A reação das pessoas sobre a obra "A Origem do Mundo" é a prova de que voltamos no tempo
  • Colabore!
  • Sobre nós
  • Contato
  • Anuncie

Crossfit Mental

chevron_left
chevron_right

A reação das pessoas sobre a obra “A Origem do Mundo” é a prova de que voltamos no tempo

Esse desespero é sinal de que a gente precisa conversar sobre arte.

Bruna Molon Grotti Publicado: 03/10/2018 12:05 | Atualizado: 03/10/2018 16:29

Não importa se você é homem ou mulher, hétero ou homossexual, cis ou trans, assexuado ou se gosta mais de sexo do que de lasanha: muito provavelmente, você já teve contato com uma vagina na sua vida.

Afinal, quando nascemos por vias naturais, é de lá que a gente sai. Feio que nem um joelho, chorando de desgosto e todo lambuzado de fluidos vaginais – vale acrescentar.

Isso acontece desde que a humanidade é humanidade. Só que, com o crescente avanço do conservadorismo no Brasil e no mundo, tanto a ideia quanto a imagem da vagina, quando não sexualizada, se tornou um incômodo, uma violência, uma devassidão, uma afronta à “moral e aos bons costumes”.

Prova disso é a reação dos internautas a recente publicação do jornal O Globo no Instagram, revelando a identidade da modelo que posou na icônica obra A Origem do Mundo, do pintor francês Gustave Courbet.

A publicação e os comentários dos internautas.

Teve gente chamando o grupo Globo de comunista, gente fazendo campanha para denunciar o post e tirá-lo do ar (e conseguiram), gente dizendo que a imagem era nojenta e, como já era de se esperar, gente dizendo que, caso o candidato da extrema-direita seja eleito, esse tipo de coisa vai ser erradicada do Brasil.

Na época em que foi pintada, há mais de 150 anos (1866), A Origem do Mundo podia ser considerada como pornográfica. Contudo essa ideia caiu por terra quando foi reconhecida como “aquela que dava a última palavra do Realismo”, escola artística que surgiu no século XIX, ganhando destaque em um museu de Paris.

O que nos comprova que toda essa demonstração de desespero diante de uma simples vagina é sinal de que a gente voltou no tempo e precisa conversar. Sobre arte, sobre história, sobre natureza, sobre sexualidade, sobre tabus. Então vamos lá.

 

1. Quem é Gustave Courbet na fila do pão e o que é essa tal “A Origem do Mundo”?

Por mais que seja conveniente aos ultraconservadores dizer que Courbet é mais um comunista que mama nas tetas do governo via lei Rouanet – assim como a Daniela Mercury, a Zélia Duncan, o Zeca Baleiro, a Madonna (?) ou o Papa Francisco (???) -, essa mentira não cola, seja por conterraneidade, seja por contemporaneidade.

Gustave Courbet foi um pintor francês, pioneiro da escola realista, que viveu entre 1819 e 1877. Seu estilo compreendia pintar pessoas anônimas e cenas reais – exatamente como uma vagina peluda.

“A Origem do Mundo” (1866) foi encomendado por um diplomata turco que colecionava imagens eróticas e queria uma pintura retratando o nu feminino de forma crua, simples e natural. Entre vendas, compras, roubos e recuperações, a obra foi parar na sala de Jacques Lacan, grande psicanalista francês, e desde 1995, quando foi exposta publicamente pela primeira vez, faz parte do acervo do Museu de Orsay, em Paris.

Autorretrato de Gustave Courbet, incrédulo com a ignorância da população brasileira

 

2. Uma vulva cabeluda pode ser considerada arte?

Não é de hoje que se discute o que é arte. A verdade é que esse é um conceito pra lá de subjetivo e variável. Cada nova escola artística e filosófica que surge adiciona um novo sentido ao fazer da arte.

Se a gente se apegar a Aristóteles, filósofo grego que viveu antes de Cristo e que até hoje influencia manifestações artísticas, sobretudo narrativas, arte é a imitação da vida. Partindo desse preceito, quer maior imitação da vida do que uma vulva?

Eu e mais de 50% da população mundial, se olharmos pra baixo, veremos algo muito semelhante. Mais ou menos peludo, mais ou menos claro, mais ou menos volumoso – mas ainda assim uma vulva.

E por mais que eu tenha me baseado em conceitos relativos para afirmar que “A Origem do Mundo” é arte, uma verdade nessa história toda é absoluta: moralizar, definitivamente, não é um papel da arte. Deixemos essa função para as leis, para as regras, para os costumes – para tudo o que é regido pelo superego.

 

3. Uma boceta incomoda muita gente, duas bocetas incomodam muito mais. Por que?

Embora verdadeiro, seria simplório responder que é porque vivemos em uma sociedade patriarcal. Então, vamos tentar nos aprofundar um pouco mais.

Numa sociedade patriarcal, o homem é o centro do poder e das decisões. Portanto, o falo – aka pênis, pinto, cacete, rola e companhia limitada – é que é o símbolo passível de adoração, admiração e de estar nas pinturas e nas esculturas clássicas.

Vide o David, de Michelângelo, que tá até hoje com o pintão – ou pintinho, né, rysos – de fora lá na Academia de Belas Artes de Florença, na Itália; enquanto a Vênus, de Boticelli, nascida mais ou menos na mesma época, já tá fazendo a bela, recatada e do lar, cobrindo os peitos e a vulva com os cabelos e com as mãos.

David, de Michelangelo, todo à vontade pra quem quiser apreciar

A Vênus, de Botticelli: mal nasceu, já se cobriu

E como se não bastasse o falo ocupar o altar da adoração no lugar da vagina, o desconforto em lidar com a nudez vem da vulnerabilidade e da naturalidade que um corpo nu, não sexualizado, representa.

Quando estamos naturalmente nus, estamos sem cobertura e sem disfarces. E é aí que nos deixamos perceber como realmente somos: um monte de carne, osso, pelos, gordurinhas, relevinhos e manchinhas. Ou seja, seres imperfeitos. E para transformar esse corpo tão frágil e falível em algo aceitável, qual foi a solução que o patriarcado encontrou?

Isso mesmo, eliminar as imperfeições, sexualizá-lo e colocá-lo sob o crivo do desejo do outro. Ou seja, objetificá-lo. É por isso que nós, mulheres, vivemos às voltas com depilação, creme para celulite, tratamento anti-estria, maquiagem, dieta milagrosa e mais um monte de coisa que, a priori, serve pra encher de dinheiro a indústria da beleza.

Graças ao movimento body positive e ao feminismo, hoje já tem muita gente se aceitando – e se mostrando – da forma que é, sem manipulação de postura ou de imagem. Mas esse tipo de reação extremista a um quadro com uma vagina peluda e a aceitação mostra que ainda temos um longo caminho a percorrer.

Enquanto a gostosa na capa da Playboy for normal e a boceta peluda do quadro de Courbet não for, a gente ainda vai ter que comer muito arroz, feijão e farinha para ser uma sociedade inclusiva e que respeita o próximo por ser quem ele realmente é.

 

4. E como eu vou explicar essa pouca vergonha para o meu filho?

Não é segredo para ninguém que há conteúdos inapropriados para determinadas faixas etárias. É por isso, aliás, que existe a tal da classificação indicativa para filmes, jogos, aplicativos e programas de televisão.

“A Origem do Mundo”, não é necessariamente uma obra para ser apreciada por uma criança; apesar de não ter conotação diretamente sexual.

Mas convenhamos: para minha geração, que foi criada vendo Banheira do Gugu depois do almoço em família de domingo, “A Origem do Mundo” é só a origem do mundo mesmo. Uma vagina tratada sob um viés quase anatômico. Uma parte do corpo humano muito menos sexualizada do que os peitos da Panicat que aparece em rede nacional, em horário nobre. Isso sem falar na internet.

Lembrando que a criançada vê todo dia, nos livros de história, o amigo do David para fora e tudo bem – até porque está tudo bem mesmo.

É o que eu sempre digo: se até Jesus Cristo, que viveu há mais de dois mil anos, desfilava por aí só enrolado num paninho, o nosso excesso de censura ao corpo humano é algo, no mínimo, anacrônico.

Fonte(s): Paris City Vision, Significados, Obvious, Carta Capital, Revista Subjetiva
Bruna Molon Grotti
Frequentadora de transporte público e devoradora voraz de arroz e feijão com queijo ralado - e muita pimenta. Pensa mais do que deveria e repudia suco de caju e desarrumar malas. Ouve música o dia inteiro e, provavelmente, chora mais do que você. Gosta de se arriscar nos karaokês da vida - e nas cervejas e vinhos mais baratos da gôndola do supermercado.

Tá na rede!

Quero mais!

Veja mais artigos!

Em caso de chefe
clique aqui