• Colabore!
  • Sobre nós
  • Contato
  • Anuncie

Crossfit Mental

chevron_left
chevron_right

Desbolsonário: Criaram um dicionário indispensável para a sobrevivência nos próximos anos

São 62 verbetes para te ajudar a entender os termos usados pelo atual presidente.

Desde a campanha presidencial de 2018, Jair Bolsonaro tem disparado uma montanha de barbaridades em suas entrevistas e falas públicas. O atual presidente apresenta soluções aos problemas do país que não sobreviveriam a um episódio de desenho animado.

Com a vitória no jogo da presidência, Jair Bolsonaro foi eleito o 38º presidente do Brasil. O que significa que para sobrevivermos aos quatro anos de idade média, iniciados no dia 1 de janeiro de 2019, será necessário levarmos (um pouco) a sério tais barbaridades e entender o “fenômeno Bolsonaro”.

Se você constatou que já não compreende mais parte do português bolsonarista. Aqui vai, um verdadeiro vade-mécum imprescindível para sua sobrevivência e sanidade nos próximos anos.

As filósofas Luisa Buarque e Marcia Sá Cavalcante Schuback criaram um dicionário para entender o curioso sistema de comunicação criado por Bolsonaro, o “Desbolsonário de Bolso“. São 48 páginas de verbetes que surgiram no país e ganharam significados repetidos de boca em boca, mídia e discursos.

Em comentário, Luisa Buarque nos explica que “a ideia nasceu numa mesa de bar, como não poderia deixar de ser”. A motivação veio pela mistura de pasmo com indignação. É difícil acreditar que o que tem sido dito tem mesmo sido dito; parece mais um pesadelo”, afirma Buarque.

A autora ainda completa que “tudo não passa de uma tentativa de transformar a raiva e a sensação de impotência em sátira e humor”.

Confira alguns verbetes abaixo que serão muito usados nos próximos anos:

CIDADÃO DE BEM

  1. Todo brasileiro macho que ganhe acima de dez salários mínimos, desde que não seja homossexual – ao menos não abertamente -, nem muito negro, nem tenha sido pego pela operação ‘lava-jato’ (cf. verbete ‘Lava-jato’ ). A expressão, como está claro, pressupõe que qualquer pessoa que saia do padrão descrito acima seja um ‘cidadão do mal’. Moradores de favelas estão, por definição, excluídos do grupo dos assim denominados.
  2. Morador de bairros caros de todas as cidades grandes do Brasil, pagador dos IPTU’s mais altos e, consequentemente, pessoa que se acha no direito de fazer qualquer coisa no e com o espaço coletivo, pois se vê como dona dele, e sempre capaz de expulsar qualquer um da sua área, bem como de exigir o que quiser do poder público.
  3. Pessoa que confunde o público com o privado; pessoa que toma posse do ‘nosso’, porque o ‘nosso’ é seu, uma vez que foi devidamente comprado – e bem caro.
  4. Segundo a linguista Helena Martins, acrescenta-se a esse sentido uma nuança, que se refere ao homem de ‘não é bem assim’. Ao discutir com simpatizantes do bolsonarismo sobre o risco de eleger um candidato que defende torturas hediondas, a violência violadora de todos os direitos e, sobretudo, do direito de ser humano, muitos reagiram dizendo: “mas não é bem assim”, “isso é só retórica para ganhar as eleições”, “você vai ver que não é bem isso que ele quis dizer”. Assim, surgiu um novo tipo do cidadão: o “cidadão de não é bem assim”, que diz igualmente um “não é bem assim ser cidadão”. E que, paradoxalmente, torce para que o seu candidato não faça o que prometeu.

 

IDEOLOGIA DE GÊNERO

  1. Expressão inexistente no léxico das Ciências Sociais e dos estudos de gênero. Locução genérica que designa qualquer coisa que aborde minimamente problemas ligados à discriminação de gênero ou questões ligadas à comunidade LGBT.
  2. Fórmula criada por bolsonaristas que mostra o gênero de ideologia do bolsonarismo (cf. verbete ‘Sem partido’).

 

MARXISMO CULTURAL 

  1. Expressão para designar uma nova mistura de alhos com bugalhos.
  2. Confusão mental pela qual se considera que a crítica às injustiças sociais e econômicas exacerbadas pela globalização é por definição marxista. Como o bolsonarismo se vê como grande crítico da globalização e inimigo do marxismo, o uso da expressão “marxismo cultural” mostra a ignorância da lei básica da lógica, que é a lei da não-contradição. É que, para ser coerente, o bolsonarismo deveria considerar a si mesmo um marxismo, por ser crítico à globalização, o que ademais talvez justifique o uso de barba à la Karl Marx pelo ministro bolsonarista das relações exteriores.
  3. Xingamento usado por bolsonaristas para atacar toda crítica ao establishment que não seja feita para expandir as leis do establishment.
  4. Expressão utilizada para rechaçar toda forma de liberalismo, com exceção do liberalismo econômico, que é a única liberdade que os bolsonaristas aceitam. Trocando novamente em miúdos: bolsonaristas querem ser livres apenas para comprar tênis novos, para frequentar qualquer shopping que desejem, para explorar empregados o quanto quiserem (afinal, os empregados são “seus”). E quem não for livre – leia-se, rico – o suficiente, é porque não teve mérito ou talento, portanto, que se dane. Qualquer outra concepção de liberdade é, evidentemente, marxismo cultural.

 

COMUNISTA

  1. Bicho-papão, comedor de criancinhas (cf. verbete ‘Anti-comunismo’ ).
  2. Comunista passa a ser, a partir de 2018 no Brasil, sinônimo de nazista – mesmo que essa operação linguística precise contrariar uma oposição histórica e negligenciar o fato de que comunistas eram explicitamente perseguidos e banidos pelo regime hitlerista. A operação é uma engenhoca simples: nazismo é a designação abreviada do partido nacional-socialista fundado em 1920 na Alemanha, partido reconhecidamente de extrema-direita. Quando expressões compostas são ditas e repetidas velozmente, é fácil que um termo escape e deixe de ser pronunciado. Assim, ouvindo-se ‘socialista’ e ‘nazismo’ soarem em uma mesma frase, juntam-se os dois termos numa afirmação do tipo: ‘socialismo, isto é, comunismo, é sinônimo de nazismo’.

 

CORRUPÇÃO

  1. No uso bolsonarista do substantivo, é o termo vulgar de uma bactéria implantada por petistas no corpo político-social brasileiro, que antes jamais havia conhecido tal doença.
  2. Definição invertida de metonímia, que em vez de tomar a parte pelo todo, toma o todo pela parte, atribuindo somente ao PT a corrupção institucionalizada em todo o país, ao longo de toda a sua história.

 

DEUS ACIMA DE TODOS

 a) Deus:

  1. O nome da coisa que justifica tudo o que eu faço e digo. Aquilo em nome de que eu posso humilhar, discriminar, violentar.
  2. “Deus” é mais do que um nome. É um nome usado para se falar em nome de. A colonização foi feita “em nome de Deus”, toda tortura é feita “em nome da verdade”, etc. Assim as grandes palavras da humanidade são nomes para se falar em nome deles. Com isso, isenta-se do esforço de buscar palavras e nomes, do esforço de pensar.

b) Acima de todos.

  1. O Deus de Bolsonaro está acima de todos, mas acima de deus está Trump. Trump é a trombeta da versão bolsonarista do apocalipse, descrito nas propagandas e discursos bolsonaristas como cavaleiro do Ocidente, o grande salvador dos valores que unem um “nós” indefinido aos valores ocidentais. A mensagem é de que “só Deus pode nos salvar”, com a ressalva de que essa salvação terá que ser feita por uma nação: a nação americana. Deus é recolocado como o grande fiador, só que agora não mais da conquista racional do mundo, mas da venda com papel passado do Brasil aos americanos e conglomerações internacionais. Nota-se, assim, que a expressão, repetida até a exaustão durante a campanha, – “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos” – é, naturalmente, a versão tupiniquim de “America First”. Com a diferença de que, no nosso caso, a expressão em sua inteireza diria: ‘Brasil acima de tudo, Deus acima de todos, mas nada sem o consentimento dos EUA’.

 

DOUTRINAÇÃO ESQUERDISTA

  1. Novo nome para o que antes era a “conscientização política”.
  2. Palavra que entrou na moda por decreto quando ficou decidido que a ditadura militar que se instalou no Brasil em 1964 foi um ‘movimento’ e quando se decidiu também que os últimos trinta anos (data exata da redemocratização) foram um período de decadência moral e cívica. Daí a assumida necessidade de se reescrever a história. A estratégia de falsificação da história confunde-se com a necessidade de reescrever a história quando se leva em conta a história esquecida e reprimida das vítimas da história: quando se leva em conta a ausência da história dos negros, da mulher, dos homossexuais e de todos que sofreram segregação e injustiças ao longo dos séculos.

 

Para conhecer todos os termos baixe o “Desbolsonário de Bolso”, clicando aqui.

Fonte(s): Revista Fórum, Nocaute, Rede Brasil Atual
Aline Vilela
Jornalista, se acha blogueira de Instragram. Gosta de tirar selfies e fotos do look do dia. Não come queijo, só se for na pizza (como é que é?). Arroz é por baixo e feijão por cima. Ama ler e passou a adolescência entretida com romances água com açúcar.

Tá na rede!

Em caso de chefe
clique aqui