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Estoicisimo: o que significa a filosofia que se tornou popular entre jovens

Ao invés de acelerar, que possamos ir com calma.

Cartola já dizia que o mundo é um moinho. Assim, na maior parte do tempo, a vida acaba sendo algo imprevisível. Coisas boas e ruins podem acontecer. E aí que entra o Estoicismo.

Segundo a filosofia criada há mais de 2 mil anos, é preciso entender que algumas coisas estão fora do nosso alcance, logo podemos alterar apenas o que está sob nosso controle. Esse conceito traz a compreensão de que é possível ter uma vida bela e tranquila mesmo em meio ao caos, e isso está fascinando jovens mundo afora.

 

Estoicismo: o que é isso, afinal?

A corrente desenvolvida por Zenão de Cítio (Chipre, 333-263 a.C), e que ganhou força em Roma, através de nomes como Epicteto (50 – 135 d.C), Séneca (4 – 65 d.C) e o Imperador Marco Aurélio (121 – 180 d.C), entende que o ponto de partida para viver bem é minimizar o que está fora de nosso controle.

O estoicismo propõe um caminho de aceitação da vida como ela é. Para esse pensamento, a ação deve vir antes das palavras. Por isso, o estoicismo possui vários exercícios práticos para alcançar o conforto em meio ao desconforto.

O que se nota nesse pensamento é que, um dos principais pontos diz respeito a ter controle sob si mesmo acima de tudo, independente do que esteja acontecendo ao redor.

Algumas das práticas mais comuns utilizadas por estoicos para encontrar essa calmaria são:

  • meditação;

  • visualização negativa: nesse exercício, basta pensar no pior cenário possível e perceber como a sua vida está melhor do que isso;

  • reflexão sobre o que está sob seu controle;

  • escrever diários com autocríticas;

  • autoprivação: para aprender a ser capaz de lidar com situações fora da normalidade.

O mundo é imprevisível, nem tudo podemos controlar, mas aquilo que está ao nosso alcance pode ser melhorado a fim de ter a tranquilidade e serenidade necessárias para aproveitar a vida enquanto ela não passa.

“Não é o que acontece com você, mas é como você reage que importa”, frase de Epicteto.

Não é necessariamente uma questão de ser frio, e sim de não de apavorar, manter a mente tranquila perante as situações que a vida lhe impõem.

 

Devemos aceitar tudo de forma passiva?

Deixar de lado o que não está sob o nosso controle, no entanto, não quer dizer ser passível diante a vida. Até certo ponto os estoicos parecem ser conformados com o que acontece, porém, esse pensamento não é completamente certo.

O Imperador Marco Aurélio pensava que, para acontecer transformações em outras pessoas ou no mundo, um estoico precisaria, primeiramente ter as quatro qualidades fundamentais para isso: coragem, justiça, autoconfiança e sabedoria. E isso só poderia ser alcançado tendo, primeiramente, o controle sob si próprio.

Em linhas curtas: o estoicismo não propõe ver as coisas acontecendo na vida e não fazer nada, mas, sim, valorizar primeiramente o que está sob seu alcance, trabalhando em cima disso, para seguir a vida da melhor forma possível.

 

Filosofia que transcende o tempo e o caos de hoje

Os ensinamentos do estoicismo transcendem o tempo. Um dos pontos que chamam a atenção é o principio de igualdade. Não existe classe social, cor ou raça. Marco Aurélio, o último grande imperador, e Epicteto, um escravo, passavam por dificuldades diferentes, mas desenvolveram e utilizaram essa filosofia para tentar tornar as coisas melhores, mesmo diante de suas adversidades.

Segundo Otávio Souza e Rocha Dias Maciel, professor de Filosofia do Direito na UnB e doutorando no PPGFIL/UnB na linha de Epistemologia, Lógica e Metafísica:

“O estoicismo é uma das primeiras escolas no Ocidente a ensinar homens, mulheres, escravos, imperadores, a agradar um público bastante conservador, como o Senado Romano, mas também aludindo fortemente a críticas sociais e políticas.”

O mundo mudou mas ainda continua imprevisível. Os problemas, apesar de diferentes, inclusive de pessoa para pessoa, sempre vão existir.

Seguindo a lógica de minimizar o que não está ao nosso alcance, e de trabalhar em cima do que podemos controlar, é possível superar adversidades em diversas áreas da vida e, mesmo em meio ao caos, viver bem. Esse pensamento pode inclusive ser observado no Budismo, Taoismo, Cristiano e em setores da Psicologia.

Ainda que o estoicismo se diferencie de setores da psicologia, principalmente por dar mais voz à razão, os reflexos e modos de pensamento dessa antiga corrente filosófica, no que diz respeito ao que não está em nosso controle, são observados em áreas como Terapia Cognitiva Comportamental (TCC), Comunicação Não-Violenta (CNV) e na psicanálise.

“Ter consciência que existem coisas que não estão sobre nosso controle ajuda a lidar melhor com frustrações: a psicanálise fala de uma castração metafórica, ou ainda, do sujeito barrado, onde os desejos inconscientes são reprimidos, ou ainda, que não podem ser realizados”, nos explica a psicologa Michelle Teixeira.

Uma dos pensamento dos estoicos é estar sempre preparado para o que pode acontecer, de bom ou ruim, além de ter noção dos fatores externos, coisas imprevisíveis . Nota-se, então, outra semelhança com a psicanálise moderna.

“O planejamento para a vida é sempre necessário: antecipar-se e programar-se pode ajudar a evitar sofrimentos desnecessários. Mas é preciso lembrar sempre que no percurso, no caminho, frustrações podem acontecer: preciso administrá-las da melhor forma possível, lembrando sempre dá nossa condição de castração frente a certos fenômenos da vida”, conta Michelle.

 

Brasil, jovens e o Estoicismo contemporâneo

Vamos colocar alguns dados sobre o Brasil em 2019:

Todos esses dados corroboram para um momento de puro desconforto; não à toa que muitas pessoas acabem se encantando e buscando o termo estoicismo – como revela os vídeos com milhões de visualizações no Youtube e a crescente busca no Google:

Em 2019 o termo ‘estoicismo’ foi mais buscado no Brasil.

Em artigo publicado na Galileu, e originalmente no site The Conversation, o professor e Filosofo Robert Colter, explica que as bases do estoicismo podem ser um grande aliado no cuidado com a saúde mental.

Ele explica que, como Epicteto alertava, a origem do sofrimento não é necessariamente o que acontece, e sim o julgamento que nós damos para esses eventos, que nos fazem sofrer:

“Estar chateado com algo não é uma função do que parece “chateante”; Em vez disso, é o julgamento sobre essa coisa que causa a angústia.”

Para Epicteto, as coisas que o homem pode controlar são os julgamentos, opiniões e valores que escolhe para si. E procurar enfrentar a vida da melhor forma possível, assim como faziam os estoicos antigos, parece ser algo que não sai de moda, mesmo com o passar do tempo. 

Com tantos problemas que a pós-modernidade trouxe para a vida de todos, a busca por algo que possa ajudar a viver melhor é intensa. É o que explica Otávio:

“Vivemos num momento talvez de menos tranquilidade possível, com tantas informações, problemas, conexões com o mundo inteiro, dificuldades, governos ignorantes e um culto à irracionalidade.

Isso, infelizmente, acaba direcionando não apenas como as pessoas vivem neste cotidiano maluco, mas também pode acabar ajudando a busca por soluções. Não é de hoje que a juventude quer soluções rápidas e práticas – mas a aceleração da sociedade parece deixar todos e todas bastante confusos”.

E faz um alerta sobre o aumento do interesse de jovens por essa corrente filosófica.

“Não basta fazer memes de “não me importo” ou “thank u, next” e se proclamar um estoico. A massificação da informação, infelizmente, está gerando uma massificação da estupidez.

Talvez uma solução seja entender melhor o que pode significar virtude. O aumento da virtude estaria relacionado ao aumento do conhecimento sobre o mundo natural, sobre nosso próprio corpo, sobre a Razão, e sobre a conexão com o sagrado, seja Zeus ou outras divindades.

Talvez, em dissonância com o caos social de nossos dias, sejamos um pouco cínicos para depois sermos estoicos: criticar o desalinho entre a conformidade com o cosmos e essa ânsia por aceleração.

Se ensinar homens e mulheres era um escândalo em Atenas, que sejamos escandalosos: ao invés de acelerar, que possamos ir com calma.

Só assim, o controle sobre nós mesmos pode começar a aparecer, e poderemos saber o que deixar passar e o que rejeitar”.

Fonte(s): Coffe Break(through) - Medium, Farofa Filosófica, BBC, O poder do ser, Epifania Experiência - Youtube, Imagomundi, IPEA, OMS, UOL Educação, The Conversatition, The Conversatition [2], Psicologia Viva, Unisc, Almanaque SOS
Junio Silva
Jornalista, cronista, e ex-futura promessa do futebol.

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