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Atitude Coletiva

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Base da Mari Maria gera polêmica racial: “Canela, chocolate… Eu sou o quê? Eu sou pra quê?”

Até quando ‘cor de pele’ será clara e cores escuras serão exóticas?

As discussões sobre um produto da linha Mari Maria Makeup, da influenciadora Mari Maria – com milhões de seguidores nas redes sociais – têm levantado o debate sobre representatividade da pele negra no mercado de cosméticos.

Aliás, mais do que isso, reproduções de racismo estrutural têm sido apontadas em alguns aspectos da linha. Para falar a respeito do assunto, em um vídeo, a youtuber Marielli Malmann convidou a empresária, ativista social e influenciadora digital Ana Paula Xongani.

Ana Paula Xongani e Marieli Mallmann.

Antes de entrar exatamente na questão do produto, Xongani já menciona que o combate ao racismo é uma bandeira que deve ser levantada por todos, não apenas pelos negros.

“O racismo não é um problema meu e nem das pessoas pretas, é um problema da nossa sociedade”, pontuou.

A ideia do vídeo partiu de Marielli, mulher branca, que diz ter se incomodado mais com as cores do produto do que com outras questões práticas, como a eficiência e cobertura da base.

Eu cheguei pra Xongani e falei: amiga, olha só, eu não tô entendendo porque a lista de cores da base segue dessa maneira”, destacou Marielli.

As cores claras da base são tratadas como cores (nude e bege) e, à medida em que as cores vão escurecendo, elas recebem (com exceção do bege escuro) nomes voltados à comida: chocolate, cacau, canela, por exemplo.

Xongani menciona que tratar as cores destinadas às peles negras como comidas é tratar esse público como exótico e erótico, além de fortalecer o discurso de hipersexualização das mulheres negras.

A influenciadora destaca o ainda frequente uso de expressões como “da cor do pecado”, “cor de canela”, “cor de chocolate”, “marrom bombom” e questiona:

Canela, chocolate… Eu sou o quê? Eu sou pra quê?”

Que cor é ‘nude’ (cor de pele)?

Por que o nome ‘nude’ (ou cor de pele) é comumente utilizado para se referir a uma cor clara?

“A gente entra no primeiro ponto do racismo estrutural que é a gente naturalizar o ‘ser branco’. E o ‘ser negro’ é o outro, é o diferente, é o exótico, é o que tá fora da curva. 

Então quando a gente fala, por exemplo, que o ‘nude’ é um tom de pele clara significa que o natural é o tom de pele clara”, destacou Ana Paula Xongani.

O ‘nude’ de cada pessoa é uma cor diferente. O ‘nude’ de Ana Paula é uma cor escura, enquanto o ‘nude’ de Marielli, uma cor clara; visto que uma é negra e a outra, branca.

O ‘nude’ em si não é uma cor, ele é um tom de uma pele. Está aberto, não tem uma pele especial. Todo tom de pele é um tom ‘nude'”, afirmou Marielli.

Xongani destaca que, quando uma marca atribui automaticamente a cor ‘nude’ às peles claras, ela deixa de abordar as questões raciais mais básicas. Várias marcas, por exemplo, já têm pensado fora dessa caixinha limitante do ‘nude’, desenvolvido vários tons.

Empresa estadunidense, Naja lançou linha de lingerie com 23 nudes:

Faber-Castell com 6 lápis ‘cor de pele’:

10 Tons de polêmica

Apesar de as influenciadoras destacarem como positivo o fato de a base se apresentar com 10 cores diferentes, o que significa uma conquista para mulheres negras que nem sempre são contempladas com esse tipo de produto, houve mais polêmicas envolvendo o assunto.

Em um vídeo no seu canal Herdeira da Beleza, o jornalista de beleza e maquiador profissional Tássio Santos analisou a base de Mari Maria Makeup no quadro #OTomMaisEscuro. Nesse quadro, Tássio utiliza a cor mais escura de uma linha de maquiagem em uma modelo com pele negra retinta.

Tássio Santos não aprovou teste na modelo.

No vídeo, com quase 1 milhão de visualizações, Tássio criticou a concepção do produto, mencionou que ele não é adequado para peles retintas, dentre outras coisas, porque deixa a pele ‘acinzentada’, sem aspecto bonito e viçoso.

O jornalista lamentou também que, ainda hoje, existam produtos que não pensem em valorizar a beleza da pele negra.

Júnia Evaristo, modelo negra de pele retinta que participou da campanha da linha de maquiagem, também criticou o ‘acinzentamento’ de sua pele na divulgação do produto, assim como a edição de imagens.

A modelo acusa a marca de tentar ‘branqueá-la’ nas fotos de divulgação da base.

Após a polêmica, o material com a imagem de Júnia foi excluído do perfil oficial da Mari Maria Makeup nas redes sociais; e a modelo também deletou as postagens de suas redes.

Conforme Xongani menciona no vídeo, a ‘tentativa’ de atender o público negro com as bases é positiva – ainda que se saiba que esse é tão somente um movimento do mercado que vem entendendo que esse público é consumidor de maquiagem.

Mas, se na comunicação e na concepção da linha não houver uma vontade sincera de realmente buscar atender bem pessoas de pele morena e negra, o resultado pode ser desastroso.

Errando é que se aprende

No ramo das influenciadoras digitais no universo de beleza já existem exemplos positivos.

Após críticas à sua base (inclusive vindas do jornalista Tássio Santos), Bruna Tavares, do blog Pausa para Feminices, reformulou seu produto e conseguiu desenvolver 12 cores que aumentaram sua abrangência e renderam muitos elogios.

Parece que a grande questão para as marcas é estar aberta ao diálogo, tendo a capacidade de evoluir com os erros e críticas construtivas. Veremos se é o caso da linha de Mari Maria Makeup.

Tentamos contato com a marca para falar a respeito da polêmica em torno do produto. Até a publicação deste artigo, não retornaram o contato.

Daiane Oliveira
Jornalista, feminista e mãe. Discute religião, política, sexo e hábitos sustentáveis. Não discute futebol porque não entende. Quem sabe um dia.

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