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Atitude Coletiva

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O que aprendi odiando o meu próprio pai

Meu pai era um inimigo. Um peso. Mas muito do que recebo vem do que ofereço antes.

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Eu não fazia a menor ideia de como pedir desculpas pro meu pai.

Apesar de medir a pressão arterial, separar remédios e tomar conta dele aos seis anos de idade, logo depois que minha mãe precisou sustentar a casa quando o primeiro acidente vascular cerebral (AVC) retirou a coordenação motora e memória da única fonte de renda da família, nunca me aproximei de verdade do meu pai.

Mesmo eu sendo filho de uma prostituta que ele conheceu pelas ruas do Rio de Janeiro e deu uma carona no táxi que dirigia até um hospital em Botafogo, mesmo me tornando o filho adotivo dele e da esposa alguns meses depois, levei 20 anos para entender que apesar de ele falar muitas grosserias, de não ter sido o melhor marido e muito menos o melhor exemplo de ser humano, ele sempre me amou acima de tudo.

Eu só conseguia odiá-lo. Desejar pela morte dele, do cara que empacou o sucesso e felicidade da minha mãe, todos os dias.

Não era pela depressão, que começou a me assustar desde os 13 anos, mas porque eu morava, cuidava e era cuidado ao mesmo tempo, por um tipo de pessoa que nunca suportei: um canalha. O canalha no arquétipo mais clássico: malandro, mulherengo, um ótimo amigo para tomar cerveja ou pegar a furadeira emprestada, mas terrível exemplo de fidelidade romântica ou estabilidade familiar.

Para mim, que tinha minha mãe como a criatura mais importante da Terra — apagando qualquer necessidade de reencontrar minha mãe biológica um dia, talvez pela Espanha, para onde foi trabalhar —, meu pai era um inimigo. Um peso que me fez gastar inúmeras noites imaginando diversas formas de assassiná-lo.

Na minha cabeça eu tinha esse direito. Meio que “devia” isso para minha mãe, nem que a custo de minha liberdade.

Olha a doida!

Quase 18 anos depois, meu pai recuperou bastante o controle sobre o corpo, voltou a andar, a ler um bocado e a raciocinar bem, apesar da lentidão para acessar arquivos no sistema cerebral. Mesmo presenteado com o que até os médicos chamaram de “milagre”, ele nunca mais pôde trabalhar ou sair de casa sem que eu ou minha mãe controlássemos cada passo dado.

Deixei de vê-lo como pai e passei a vê-lo como o filho que eu nunca quis ter. Era comum a revolta por eu e minha mãe dedicarmos tantos anos de nossa vida para mantê-lo saudável e seguro enquanto ele “piorava” no comportamento: desenvolveu TOC com cuidados da casa, a irritante mania de gritar com a televisão como se personagens de novela pudessem ouvi-lo, e um arsenal de resmungos infinitos que não perdoavam ninguém — nem a gente.

Na minha cabeça, eu estava tentando gostar dele, mas meu pai não deixava. Não se esforçava, era impossível! Eu sabia que o acidente vascular cerebral tinha afetado parte do cérebro, mas ainda era um cara consciente de si, do que estava acontecendo ao redor, e que escolhia responder de maneira babacona para um monte de coisas por clara preguiça e orgulho.

Foi quando, num dado momento aos meus 21 anos, tentei suicídio por notar que o peso da família, dos amigos e até de mim mesmo, era eu. É muito difícil explicar resumidamente o que me levou a tentar suicídio — e falei disso em outro artigo aqui do SOS Solteiros —, mas minha insatisfação comigo e a culpa de consciência criada pela depressão me fizeram ingerir 20 cápsulas de remédio tarja preta para convulsão e mais de 500ml de bebida alcoólica.

Quando acordei, três dias depois, notei “magicamente” que boa parte dos problemas que eu considerava intransponíveis eram potencializados por minha incapacidade de ser honesto comigo mesmo, de me vitimizar em vez de me colocar como agente da mudança da rotina cansativa, por não conseguir “devolver” pra minha família o carinho que eles sempre me deram — que tive dificuldade para compreender — e, principalmente, por não conseguir responder às diferenças dos outros com mais paz do que revolta.

Muito do desenvolvimento de transtornos compulsivos e obsessivos do meu pai provinha da necessidade que ele tinha de controlar ao menos uma parte da vida dele: a quantidade de pratos lavados, a posição dos copos no escorredor, a inexistência de folhas mortas no quintal e a constante preocupação em ser útil para alguma coisa.

Com um pouco mais de empatia — e terapia psicológica — clareei minha consciência e, pela primeira vez na vida, estou ciente de quem sou e de como quero responder realmente a cada situação apresentada, das melhores às piores. A depressão e os vícios comportamentais que criei, nomeadamente “muletas” que encontrei para tirar de mim a responsabilidade por minha própria existência e suas consequências na vida de outros, me cegaram.

Meu pai estava se esforçando sim. Ele nasceu em outra geração, foi criado por pais que não sabiam amar e só aprenderam a dizer “eu te amo” pro filho já na beira da morte. Meu pai não era assim comigo. Sempre tentou, fez o que pôde para ser o melhor pai, mesmo que não o melhor marido. Foi isso o que aprendi a julgar.

Minha mãe, mulher guerreira e muito sã, aceitava bastante do péssimo comportamento de meu pai por conforto. Ela não dependia dele para sobreviver. Escolheu cuidar do homem que a traiu diversas vezes, com todo tipo de mulher — e, por que não, outros homens? — pois, segundo ela mesma, ele foi o melhor amigo e a maior decepção amorosa que ela já teve. Ela sabia como se comunicar com meu pai, quando calar e quando realmente criar um problema para resolver uma situação com possibilidade de resolução.

Tem algumas semanas que escolhi ser mais como ela.

Admiti pra mim que, sim, eu queria a presença do meu pai na minha vida, mas do meu jeito. E isso não é justo. Eu fumo maconha e ele sabe que isso não muda quem sou. Mesmo odiando o cheiro e usando essa “desculpa” para resmungar sozinho durante toda minha onda, provavelmente colocando para fora toda a negatividade que ele cultiva acerca da imagem do “maconheiro” oferecida pela sociedade ignorante, ele está disposto a assoprar minha fumaça para longe se tiver que me dar um abraço.

Por que diabos eu não posso fazer a mesma coisa? Ignorar umas resmungadas ou grosserias lançadas sem querer, por hábito?

Não é o mesmo que aceitar violência ou abusos, até porque a única pessoa abusando de alguém nessa história fui eu mesmo, quando notei que fui mimado, sempre estive cercado de amor e nunca me esforcei para aprender a língua dele para que nos comunicássemos acima de nossas usuais imperfeições, por nossa real necessidade de conviver em paz. De nos abraçarmos sem os constrangimentos — que a gente nem sabe de onde vem…

Talvez pela falta do próprio hábito de sermos mais carinhosos um com o outro.

Tenho a sorte de ter pais muito bons em essência. Justos. Observando a casa de outros amigos, onde pais, filhos, tios e irmãos não param de se hostilizar e ninguém suporta ou respeita o outro, larguei os shots de tequila e as longas noites fora de casa para “aguentar” o resto da semana, e tomei shots de vergonha na cara.

Quero fazer minha parte, ser o filho que eu gostaria de ter, pois sendo o que eu gostaria de encontrar no outro, foi a maneira mais fácil de encontrar nos outros aquilo que eu espero deles.

Muito do que recebo vem do que ofereço antes.

Estou cansado demais, aos 23 anos, de estresse, de brigas ou de esperar que o universo se adapte a mim. Quero fazer minha parte. Se não der certo, se for um esforço “em vão”, quero ter a paz de admitir para mim que, pelo menos, eu tentei. Tentei me esclarecer, me esclarecer pro outro, entender o outro.

Sobretudo quando esse outro, por mais bagunçado que seja, é alguém que vai me amar acima de qualquer namorado, melhor amigo ou condição financeira. Alguém que escolheu ser o melhor pai que pôde para um filho que nunca esperou. Alguém que sempre escolherá me amar acima da própria vida.

Por que eu não tentaria?

Enrique Coimbra
"Sem H" mesmo. Escreveu os livros "Sobre um garoto que beija garotos", "Um Gay Suicida em Shangri-la" e "Os Hereges de Santa Cruz". Também grava vídeos para o canal "enriquesemh" do YouTube, é capista, e criou o site Discípulos de Peter Pan , sobre comportamento e bem-estar!

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