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Vai, planeta!

Espécie em extinção: salve o aruá-do-mato (não é caramujo africano!)

Animal inocente da fauna brasileira corre risco de sumir do mapa por nossa causa.

Junio Silva Publicado: 21/10/2020 12:08 | Atualizado: 22/10/2020 10:35

Apesar das semelhanças, o caramujo africano (Achatina fulica) e o aruá-do-mato (Megalobulimus), caramujo brasileiro, apresentam singularidades. O problema é que um engano desses pode causar desde um desequilíbrio no meio ambiente, até a extinção da espécie nativa.

 

Uma das principais características do ser humano é a sua capacidade de se enganar. Muitas vezes, por olhar apenas superficialmente para algo ou alguém, erramos.

Exemplo do efeito negativo dos equívocos humanos pode ser percebido através de duas espécies de caramujos que, apesar de parecidas, são totalmente diferentes.

 

Experimento social: caramujo brasileiro ou africano?

Bruno Uehara, divulgador científico no comando do perfil Observações Naturalistas, fez um experimento muito curioso que comprovou como podemos nos enganar facilmente.

 

Como resultado, ironicamente, os amantes da natureza ensinaram diversas maneiras de matar o inofensivo e nativo caramujo:

“A esmagadora maioria das repostas foram assim, uma confusão total com outra espécie e que é invasora: o caramujo-africano (Achatina fulica).

Nossos noticiários muito alertaram sobre os caramujos-africanos, mas pouco fizeram pra evitar confusão com as espécies nativas.

(…) Boa parte dessas pessoas na verdade nem sabem que o aruá-do-mato existe! Isso pois só ouviram falar do caramujo-africano e não dos nativos”, desabafa Uehera na thread.

 

Entenda as diferenças entre os caramujos

Apesar das semelhanças, os dois moluscos apresentam singularidades que talvez o olhar mais desatento não consiga perceber. O problema é que esse engano pode causar desde um desequilíbrio no meio ambiente, até a extinção da espécie nativa brasileira.

Para entender a diferença entre as duas espécies, basta olhar suas conchas. A do caramujo brasileira é mais gordinhas e menos pontuda. Já a do africano é comprida e mais fina, com rajadas aparentes e uma ponta maior.

Do lado esquerdo, a concha de um caramujo africano; na direita, a de um aruá-do-mato.

 

Caramujo brasileiro

Conhecido cientificamente como Megalobulimus, essa espécie de caramujo brasileiro também pode ser chamado de aruá-do-mato, e é nativo do Brasil, sendo originário da Mata Atlântica, por conta de apresentar um clima úmido, ideal para eles.

De acordo com um estudo publicado na Revista Ciência em Extensão, da UNESP, o caramujo brasileiro possuí uma concha de cerca de 9,8 cm, são uma população pequena e não se reproduzem facilmente.

Porém, por ser confundido com o caramujo africano, corre risco de extinção, mesmo não fazendo mal algum para o homem. Segundo a SibBR (Sistema de Informação sobre a Biodiversidade Brasileira), o status de conservação da espécie é criticamente em perigo.

O nosso caramujo possuí uma concha diferente da espécie invasora africana, sendo sempre mais curtas, menos rajadas e mais “cheinhas”.

Concha de um aruá-do-mato, o caramujo brasileiro

Por que devemos salvar o aruá-do-mato?

Entender essa diferença é importante, afinal, o caramujo brasileiro é um bioindicador. Considerada uma espécie guarda-chuva, ele demonstra boa qualidade ambiental nas regiões onde é encontrado.

Apenas lembre-se de recolher as conchas quando as encontrar, pois elas podem servir de criadouro para o mosquito Aedes aegypti, transmissor da dengue, chikungunya e zika.

 

Caramujo africano

Já o Achatina fulica, ou caramujo africano, chegou ao país de forma irregular principalmente nos anos 80, em uma tentativa de substituir o famoso e caro escargot pelo molusco, iniciando a criação da espécie em cativeiro para revenda em restaurantes exóticos.

De acordo com o Brasil Escola, essa ideia de substituir a iguaria francesa por um caramujo maior, que possuí em média 10cm e representaria lucro no comércio por ter mais “carne”, não foi tão aceita entre os consumidores.

Aliado ao insucesso da atividade, o IBAMA proibiu a sua criação e comercialização no país, fazendo com que criadores os soltassem na natureza.

Femorale, http://www.femorale.com/shellphotos/detail.asp?species=Achatina+fulica+%28Bowdich%2C+1822%29&url=%2Fshellphotos%2Fthumbpage.asp%3Ffamily%3DACHATINIDAE%26cod%3D5034

Por que NÃO devemos salvar o caramujo africano?

Segundo nota técnica do Centro de Controle de Zoonoses de Florianópolis, essa espécie está na lista das cem piores invasoras exóticas do mundo.

Seja por conseguir se alimentar de cerca de 500 tipos de plantas, o que acaba diminuindo o alimento da fauna nativa; por se reproduzirem facilmente, diferentemente do caramujo brasileiro; ou por não possuir predadores e conseguirem se adaptar as alterações ambientais.

Em casos de contato com o homem, por ingestão cru ou acidental, o caramujo africano pode transmitir vermes Angiostrongylus, causadores da angiostrongilíase abdominal e angiostrongilíase meningoencefálica. Doenças que podem provocar alguns distúrbios no sistema nervoso e dores de cabeça intensas e seguidas.

Segundo a pesquisadora Silvana Thiengo, em entrevista disponível no site do Fundação Oswaldo Cruz, um caramujo africano é capaz de colocar, em médio, 200 ovos de uma vez, além de se reproduzir mais de uma vez por ano.

Para ter controle sobre o molusco invasor, é preciso ficar atento com alguns detalhes. A especialista explica que, é preciso destruir não só os animais, como também seu ovos, e tomar alguns cuidados básicos.

“A principal providência a ser tomada é o controle através da catação. O uso de pesticidas não é recomendado em função da alta toxicidade dessas substâncias. A melhor opção é a catação manual com as mãos protegidas com luvas ou sacos plásticos. Este procedimento pode ser realizado nas primeiras horas da manhã ou à noitinha, horários em que os caramujos estão mais ativos e é possível coletar a maior quantidade de exemplares. Durante o dia, eles se escondem para se proteger do sol”, explica.

Feito isso, uma das maneiras de fazer o descarte é queimar e enterrar as carcaças, explica o pesquisador em helmintologia e malacologia médica da Fiocruz Minas, Omar dos Santos Carvalho.

Fonte(s): Observações Naturalistas - Twitter, Observações Naturalistas - Twitter (2), Superinteressante, Brasil Escola, UNESP, Fundação Oswaldo Cruz, Museu Nacional, SibBr, Wikipédia, UNESP (2), PMF, PMF (2), Drauzio Varella, Manual MSD
Junio Silva
Jornalista, cronista, e ex-futura promessa do futebol.

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