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“Chicken Little”: a verdadeira história é muito mais surpreendente e assustadora do que imagina

Uma aula sobre o poder das fake news e manipulação das massas.

Você provavelmente já ouviu falar em Chicken Little, nem que seja em uma de suas variações brasileiras:

Muitas pessoas foram apresentadas ao personagem em 2005, quando a Disney lançou uma animação chamada no Brasil de “O Galinho Chicken Little”.

Na história, um galinho põe sua cidade em pânico por acreditar que o céu estava caindo, mas sem provas, todo mundo duvida até que são surpreendidos um ano depois por uma invasão alienígena. Enfim.

Mas essa animação em longa é um remake de um curta, outra animação produzida pela Walt Disney em plena Segunda Guerra Mundial, em 1943, inspirada em um conto de Henny Penny publicado em 1823, que fala sobre a manipulação das massas e o poder devastador de um simples boato, ou como dizemos hoje, das fake news.

Mas aqui o final é BEM DIFERENTE!

Chicken Little raiz.

Na versão de 43, galinhas, gansos e perus vivem seguros protegidos por uma cerca alta, um portão cadeado e pela espingarda do fazendeiro, em uma fazenda.

Eis que uma raposa muito esperta aparece e, impossibilitada de ultrapassar esses obstáculos, decide utilizar da psicologia, afinal:

“Porque comer só um quando eu posso devorar a todos?”

A raposa então ensina 4 passos para enganar “otários”.

Vale dizer que esses passos não estavam na história de Henny Penny, foram inseridos posteriormente pela Walt Disney, de acordo com o contexto histórico. Vamos a elas:

 

1. “Para influenciar as massas, dirija-se primeiro ao menos inteligente”

Neste momento o protagonista aparece. Um pintinho inocente, capaz de acreditar em qualquer coisa. Em um pequeno galinheiro pode ser fácil identificar pontos fracos, mas hoje em dia, onde isso seria possível?

Já alertamos sobre os perigos de expor nossos dados na internet, principalmente ao instalar aplicativos ou fazer algum quiz para descobrir quem seríamos no seriado Friends. O objetivo dessa coleta de dados é montar um perfil psicológico dos internautas para manipular suas opiniões. Foi exatamente isso o que aconteceu com a eleição de Donald Trump, nos EUA.

 

2. “Se tiver que contar uma mentira, não conte uma pequena, conte uma grande”

A raposa encontra uma placa azul com uma estrela amarela, simula fumaça e barulhos de tempestade, joga a placa na cabeça do pintinho e se autoproclama voz do outro mundo para sentenciar: “o céu está caindo”.

O pintinho logo divide seu pânico com toda a cidade, que por medo acredita nele. Mas o Galo, prefeito da cidade, experiente, ri e diz se tratar de uma estrela de madeira, acalmando a todos.

Como bem sabemos, os boatos, ou fake news, se espalham rapidamente por aplicativos de mensagem. Por exemplo, quem iria imaginar que alguém acreditaria que um governo iria distribuir mamadeiras eróticas para crianças. Pois é, acreditaram. E essa foi apenas um das várias notícias falsas que rolaram desde então, como explicado nesse vídeo.

 

3. “Destrua a confiança do povo nos seus chefes”

Nesse momento, a raposa se disfarça, passando informações de acordo com cada tipo de personalidade da fazenda, por exemplo, explora o medo de morrer das galinhas, a possibilidade de abuso de autoridade aos conselheiros gansos, e para os patos bêbados disse que o prefeito andava maluco.

O sucesso da campanha de difamação da raposa obtém êxito quando todos esses personagens cruzam suas informações e chegam a mesma conclusão: o prefeito galo é um pinguço lunático com poder que quer nos matar!

No Brasil, por exemplo, isso aconteceu novamente na corrida presidencial em uma pesada campanha de difamação via WhatsApp, patrocinada por empresários, como denunciado pela Folha de São Paulo.

 

4. “Pelo uso da bajulação, uma pessoa insignificante acaba convencendo-se de suas qualidades de chefe”

A raposa convence o pintinho que ele nasceu para ser chefe. O pintinho se apresenta como única salvação. A raposa joga uma estrela de madeira na cabeça do prefeito galo e este atentado é o estopim final para que todos sigam o pintinho para a gruta, sugestão dada pela raposa.

Na última eleição para presidente, ao votar, grande parte dos eleitores optou por ignorar um histórico de quase 30 anos de irrelevância no congresso, flerte com a ditadura militar, ligações com a milícia, bem como outros posicionamentos que ameaçam as liberdades individuais dos brasileiros.

 

Final: “quem acredita em boatos acaba assim…”

Todos os animais seguiram o pintinho até a gruta. Onde a raposa os esperava para devorá-los! Sim, até para a surpresa do narrador, esse é o final. Todo mundo vira banquete de raposa.

Exemplo emblemático aconteceu em uma entrevista à Fox News, quando o ex-chefe da CIA, James Woolsey, assumiu que o governo estadunidense interfere deliberadamente nas eleições de outros países. Apesar de preocupante, Woolsey e a âncora do jornal se divertem, ele ainda completa que tal intromissão é feita “para o próprio bem do país” (veja aqui).

 

Veja a animação completa:

 

A história acaba assim?

Na verdade, um pequeno fato a respeito dessa história toda foi omitida. A história do galinho não foi criada por Henny Penny, no século XIX, chegou ao autor inglês por meio da tradição oral, sendo passada de pais para filhos.

Por outro lado, foi graças a essa história que a expressão “chicken little” (já virou galinho para nós) entrou, em 1895, no dicionário Merriam Webster, sendo assimilado pela língua inglesa; o termo é sinônimo de alguém pessimista, derrotista e/ou do contra.

Mas qual a verdadeira origem então?

A versão mais antiga da história possui mais de 25 séculos e faz parte do Daddabha Jātaka, livro indiano da religião budista que traz ensinamentos sobre moral e educação por meio de fábulas, um pouco parecido com o que representam para nós ocidentais as fábulas dos gregos Esopo e Fedro.

É impossível, com tudo isso, não chamar atenção para um detalhe: a história de Chicken Little é mais antiga que a própria Bíblia. Estaríamos condenados a eternamente repetir o mesmo erro?

Claussen Munhoz
Gaúcho paulistano. Colorado de nascimento, formado em mundanidades e viciado em inutilidades. Tarado por informação, literatura e churrasco. Roteirista, jornalista e ex-produtor de Hermes e Renato que gosta de estudar e de batata. Só mais um entre tantos meninos perdidos.

Tá na rede!

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