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Atitude Coletiva

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“Como a depressão me ajudou a ser feliz”

‘Em vez de continuar me frustrando por não encontrar um antídoto, decidi conviver com ela.’

mutlu-kadin

imagem: ademozbay

Titia Depressão não é uma simples “tristeza infinita” ou a constante solidão autodestrutiva que sentimos num lar silencioso nas noites de sábado. Titia Depressão é uma contínua afirmação no fundo da mente de que mais nada vale a pena.

Essa vaca foi a responsável por minha tentativa de suicídio no ano passado — e sorte foi o que me fez sobreviver aos 20 potentes comprimidos de tarja preta para epilepsia e muito álcool.

Nos primeiros oito meses desde que voltei da morte, me senti curado. Foi como se morrer tivesse sido necessário para que eu entendesse como a vida é episódica, e minha incapacidade de calcular o futuro com exatidão não é importante se comparado ao valor da minha vida — para mim e outras pessoas.

Assim que a euforia de ter sobrevivido se esvaiu e minha rotina voltou a ser o que era, a depressão retornou e todo meu padrão comportamental antigo veio de bagagem num processo lento, nunca imperceptível por não ser indolor.

Me perguntava:

“Por que tenho depressão? Minha vida é perfeita! Tenho pais que não ligam de eu ser garoto e beijar garotos! Meus amigos são os mais leais e me conhecem de cabo a rabo! Tenho casa própria, trabalho pela internet, e mesmo que a falta de dinheiro seja meu maior problema, no geral eu estou muito bem!”

Pra Titia Depressão, explicações racionais não fazem sentido pois ela se desenvolve através de razões psíquicas, ou químicas. Até mimetizada, quando nosso comportamento se torna autodepreciativo ao conviver com depressivos em constante crise.

Gastei muito tempo caçando cura até aceitar que (no meu caso) vou conviver com essa doença por anos, talvez para sempre, e em vez de continuar me frustrando por não encontrar um antídoto, decidi fazer o possível para conviver bem com minha condição.

Não como um desistente de batalha, mas como um mestre de dança, aceitando que a Titia tá dançando valsa e eu preciso ensiná-la a dançar funk.

Ensinei meu cérebro a pensar que tudo que faz mal precisa ser expulso da rotina. Dessa forma parei de achar a tristeza “poética”, “bonita”, ou que ser vítima vai fazer com que peguem mais leve comigo. O mundo é mesmo injusto, mas venho me doutrinando a manter os olhos nas melhores coisas e apenas correr a vista pelas piores.

Inclusive desmontei gatilhos que me entristeciam: se percebi que fico mais depressivo nas madrugadas na frente do computador, me dediquei a mudar meus horários, dormindo mais cedo à noite para acordar na manhã, me afastando dessas madrugadas em crise.

Se antes não pensava em alimentação e miojo era Deus, hoje deixo meu prato mais natural e colorido para cobrir as necessidades do meu corpo e evitar que uma má nutrição faça com que eu deseje cortar meus pulsos usando um fio de nylon. Passeei mais. Me exercitei e fui contra toda minha indisposição para sobreviver.

A depressão veio por um acaso genético e me ensinou a aceitar o óbvio: posso apanhar dela todos os dias ou fazer um tratamento, compreendê-la, mudar meus hábitos e a maneira de como a doença se manifesta em mim.

Enquanto o que me faz bem, se ao meu alcance, simplesmente fica. E se não fica, encontro algo novo para admirar, me inspirar, me levantar do chão e me fazer acreditar na vida outra vez. E quase sempre sou eu mesmo falando:

“Vai, só mais uma vez. Vai!”

Aí eu vou.

Enrique Coimbra
"Sem H" mesmo. Escreveu os livros "Sobre um garoto que beija garotos", "Um Gay Suicida em Shangri-la" e "Os Hereges de Santa Cruz". Também grava vídeos para o canal "enriquesemh" do YouTube, é capista, e criou o site Discípulos de Peter Pan , sobre comportamento e bem-estar!

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