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Afinal, o mundo está ficando melhor ou pior? Vamos aos dados!

O psicólogo e linguista Steven Pinkel traz alguns números interessantes.

C. Bomfim Publicado: 17/02/2020 14:44 | Atualizado: 17/02/2020 20:20

Não é de hoje que escutamos que o mundo mudou muito e que a humanidade vai de mal a pior. Ouvimos de nossos pais, que ouviram de nossos avós, que também já ouviam o mesmo papo lá atrás, “Ah… no meu tempo que era bom”. Uma história contada de geração em geração, diariamente confirmada pelos noticiários e que, já, já, estaremos repetindo.

 

Mas será que é isso mesmo?

O psicólogo e linguista Steven Pinkel tem opinião diferente e diz que tudo isso não passa de conversinha apocalíptica propagada por uma onda de populistas contemporâneos. Heróis em busca de uma causa e que, para isso, constroem um cenário catastrófico para depois nos “salvarem”.

Steven Pinkel.

Pinker, nascido no Canadá mas naturalizado americano, diz, em suas palestras e livros, que o progresso só tem melhorado o mundo (“…apesar de não significar que tudo melhora para todos o tempo todo”) e que estamos numa curva ascendente em diversos quesitos que elevam o bem-estar da população mundial.

Em seu último livro, O Novo Iluminismo: Em defesa da razão, da ciência e do humanismo, de 2018, ele defende em números e argumentos sua hipótese de que o progresso é a solução de nossos problemas e não a ruína humana, como dizem.

 

O que os dados dizem?

Para ilustrar seu pensamento Pinker compara o mundo de hoje ao de 30 anos atrás, exibindo dados e informações que confirmam suas ideias:

  • Em 2018 (ano do livro) 12 guerras estavam em andamento, 60 governos autocráticos seguiam no poder, 10% da população mundial estava abaixo da linha da pobreza extrema e tínhamos 10.000 armas nucleares em todo planeta.

  • Trinta anos antes, em 1988, eram 23 guerras, 85 autocracias, 37% de população miserável e 60.000 armas nucleares.

Sem dúvida, uma mudança bastante significante.

Outros números levantados por ele mostram que nas últimas décadas até as mortes por acidente ou desastres naturais sofreram uma queda – 90% em média!

No Brasil, acompanhando os números mundiais, também reduzimos a pobreza e miséria da população como mostra o quadro abaixo (apesar de uma preocupante mudança a partir de 2015, por conta das crises financeiras e políticas).

Ele também contrapõe estatísticas dos últimos dois séculos:

Por boa parte de nossa história a expectativa de vida humana era de 30 anos contra aos 70, 80 atuais e 1/3 das crianças morriam antes dos 5 anos contra os menos de 6% da atualidade.

Por aqui, mais uma vez, o país segue esses números positivos, tendo uma perspectiva de vida elevada de 40 para 76 anos e uma baixa na mortalidade infantil dos quase 15% para pouco mais de 1% (comparando 1945 com 2018).

Enfim, para Pinker, todos esses dados só comprovam que o mundo nunca esteve tão bem quanto hoje.

 

Por que não sentimos isso em nosso dia a dia?

Segundo o psicólogo, há uma distorção sobre a realidade. Choque, surpresa e pessimismo: não à toa, essa é a fórmula de sucesso das fake news. Além das redes sociais, Pinkel alerta que a mídia, cada vez mais desesperada por audiência, se aproveita do interesse mórbido humano e prioriza as notícias relacionadas a violência ou desastres.

Outra questão lembrada por ele é que nos noticiários vemos o que acontece e não o contrário ou seja, os jornalistas falam sobre a guerra que acabou de estourar e não sobre as décadas de paz que aquele país viveu nos últimos tempos.

 

O mundo melhorou… pra quem?

Em dias como os nossos é bom saber que talvez nem tudo esteja perdido e, de alguma forma, estejamos evoluindo. Mas talvez também seja bom lembrar que estamos na era da pós-verdade e que uma mesma realidade pode ser vista por diversos ângulos.

Steven Pinker utiliza dados baseados em fatos de nossa história e sustentados por números oficialmente reconhecidos.

Mas, repare, um discurso a favor da manutenção de um sistema consumista pelo bem do “progresso” é algo tão animador quanto perigoso, porque dados inquestionáveis assim podem encobrir informações não tão prósperas.

Afinal, em um cenário tão humano e auspicioso, como pintado pelo especialista, onde se encaixariam os absurdos dados do constante aumento da desigualdade social?

Enquanto na China e na Índia, reunidas, 1 bilhão de pessoas não são mais consideradas pobres, há mais gente vivendo na extrema pobreza na África Subsaariana do que há 25 anos. Segundo artigo da BBC, o Banco Mundial não deverá bater a meta de reduzir o índice de pobreza para 3% da população até 2030.

“Estamos vendo um número decrescente de pessoas pobres pelo padrão absoluto [US$ 1,90 por dia ou menos], mas um número crescente de pessoas pobres, segundo os padrões dos países em que vivem”, disse Martin Ravallion, ex-diretor de pesquisa do Banco Mundial ao veículo.

Segundo relatório divulgado pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), uma das agência da ONU, após três anos a fome mundial não diminuiu e a obesidade continua crescendo. Estima-se que mais de 2 bilhões de pessoas, principalmente em países de baixa e média renda, não têm acesso regular a alimentos seguros, nutritivos e suficientes.

Vale dizer que, segundo a Oxfam, a fome no mundo aumentou em 2019 – pelo quarto ano consecutivo.

Que tipo de bem-estar convive com o crescimento de movimentos extremistas de intolerância racial ou xenófoba? Ou com o encarceramento em massa de pessoas pobres e negras? E com o aumento exponencial de casos de feminicídio?

Que sentido de progresso é esse quando seguimos apostando no agronegócio, mesmo sabendo que o crescimento da agricultura em pequena escala é duas a quatro vezes mais eficaz na redução da fome e da pobreza do que o crescimento em qualquer outro setor? E quanto ao aquecimento global, estamos ganhando essa batalha?

Por fim, mas entre tantos outros absurdos, como um “mundo que nunca esteve tão bem” tem como mal do século a depressão?

Para se pensar, muito.

 

Assista a fala de Steven Pinker no TED (com legendas em português):

 

Fonte(s): TED Talks, CCE Fiocruz, Agência IBGE, Notícias UOL, Nações Unidas Brasil, Exame, BBC, Sabrina Fernandes, Banco Mundial
C. Bomfim
Gente que gosta de gente. Enxerga (e escuta) histórias por onde passa.

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