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Atitude Coletiva

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Críticas construtivas e críticas destrutivas: como diferenciar?

A forma como somos afetados por críticas depende muito sobre como nos enxergamos.

Junio Silva Publicado: 30/09/2020 11:57 | Atualizado: 05/10/2020 11:45

A forma como recebemos ou somos afetados por críticas, mesmo que alheias, depende muito sobre como nos enxergamos intimamente. Veja a seguir como podemos distinguir a crítica construtiva da destrutiva.

 

Muitas vezes, quando a bebida entra, algumas verdades começam a sair. Foi o que aconteceu em um fim de tarde, enquanto quatro amigos aproveitavam o início do fim de semana para tomar cerveja e jogar conversa fora.

“Pra mim, a gente precisa ter controle da nossa vida. Quem não sabe beber, ou bebe quase todo dia, por exemplo, tá perdido”, disse um deles, levantando uma discussão sobre limites.

Com um tom meio alterado, um dos amigos, que costumava enxergar nos balcões e mesas de bar um de seus lugares favoritos, questionou.

“Por que você tá falando isso? É comigo?”

Como o simples é de uma complexidade absurda, bastou uma curta pergunta para que uma grande questão fosse levantada.

“Eu nem estava falando de você. Você tá se doendo por quê?”

 

Por que algumas críticas nos atingem tanto?

Em algum momento da vida, você já pode ter vivido uma situação parecida com essa. Quando algo nos afeta, mesmo que indiretamente. Mas por que essas críticas, comportamentos ou indiretas acabam nos afetando?

O problema pode estar não no que foi dito, mas em o que foi atingido. Dificilmente somos afetados por críticas à algo que não corresponda com o que fazemos. Essas, costumam entrar em um ouvido e sair pelo outro.

A forma como recebemos ou somos afetados por críticas, depende muito sobre como nos enxergamos intimamente. E o subconsciente tem um papel importante sobre isso, como explica a psicóloga Michelle Teixeira:

“Algumas informações sobre o que achamos sobre nós mesmos ficam no nosso subconsciente, pelo fato de serem doloridas para a gente. Nós acabamos mandando essas informações para lá, como forma de defesa. Quando uma crítica incomoda, isso quer dizer que lá no fundo nós concordamos com ela”.

No budismo, uma das maiores buscas é o autoconhecimento. E no meio dessa jornada, as críticas podem servir como um momento de reflexão sobre o que conhecemos de nós mesmos, e o que pode ser mudado.

“Se alguém falou algo, e mesmo não direcionado para você, te incomodou, quer dizer que você pode precisar rever algumas coisas em sua vida.

Mas quando aquilo não te incomoda, podem existir dois caminhos. O primeiro, de estar bem resolvido, pois eu não faço o que foi dito em tom de crítica. Ou, simplesmente, não estou nem aí para o que estão falando”, cita Manoel Paulo, jornalista e praticante da filosofia.

Ao ser “atingido” por um comentário, é possível que ali seja um momento onde nossas fragilidades sejam expostas, mostrando também o que pode estar incomodando, ou que possa causar problema em nossas vidas. Como o exemplo do homem que ficou incomodado ao ouvir do amigo que beber demais é ruim.

Quando o assunto sobre os efeitos negativo de beber demais foi levantando na mesa, era bem provável que o homem que se sentiu atingido nem ligasse para aquilo, caso não concordasse. Mas se ao invés de se sentir atacado, ele decidisse buscar entender o porquê da reação, talvez encontrasse algumas respostas sobre si.

O incômodo parece não surgir pelo o que foi dito, mas por algo que toca em feridas, através de críticas à comportamentos ou atitudes que, mesmo escondidas em algum lugar, reconhecemos em nós mesmos.

 

Crítica construtiva: quando doer, tente não fugir

Segundo os dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), levantado em 2017, 11 milhões de pessoas no Brasil sofrem de depressão, e 18 milhões lutam contra a ansiedade.

Uma das gerações mais doentes que o mundo já viu, e uma das que menos buscam ajuda de profissional, como mostra uma pesquisa inédita do instituto Market Analysis. Foi revelado que apenas 2% dos brasileiros frequenta terapia, um número que gira em torno dos 780 mil pacientes.

As barreiras para encarar o cuidado com a saúde mental como algo normal são diversas, como o custo das sessões e alguns mitos que ainda giram na sociedade em torno do assunto, como a eficácia do tratamento e a busca por ajuda somente em problemas considerados sérios.

No entanto, um dos primeiros passos para buscar ajuda é entender que precisamos dela.

E nessas horas o lema “Bateu, doeu? Pega que é teu!“, ampliado pela influenciadora Jout Jout ao GNT, pode servir como uma oportunidade para encontrar comportamentos problemáticos e traumas mal resolvidos dentro de si, e que podem ser trabalhados.

A crítica construtiva, segundo o lema, é qualquer uma que mexa com a gente. Traduzido em outras palavras: algo que foi dito (ou feito) vibrou em você e doeu? Tem coisa aí. Aproveite essa oportunidade para se analisar.

Nesse contexto, qualquer valor para elencar a crítica destrutiva perderia sentido. Pois ela seria completamente ignorada. Ou seja, ou a crítica é construtiva ou é inexistente.

Se alguém reprova quem bebe demais, por exemplo, e você não possui esse hábito, dificilmente aquilo vai te atingir. Já em casos onde essa crítica acaba respingando e doendo, pode ser interessante entender o porquê daquilo ter incomodado.

Segundo a psicóloga Michelle Teixeira, debulhar os porquês é fundamental:

“Nós podemos tentar ver qual é o conteúdo que foi atingido, o porquê, e se é algo que sentimos necessidade de ser trabalhado, colocando em terapia e tudo mais.”

Teoria dos Espelhos: características alheias também incomodam

Além de uma fala crítica, o mesmo aprendizado pode acontecer quando o que o outro faz se torna um incômodo para nós, como explica a ‘Teoria dos Espelhos’ do psicanalista e psiquiatra francês, Jacques Lacan.

Segundo a teoria, as relações humanas são como um espelho, onde só conseguimos enxergar nos outros características que existam ou já existiram em nossa personalidade.

Assim, ao nos incomodarmos com algo que outras pessoas fazem, mas que não afetam em nada a vida delas, isso diz muito mais sobre nós mesmos do que sobre o outro.

 

Autoconhecimento, liberdade e ajuda profissional

Segundo a psicóloga, a forma como encaramos palavras ou atitudes que nos afetam, vai depender do quanto nos nós conhecemos.

“Quando temos certeza de quem somos, uma crítica pode até respingar na gente, mas talvez ela não faça tão mal. Mas quando temos dúvidas de quem a gente é, quando não temos certeza, ela pode acabar tendo uma repercussão em nosso emocional. Seja por isso ou, lá no fundo, acabarmos concordando com aquilo”, explica Michele.

Através do autoconhecimento, de conhecer nossa personalidade e atitude, é possível entender e receber melhor algumas críticas, conseguindo absorver o que pode ser construtivo para a vida e deixando passar, sem esquentar a cabeça, aquelas que não condizem com quem somos.

E nos dias atuais, com um maior acesso a conteúdos que vão dos bons aos ruins, conseguir filtrar essas críticas parece ser indispensável. Diversas pesquisas apontam as redes sociais como grande grandes vilãs da saúde mental.

Um artigo publicado pela The Atlantic, por exemplo, observou que o uso excessivo aumentam os casos de ansiedade e depressão. Já o estudo conduzido pela University Of Southern California em parceria com a Beijing Normal University, mostrou que o Instagram contribui para problemas de sono desregulado, bullying, ansiedade, depressão e problemas com imagem corporal.

Em meio a tanta (des)informação e fugas ao alcance de um clique, parar e olhar para dentro de si, encarando as próprias falhas e enfrentando essas dores, é difícil. Mas é necessário.

Através deste processo, de reconhecer quais foram nossos acertos e os erros, é possível levar uma vida mais leve, aprendendo “quais são as críticas que devemos levar em consideração e que devem ter relevância para a gente”, como ensina Michelle Teixeira.

Para não se perder no processo, procure ajuda profissional. Fuja de coachs Faça terapia.

Junio Silva
Jornalista, cronista, e ex-futura promessa do futebol.

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