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Comes & Bebes

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Viral: cozinhar arroz na garrafa PET é uma péssima ideia!

Conheça os perigos do método de cozimento que conquistou as redes sociais. 

Euriann Yamamoto Publicado: 15/11/2021 11:42 | Atualizado: 23/11/2021 11:46

Pode parecer útil e até divertido: cozinhar arroz numa garrafa PET. As pessoas riem, brincam e se orgulham por estarem fazendo algo “inusitado”. Mas, por outro lado, parecem não se atentar para os riscos incutidos nessa trend.

 

“Foi acampar e esqueceu a panela de arroz?”

Imagine que você tenha ido acampar ou combinou um churrasco de última hora. Mas por “força do destino” esqueceu o recipiente para preparar arroz. Desespero ou raiva? Eu acredito que iria pesquisar na internet a solução para o problema.

Na hora da necessidade, vídeos com a chamada acima prendem logo a atenção. Acompanhante quase insubstituível no churrasco, os amantes de um arroz saboroso e soltinho não abrem mão do prato.

“O que temos para servir de panela?” “Oh, uma garrafa PET!”

Garrafa PET com arroz antes do cozimento em churrasqueira

Num acampamento em agosto de 2020, uma tiktoker ensinou em um minuto, como cozinhar arroz na PET. Água, arroz, óleo, sal, cenoura e até milho! “Quanto mais coisa você colocar, mais gostoso fica, viu!?”.

Esse vídeo em questão viralizou, chegou a mais de 3 milhões de visualizações e milhares de curtidas.

@heyd.apolinarioGente façam na sua pescaria vcs vão AAAAMAR!♬ som original – Eydy Apolinário

Como consequência desse sucesso, a receita ganhou novas versões (como essa), o que nos levou a buscar informações mais detalhadas a respeito do assunto. Será que pode trazer algum risco à saúde?

A nutricionista Annie Francielly Macedo Marques e a engenheira de alimentos Silvia Maria Martelli deram opiniões a respeito desse método de cozimento. Confira.

 

Conhecendo o “PET”

O poli (tereftalato de etileno), mais conhecido como PET, é um polímero termoplástico utilizado na produção de fibras de poliéster, filmes, embalagens de alimentos e garrafas de bebidas. Esse tipo de plástico é um dos mais produzidos em todo o mundo.

Apesar da sua grande importância no setor alimentício, no que tange à embalagem dos alimentos, o plástico apresenta algumas questões que devem ser levadas em consideração.

Durante a fabricação, o polímero pode receber adição de aditivos e catalisadores que irão fazer com que o plástico tenha rigidez e brilho, como forma de melhorar a qualidade do produto final. Além disso, processos de elevação de temperatura e o tempo de aquecimento influenciam na fabricação do material.

“O objetivo da ciência não é produzir verdade indiscutíveis, mas discutíveis” – Bruno Latour

Garrafa PET com arroz após cozimento em churrasqueira.

 

Ftalatos e Antimônio: o que tem na garrafa PET?

A garrafa PET é originada do petróleo. Mas até que ela chegue às prateleiras nos mais distintos formatos, são necessárias uma série de etapas químicas para sua produção. As duas principais rotas de fabricação do poliéster são:

  • Esterificação direta
  • Transesterificação

A primeira é obtida a partir da reação do ácido tereftálico (TPA) com o etileno glicol (EG). Já na transesterificação, no lugar do TPA é utilizado o éster tereftalato de dimetileno (DMT). Nosso intuito não é se aprofundar nas etapas de fabricação do PET.

O uso dos termos complexos nesse texto tem como objetivo familiarizar o leitor aos compostos decorrentes desses processos de fabricação.

Ftalatos

Ftalatos são grupos de compostos químicos conhecidos por algumas siglas como di(2-etilhexil) ftalato (DEHP), dibutil ftalato (DBP), dimetil ftalato (DMP), entre outros. Durabilidade e flexibilidade são algumas das vantagens que esses compostos fornecem às garrafas.

No entanto, na literatura não são raros os artigos relacionando os ftalatos ao aumento na ocorrência de câncer, problemas reprodutivos, alterações no DNA relacionada à exposição a ftalatos na vida intrauterina e problemas endócrinos.

Um desses artigos comparou o efeito da temperatura da água em duas marcas de garrafa PET. Nas garrafas com água quente (60ºC) a quantidade de ftalatos foi considerada maior que nas garrafas preenchidas com água à temperatura ambiente (27 ºC).

Os autores explicaram que ao longo de 30 anos, as quantidades encontradas de ftalatos não causariam mal à saúde humana. No entanto, esse risco poderia aumentar se fosse utilizada a água quente em vez da água à temperatura ambiente.

Eles também reforçam que, se uma única garrafa for reaproveitada, a migração dos ftalatos para a água poderia ocorrer de maneira preocupante. E concluem que é fundamental que países em desenvolvimento tenham medidas proibitivas quanto ao reaproveitamento de garrafas PET.

Antimônio

Antimônio é utilizado como catalisador na fabricação da resina PET, o antimônio pode produzir toxidez pulmonar se inalado e, de acordo com a Agência Internacional de Pesquisa para o Câncer, é considerado um possível carcinogênico.

Resíduos de trióxido de antimônio já foram encontrados em garrafas de água. Aghaee e colaboradores (2014) constaram que um aumento no tempo de armazenamento e na temperatura pode favorecer a migração de antimônio das garrafas para água.

No Brasil, a RDC/2008 permite que as fábricas utilizem o antimônio para a fabricação da resina PET, considerando os limites específicos de migração. No entanto, sendo tóxico, o ideal é que existam políticas públicas voltadas a substituição desse catalisador na produção da resina PET.

A lista não acaba.

Ainda existem outros compostos como o acetaldeído e formaldeido, que são ativados com o aumento da temperatura. Ambos estão associados com a ocorrência de câncer e distúrbios endócrinos.

 

Aquecer comida na garrafa PET é muito perigoso

A revista “Polímero: Ciência e Tecnologia” possui um artigo de revisão que trata a respeito das reações e degradações decorrentes da fabricação do PET. Um dos pontos abordados é de que o uso de temperaturas elevadas na síntese do PET pode favorecer o surgimento de compostos, como acetaldeído, oligômeros e o dietileno glicol.

Se durante a fabricação do PET, o material pode sofrer degradações, imagine o caso da garrafa PET aquecida pela temperatura das brasas?

Doutora em biomateriais, Silva Martelli explica:

“O risco de se utilizar garrafa pet para cozimento é que os aditivos utilizados para elaboração desses materiais plásticos migrem para o alimento sendo ingeridos pela pessoa”.

E reforça:

“A garrafa PET não foi feita para suportar aquecimento. A elevação da temperatura na garrafa pode favorecer a migração de aditivos para os alimentos. O maior perigo é essa contaminação”.

Em 2008, um estudo da Universidade do Arizona que considera o efeito do calor na velocidade da liberação de uma substância (o antimônio) constatou que, se uma garrafa plástica for deixada em uma temperatura amena (21°C), os níveis das substâncias consideradas tóxicas estariam dentro de um intervalo seguro.

Já com o aumento na temperatura, os aditivos poderiam migrar do plástico para a água.

É um assunto bem sério. Confira como a National Geographic abordou o efeito de temperaturas extremas em garrafas plásticas.

 

Garrafa PET não contém Bisfenol A

Ao contrário do que havia sido afirmado anteriormente nesse artigo, a garrafa PET não contém bisfenol A.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) apresenta a RDC nº 326, de 3 de dezembro de 2019. Esse material descreve todos os aditivos que podem estar presente nos plásticos quando em contato com os alimentos, incluindo o BPA (bisfenol A).

Essa substância é comum em outros vasilhames de plástico, inclusive encontrado em algumas mamadeiras. O composto pode afetar o sistema endócrino ainda na vida uterina pode ser encontrado em alguns materiais plásticos.

A Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia lançou em 2010 a campanha “Diga não ao bisfenol A, a vida não tem plano B”, com o objetivo de banir a substância de produtos infantis e embalagens plásticas.

Campanha da SBEM contra o uso de bisfenol A em produtos infantis e embalagens de alimentos.

 

O problema vai além da garrafa PET

Quantidade de óleo acima do recomendado para ingestão diária, segundo Organização Mundial da Saúde (OMS).

O vídeo do perfil @pratododiareceitas recomenda quantidades dos ingredientes a serem utilizados na preparação. O uso de óleo ou azeite para o cozimento chama a atenção.

Não são todos os azeites que podem ser colocados em altas temperaturas. A nutricionista Annie Macedo explica:

“O azeite virgem é o mais específico para o cozimento porque deve ter uma taxa de acidez de cerca de 1%. Quando submetido a alta temperatura, o azeite perde suas propriedades benéficas”.

Annie relata ainda que a quantidade de óleo utilizada é muito superior ao recomendado para nossa saúde:

“Segundo a OMS, a ingestão de óleos e gorduras não deve ultrapassar duas porções diárias (equivalente uma colher de sopa cheia) por pessoa. No vídeo, sugere-se um terço [de um copo] da quantidade de óleo. Muito acima do recomendado”.

É comum encontrar na literatura artigos discutindo a respeito da quantidade diária de óleo que deve ser ingerida por uma pessoa. Como esse realizado no Vale do Taquari/RS.

 

Como substituir?

Existem outras opções para substituir o arroz.

“Você pode substituir pelo pão de forma, tapioca, crepioca e até mesmo a cuscuzoca. Essa última é feita com farinha de milho (2 colheres de sopa) umedecida em água (3-4 colheres de sopa).

Quebre um ovo sobre a cuscuzoca numa frigideira pequena (que dê pra levar na mochila), tempere a gosto e sele dos dois lados. Utilize as brasas da churrasqueira para aquecer a frigideira.” – ensina Annie Macedo.

E reforça:

“Substitua por frutas ou legumes como cenouras, beterraba, tomate, as quais não precisam de refrigeração. Até mesmo o ovo você pode utilizar como alimento em acampamentos”.

 

E se eu ainda quiser levar arroz?

Se ainda assim a sua preferência for pelo arroz, você pode fazê-lo numa panela pequena ou ainda utilizar uma garrafa térmica.

A engenheira de alimentos Silvia Martelli avisa:

“Meu conselho é utilizar os utensílios domésticos adequados, pois foram feitos para isso. A garrafa térmica tem um revestimento que com o tempo pode ir se degradando. No entanto, ela foi criada para suportar calor. Então não teria problema.”

Por fim, a Coca Cola Company lançou a primeira garrafa de plástico PET reciclável feita com até 30% de material vegetal. Mas não fique animado! Ela pode ter os mesmos aditivos mencionados.

Não vá na onda de vídeos que podem trazer malefícios à sua saúde. Cuidado.

Euriann Yamamoto
Redatora, Doutora em Agronomia e apaixonada pela vida. Faz boas escolhas focando em ser a mudança que espero ver no mundo.

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