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Vai, planeta!

Atlas do Agrotóxico no Brasil: Água 5 mil vezes mais ‘envenenada’ e aumento de suicídios

Novo documento escancara o lado obscuro do setor agrícola brasileiro.

Há pouco publicamos algumas matérias (essa, essa e essa) apontando o grande jogo de interesses que rola por trás da facilitação do uso e da liberação de agrotóxicos mundialmente conhecidos pelo terrível potencial de destruição.

Mas, apesar dos dados, é difícil ter uma real noção do que esse descaso com a nossa saúde e com o meio ambiente pode causar. Ou melhor, era!

A professora Larissa Mies Bombardi, pesquisadora do Laboratório de Geografia Agrária da USP publicou recentemente um estudo intitulado comoGeografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia, que tem como objetivo estimular o debate sobre o uso de agrotóxicos em nosso país.

Conhecendo o inimigo

Os agrotóxicos são substâncias químicas usadas para exterminar pragas que possivelmente possam afetar a lavoura. Só que esse veneno, porém, é capaz de matar toda a vida presente na região afetada, como insetos, pequenos animais, poluir a água e o solo, etc.

Com a criação dos alimentos transgênicos, que tem sua estrutura celular modificada para serem resistentes aos agrotóxicos, essa situação se intensificou. De olho no lucro que uma colheita maior poderia trazer, cada vez mais veneno está sendo utilizado nas lavouras.

Mesmo coberto com essas substância químicas, o alimento continua firme e forte, pelo menos aparentemente. Quando na verdade se transforma em uma verdadeira “bomba de veneno”, que vai direto para o nosso organismo.

Boa parte dessas substâncias tóxicas – como o caso do glifosato, o agrotóxico mais usado nas lavouras brasileiras (explicamos tudo nesse artigo) – já foram apontados como possíveis desenvolvedores de câncer e diversas outras doenças, como intoxicação, malformação e inclusive mortes.

O Atlas 2017: “Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia”

O estudo de 3 anos desenvolvido por Bombardi é chamado de atlas, pois a especialista fez questão de facilitar o entendimento das informações, criando infográficos e imagens de quase todos os dados chocantes que descobriu.

Para fazer o download do documento completo e em alta resolução, basta clicar aqui.

No documento, a pesquisadora analisou como andava o estado de intoxicação da população, separando-a por estado, município, região, assim como gênero, circunstância da contaminação, faixa etária, grupos étnico-raciais e locais de exposição.

Comunidade indígena é a mais afetada

O estudo revela como comunidades indígenas inteiras estão sendo destruídas pela contaminação causada pelo agronegócio; negócio esse que amplia suas posses a cada dia, principalmente pela grilagem ou acordos com entidades governamentais, tudo isso em meio à mal explicados assassinatos de índios e ativistas.

Homens e mulheres que trabalham nas lavouras e até bebês com menos de um ano de idade foram comprovadamente infectados pelos agrotóxicos.

Uso para suicídio aumentou significativamente

Conforme os dados levantados, aqui no Brasil, as principais circunstâncias que levam à intoxicação pelos “venenos da agricultura” são o “uso habitual”, quando a intoxicação acontece durante a rotina do trabalho; “acidental”, quando ocorre algum acidente e por “tentativa de suicídio”, quando a pessoa faz uso do veneno para se matar.

De acordo com a especialista, além dos perigos dos produtos químicos, isso ainda reflete por conta da vida angustiante e deplorável dos trabalhadores de grandes fazendas espalhadas pelo país, capaz de fazê-los procurar uma saída dando fim à sua existência.

Como o suicídio implicaria em menos problemas judiciais que uma intoxicação durante o trabalho, pode ser que tenha a mão de interessados por trás dessas notificações. Isso poderia explicar porque em Pernambuco 100% dos casos de envenenamento são notificados como tentativa de suicídio.

Na região Sul, são 75%, na região sudeste o índice de suicídio com intoxicação de agrotóxicos passa dos 80%, com excessão do Rio de Janeiro.

“É necessário entretanto fazer a ressalva de que o número de suicídios, como uma das circunstâncias principais que levaram à intoxicação, também pode ser entendido como mais uma evidência da grande subnotificação existente no país. Como um caso de tentativa suicídio tem implicações mais amplas, do ponto de vista jurídico, é mais fácil que ele se torne um número nas estatísticas oficiais, do que casos provocados por outras circunstâncias.”

Os mais jovens também estão entre os intoxicados

De forma geral, o estudo apontou ainda que cerca de 25% das intoxicações analisadas pela especialista eram mais presentes entre crianças e adolescentes, desde recém nascidos até em jovens de 19 anos.

“…6% desses casos foram de crianças com idade entre 1 e 4 anos. 2,5% em crianças com idade entre 5 e 9 anos e em torno de 4%  em crianças com idade entre 10 e 14 anos. Isto significa que milhares de crianças no campo têm sido intoxicadas com agrotóxicos.”

E ainda sem levar em conta uma outra informação muito importante levantada por Bombardi: no país, 8 brasileiros são contaminados por dia, sendo que para cada caso que é notificado outros 50 passam batido, sem que ninguém fique sabendo.

Ou seja, os números divulgados no estudo provavelmente são bem maiores.

Enquanto isso, na União Europeia…

O nosso uso desenfreado e inconsequente de agrotóxicos se torna ainda mais visível quando comparamos as nossas leis com as estabelecidas pela União Europeia, para os mesmo produtos.

Por aqui, o estudo aponta que são cerca de 504 agrotóxicos permitidos sendo que 30% deles, mais de 150 tipos de veneno que usamos livremente, são expressamente proibidos na União Europeia devido à sua ligação com as doenças já mencionadas nesse artigo, como desenvolvimento de tumores, por exemplo.

Outro exemplo chocante mencionado na pesquisa é a quantidade do glifosato permitido na água. Lá na Europa, até 0,1 micrograma de glifosato por litro de água é considerado como uma quantidade que não fará mal a nossa saúde. No Brasil são 500 microgramas, 5 mil vezes mais!

Relação Europa x Brasil sobre o uso de glifosato por litro de água.

Como uma mesma substância pode ter um abismo tão grande entre o que é considerado nocivo ou não, apenas pela região onde é usada?

Claro que devemos levar em conta alguns aspectos, como o clima europeu, que não é tão favorável às pragas como o nosso clima tropical e por lá, talvez as lavouras consigam se manter usando menos agrotóxicos, porém, conforme pontuado pela especialista, não estamos falando de uma pequena diferença.

Atente-se, são 5 mil vezes mais veneno.

Veja abaixo a tabela que compara os limites aceitáveis de substâncias tóxicas em alimentos e na água no Brasil e na União Europeia.

A dimensão de tudo isso é de assustar

Para saber o quão longe isso pode chegar, é só termos uma noção do tamanho dos campos agrícolas existentes em nosso país.

De acordo com o levantamento da pesquisadora, no cultivo da soja, por exemplo, são usados 47% dos agrotóxicos vendidos no país, ou seja, mais da metade de todo o veneno é usado apenas no cultivo desse alimento – que em sua maioria é exportado como ração para animais.

Você já pensou o tamanho das plantações de soja? São mais 22 milhões de hectares, 4 vezes maior que o tamanho da Escócia, quase 4 vezes maior que o tamanho de Portugal.

Seria como se dentro do Brasil tivéssemos 4 países tendo seu solo, sua vegetação, seu ecossistema sendo destruídos com veneno.

Vale dizer que, dos agrotóxicos vendidos no país, em segundo lugar ficam as plantações de milho (11,4%) e em terceiro o cultivo de cana (8,2%), muito forte no interior paulista.

O estudo de Bombardi é útil para escancarar os interesses escusos do setor agrícola, ao mesmo tempo que nos mostra como estamos mal representados na política como um todo, onde os interesses econômicos visivelmente acabam prevalecendo.

Além da atenção ao que consumimos, fica a lição sobre a importância de sempre questionar, debater e repassar informações do interesse público adiante. Como diria o Capitão Planeta, “o poder é de vocês!”.

Ouça abaixo a matéria realizada com a especialista, transmitida pela Rádio Brasil Atual:

Fonte(s): Água, Rede Brasil Atual, Larissa Bombardi, Informaluz
Redação - Almanaque SOS
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