• Colabore!
  • Sobre nós
  • Contato
  • Anuncie

Atitude Coletiva

chevron_left
chevron_right

Delivery arrombado: não peça iFood em dias de chuva

Uma relação desumana entre a sua pizza e a uberização do trabalho.

  • Em caso de acidente, todo o prejuízo fica a cargo do entregador.

  • Para trabalhar nesses aplicativos, o entregador precisa “pagar”.

  • 4 milhões de pessoas têm esses serviços como fonte de renda.

Aquela chuvinha marota caindo, ou mesmo uma baita tempestade e tudo o que você quer é ficar no conforto do seu lar. Quando a fome bate, pega o celular e logo abre um aplicativo para pedir comida. É simples, prático, cômodo… A melhor das maravilhas.

Bom, pode ser que seja tudo isso para você. Mas já parou para pensar em quem está do outro lado? Em quem faz com que toda essa simplicidade, praticidade e comodidade seja possível?

Para que o pedido chegue à sua casa mesmo embaixo de chuva, é preciso que algum trabalhador faça essa entrega. Pois é. Por mais óbvio que seja, a gente acaba esquecendo.

Entregador teve sua moto arrastada por cerca de 200 metros no final do ano passado durante um temporal, em São José do Rio Preto.

Apesar da chuva por si só dificultar a vida do motoqueiro ou da pessoa que faz entrega de bicicleta, o maior problema é quando acontece algum prejuízo no meio do trajeto, como perder a moto em uma enxurrada. Afinal, quem arca com as despesas?

Sim, eles. Os próprios entregadores por aplicativo.

Uberização dos empregos

É isso mesmo. Os aplicativos de serviço não tem nenhum tipo de responsabilidade com o entregador porque não há vínculo empregatício. Isso porque não existe lei que assegure os direitos da pessoa que trabalha sem carteira assinada – o que acontece com a grande maioria das pessoas que fazem entrega por aplicativo.

Tudo isso se intensificou depois da reforma trabalhista, aprovada no governo Temer, que prometia criar 6 milhões de empregos. Apesar do alerta de alguns setores da sociedade, o inevitável aconteceu: sem garantias, veio a explosão de subempregos.

E o abuso não para em um possível prejuízo ao entregador. Para se ter uma ideia, até para começar a trabalhar com esse tipo de aplicativo é preciso gastar uma boa quantia em dinheiro. Ou você acha que a mochila térmica é enviada gratuitamente?

Mochila térmica para entregas: R$98,00 no site da marca.

A socióloga Sabrina Fernandes fala em um vídeo, no canal Tese Onze, sobre a situação social das pessoas que trabalham com delivery. Dentre outras coisas, a especialista menciona a alteração nas relações de trabalho que essa modalidade trouxe.

Se tradicionalmente, o patrão (detentor do capital) entrava com os meios de produção e o trabalhador, com a força de trabalho; a uberização nas relações de trabalho mudou essa lógica.

Um entregador que trabalha com aplicativos precisa entrar nessa ‘parceria’, inclusive, com o meio de produção. Ele é responsável por manter sua motocicleta, ou comprar/alugar sua bicicleta, bem como os equipamentos de segurança, a mochila térmica para transporte. Tudo. O aplicativo entra com… bem, só com o aplicativo mesmo.

Precarização das condições de trabalho

Todos os aplicativos de serviços (iFood, Uber, Rappi, DogHero, etc.) juntos ‘empregam’ mais do que qualquer empresa no país: são quase 4 milhões de pessoas que têm esses serviços como fonte de renda.

Isso quer dizer que são quase 4 milhões de pessoas que, além de não terem contrato não tem nem contato com seus “empregadores”, já que trabalham e recebem por meio de aplicativos. E tem quem acredite no potencial positivo dessa relação predatória.

Entregador faz delivery de restaurante no Centro do Rio, usando uma bicicleta do Itaú.

Dormir na rua e pedalar 12 horas por dia. Em entrevista ao G1, o entregador Anderson Corrente conta que chegou a pedalar cerca de 70 km em apenas um dia, e fala um pouco sobre as adversidades do subemprego:

Tem gente que é abusada, restaurante que trata mal, cliente que demora a ir receber o pedido. (…) A gente não come no horário de pico. Então enquanto estamos entregando o almoço das pessoas, já temos almoçado às 10h ou então só vamos comer às 15h. Da mesma forma à noite“, mencionou o entregador.

Ilusão de empreendedorismo

Por vezes, esses prestadores de serviço são vistos como pessoas empreendedoras, que estão aproveitando oportunidades que a vida está dando. Quando, na verdade, não é exatamente esse o motivo de precisarem se submeter ao subemprego.

Quando lemos alguma notícia de um entregador que pode receber até R$400 em um dia “bom” de entregas, parece de longe que é um ótimo emprego mesmo. E olha só, na chuva os aplicativos costumam pagar uma taxa extra ao entregador, que maravilha!

Acontece que esse mesmo entregador não está respaldado por nenhuma lei trabalhista: não tem direito a férias, 13º salário ou mesmo auxílio-acidente, caso sofra um acidente durante uma entrega – além de não contribuir para a previdência e não poder tentar garantir sua futura aposentadoria.

Não dá para dizer que um profissional sem o mínimo de garantias e que, por vezes e vezes, precisa tirar sonecas pelas ruas da cidade enquanto espera por mais entregas, seja um empreendedor – basicamente porque ele não teve outras opções mais seguras e confortáveis de prover seu sustento e/ou de sua família.

Mandou mal, hein iFood.

Por essas e outras questões que envolvem entregas, enquanto o mundo continuar criando obstáculos desumanos ao trabalhador, evite pedir na chuva. E sempre que possível, principalmente quando o serviço for nessas condições, dê uma gorjeta bem gorda; eles merecem.

Fonte(s): YouTube - Tese Onze, The Intercept, Época
Daiane Oliveira
Jornalista, feminista e mãe. Discute religião, política, sexo e hábitos sustentáveis. Não discute futebol porque não entende. Quem sabe um dia.

Tá na rede!

Em caso de chefe
clique aqui