esvaziamento intelectual de muitos dos argumentos na web comparando o que quer que seja a Hitler.

Ele criou uma frase que ficou depois conhecida como “Lei de Godwin”: “Conforme uma discussão online se prolonga, a probabilidade de uma comparação envolvendo nazistas ou Hitler se aproxima de um”.

A surpresa foi que ontem (16/10), Godwin se posicionou contra Bolsonaro postando uma foto em seu twitter com a hashtag #EleNão e afirmando ainda que era válida a comparação do presidenciável brasileiro com o líder nazista.

 

6. A sua responsabilidade

Frente a uma onda ódio que se apresenta como uma ameaça a milhares de pessoas, o voto não é apenas um exercício da cidadania, mas significa também tomar posição em defesa dos valores democráticos.

Com o risco iminente de termos um levante da extrema-direita no Brasil, que como pudemos observar flerta com o fascismo, é um risco muito grande se abster das eleições em 2018.

Independente de suas preferências políticas, econômicas, sociais, seu receio a algum partido, o que está em jogo agora é a estabilidade da nossa democracia. A bola do fascismo está rolando, mas você ainda pode pará-la.

Fonte(s): Superinteressante, Piaui, BBC
Julia De Cunto
Jornalista na era da pós-verdade, feminista, atriz dos maiores dramas da vida cotidiana.

Tá na rede!

Quero mais!

Veja mais artigos!

Em caso de chefe
clique aqui