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8 Vezes em que o Racismo prosperou no BBB 2019

Casos chegaram a Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância.

A 19ª edição do Big Brother Brasil tem gerado muitos comentários nas redes sociais, principalmente críticas dos internautas. E o motivo é simples. Nunca um elenco disparou tantos comentários racistas, em um curto espaço de tempo, como agora.

Se você não acompanha o programa e essa discussão não passou pela sua timeline, pode estar perdendo uma das maiores aulas sobre o assunto. Mas não se preocupe, vamos te explicar.

A temporada de 2019 do reality show Big Brother Brasil tem sido marcada por diversos comentários racistas e intolerância religiosa. O brother Maycon Santos e, principalmente, a sister Paula von Sperling tem sido os protagonistas dessas conversas preconceituosas.

Maycon Santos e Paula von Sperling.

A responsabilidade da Rede Globo

Na maioria das vezes, esses momentos não são exibidas na versão editada do programa, sendo apresentadas apenas algumas falas polêmicas, sem qualquer contextualização. Justamente por isso, a produção do programa tem sido acusada de mascarar o racismo dentro da casa.

Os casos vêm repercutindo tanto na internet, que a Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância abriu um inquérito para apurar se houve ou não crime envolvendo os participantes.

A Rede Globo, que até então não havia repreendido nenhum dos participantes por comportamentos como estes, se pronunciou na última quinta-feira (14) durante a edição do programa (ouça aqui).

Para que você entenda melhor a gravidade da questão, separamos as principais polêmicas relacionadas aos casos de racismo no BBB 19.

 

1. Racismo (estrutural)

Na madrugada do dia 17 de janeiro, os participantes Rodrigo França e Gabriela Hebling conversaram com outros brothers sobre “racismo”. O assunto surgiu após comentários anteriores de cunho racista feito por outros participantes.

Com muita paciência, Gabi e Rodrigo falaram um pouco sobre racismo estrutural e sobre os preconceitos que já sofreram. “Existia uma ideologia do embranquecimento. Para melhorar a condição econômica-politico-social, teríamos que embranquecer o Brasil”, explicou Rodrigo.

Segundo o dicionário, racismo é um conjunto de teorias e crenças que estabelecem uma hierarquia entre as raças, entre as etnias.

Também, uma doutrina ou sistema político fundado sobre o direito de uma raça (considerada pura e superior) de dominar outras. Podendo chegar a um preconceito extremado contra indivíduos pertencentes a uma raça ou etnia diferente.

O problema se intensifica no Brasil pois aqui o racismo é estrutural, ou seja, está ligado a nossa estrutura política, econômica e social – e desde 1500, pelo menos. Acontece que, devido a escravidão, a comunidade negra segue como a mais afetada por isso. Portanto, racismo contra negros faz parte da cultura brasileira, de forma estrutural.

Importante esclarecer que não é necessário agredir verbalmente ou fisicamente uma pessoa para que isso seja considerado um ato racista. Normalizar a negritude como inferior ou ruim, bem como a atribuir características negativas a pessoa negra, também são atitudes racistas.

 

2. Racismo Inverso

No dia 17 de janeiro, os participantes conversavam na cozinha como de costume. Rízia e Gabriela contavam alguns casos de racismo que já sofreram. No meio da conversa, Tereza aparece e declara que as meninas não sabiam como “mulheres brancas de olho claro passam por racismo”.

Gabriela retruca “o que? o que?”. Tereza então se desculpa e assume que estava chamando a situação que passou pelo nome errado. “É outro nome que dá, desculpa”.

Como no Brasil o racismo estrutural aponta principalmente contra a comunidade negra, oprimida há pelo menos 300 anos, uma situação ofensiva à etnia branca não pode ser considerado racismo, já que o conceito de racismo é baseado na opressão; situação que brancos não sofrem pela cor da pele.

Muitos usam o termo racismo inverso para se referir a um episódio de preconceito em consequência da cor da sua pele ser branca (ou olhos e cabelos claros). No entanto, é importante ressaltar que racismo inverso não existe, como explica a ativista negra Joacine Katar Moreira:

“Um negro pode discriminar e ser preconceituoso com um branco, mas não pode ser racista com ele, porque este último não tem estruturas (históricas, politicas, econômicas e sociais) que o oprimam com base no seu fenótipo.”

Portanto, racismo depende de uma estrutura social de opressão, diferente do preconceito ou discriminação que é voltado ao individuo.

 

3. Humor Negro

Mais uma vez o caso aconteceu com a Paula. Dessa vez o debate se iniciou quando os brothers destacaram como o termo “negro” é utilizado de forma pejorativa, quando, por exemplo, junto a palavra “humor”. A loira disse que para ela, ao invés de piadas politicamente incorretas, humor negro seria o mesmo que piadas racistas.

Já em outro momento, a sister brinca com o assunto, diminuindo a importância do tema: “eu sou assim, desde pequena”.

O Humor Negro surge do movimento black face, muito popular no século XIX, cujo o objetivo era zombar das características de negros, a partir da prática teatral. Atores se pintavam com carvão para representar personagens negros de forma exagerada e depreciativa.

Segundo a ativista Stephanie Ribeiro, “é necessário que a nossa noção e os limites ao dito “humor negro” comecem desde o nome, onde o termo “NEGRO” designa algo “ruim”.”

Para a Mestre em Filosofia, ativista e feminista, Djamila Ribeiro, “é preciso perceber que o humor não é isento, carrega consigo o discurso do racismo, machismo, homofobia, lesbofobia, transfobia”.

Djamila defende, em seu artigo “o verdadeiro humor é aquele que dá um soco no fígado de quem oprime“, que o humor só faz sentido quando ele é uma arma para evidenciar opressões e não naturalizar e enfatizar práticas preconceituosas ou racistas.

 

4. Cotas Raciais

No mesmo bate-papo que rendeu o assunto do “humor negro” a participante Paula pergunta aos demais brothers “Vocês concordam com cota para negro em universidade?”. Gabriela então responde um “vixi”, seguida por um “ih” de Rodrigo.

“Eu não concordo, pra mim isso é uma forma de racismo do Estado”, completa Paula. Rodrigo então pede a sister: “isso pode ser pauta para outro momento? Por que é muito longo”. Após a advogada insistir no assunto, Isabella responde: “você não tem cota racial na universidade sem que você venha de escola pública. Existe a cota para baixa renda e racial. Não tem necessidade ter racial”.

Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU) o Brasil está entre os 10 países mais desiguais do mundo, metade da população brasileira é negra. Mas, o negro tem 5 vezes mais chance de ser analfabeto do que um branco. Somente 1 pessoa a cada 4 no ensino superior é negra.

Neste cenário, muito devido a dívida histórica por 300 anos de escravidão e marginalização social, as cotas raciais nas universidades vem com o objetivo de proporcionar condições iguais em uma ambiente, cujo acesso, ainda depende de um sistema competitivo.

Por exemplo, em uma corrida há dois grupos de competidores no primeiro, os corredores estão descalços, enquanto no segundo os seus o adversários estão descansados e devidamente equipados. Esperar que essa disputa seja justa é um contrassenso.

As cotas raciais são fruto de anos de luta de movimentos sociais por igualdade e contra o racismo estrutural, que nega a participação de pessoas negras nas esferas de poder, por meio da baixa qualidade de ensino e, consequentemente, menor qualificação profissional.

 

5. Cabelo Ruim

No dia 20 de janeiro, a sister Paula (de novo) fez outro comentário racista, dessa vez relacionado ao cabelo crespo ser ruim. Gabi e Hana conversavam sobre creme de pentear, Gabi então diz “porque a Elana tem cabelo cacheado”, então Paula responde “eu também, tenho cabelo ruim”. Ao ouvir o comentário  Gabi responde “não fala isso (…) ruim é preconceito”.

Existe uma predominância da estética branca como padrão de beleza aceito pela sociedade. Cabelo liso e claro, olhos e peles claras. E pessoas fora dessa padrão são as feias, de cabelo duro ou ruim. Atitudes assim são atos de racismo, já que a ideia por traz de um “comentário inocente” ou da “preferência” de alguém, é na verdade resultado de séculos de opressão.

Como dito no primeiro item, há séculos, a formação sociocultural do Brasil é formada pelo embranquecimento da população, para diminuir e até mesmo inviabilizar características do negro.

“Durante muito tempo pessoas negras tentaram inviabilizar traços afros, por meio de tecnologias e produtos químicos, como alisar o cabelo, para ser reconhecida como morena. Na esfera pública da construção da nação brasileira, não havia espaço para a estética negra”, explica a pesquisadora do Laboratório do Núcleo de Antropologia Urbana da USP, Jacqueline Moraes Teixeira à Vice.

Hoje, existe um forte movimento de empoderamento capilar (o SOS já abordou o tema). Já faz alguns anos que as pessoas têm quebrado a barreira do racismo e assumido suas origens, inclusive por meio da valorização do cabelo crespo.

Segundo a Jacqueline, é importante levar em consideração que “a questão do racismo trabalha com uma série de questões da pessoa, o que é incorporado e internalizado por ela, e resulta em complexo de inferioridade muito grande”.

 

6. Negro de pele clara

Após a participante Elana, negra de pele clara, se definir como mulher negra. A sister Paula voltou a fazer comentários racistas “Hã? Você é negra? Não, você é branca. Eu sou negra então, porque a minha avó é negra”.

Gabriela, então explica a Paula que ter uma avó negra não apagava o seu privilégio de mulher branca e completa: “olha, é como quando alguém tenta me chamar de morena, tira totalmente a minha história. Moreno é o Maycon, entende, que é um branco de cabelo escuro. A Elana tem sim traços negróides, e ela se define e se identifique como negra. Já você não é negra, Paula”.

O colorismo é um conceito que se refere aos diferentes tons de pele negra e aos diferentes níveis de preconceito e marginalização sofridas pela população negra, dependendo do quão escura é a cor da sua pele.

Como explica a ativista Nátaly Neri, os negros de pele clara são tidos como pardos e morenos, uma definição “apreciável” do negro dentro da sociedade. Por estarem mais próximo do padrão estético branco imposto socialmente, um negro de pele clara desfruta de determinados privilégios que um negro de pele escura nem terá acesso.

Por isso, muitas pessoas brancas não consideram negros de pele clara como negros, já que muitas vezes essas pessoas não apresentam narizes largo, lábios grossos e tom da pele escura. No entanto, apesar do seu tom de pele mais clara, essas pessoas também sofrem com uma sociedade racista, que estigmatiza o tom de pele moreno como sensual e exótico .

 

7. Intolerância Religiosa

Em uma conversa com Diego e Hariany, Paula afirmou ter medo de Rodrigo por ele “ter contato com esse negócio de Oxum”, a participante ainda completou “Nosso Deus é mais forte”. Oxum é um a entidade cultuada no Candomblé e na Umbanda, ambas religiões africanas.

Os casos de intolerância religiosa não pararam por ai. Durante uma das costumeiras festas, o brother Maycon afirmou para Diego, “respeito as religiões, mas tenho um certo medo porque já aconteceram muitas coisas comigo. Uma vez, vi dois urubus em pé, um de costas pro outro. Eram dois espíritos ruins, que estavam comendo umas macumbas. Ai na festa eu sentei ali de boa e comecei a comer. Daí o Rodrigo e a Gabriela chegaram, ficaram um de costas pro outro, se abraçaram e começaram a fechar os olhos (veja a cena). Ouvi várias vozes falando comigo dizendo: ‘Não seja como eles’. Não só eles, mas todo mundo que é assim. Daí as vozes ficaram falando de Jesus Cristo”.

No Brasil mais de 70% dos casos de intolerância religiosa são contra religiões de matrizes africanas. Segundo especialista, isso acontece principalmente devido ao racismo e a discriminação que remontam à escravidão. Desde o Brasil colônia, religiões africanas foram demonizadas por padres com o intuito de catequizar negros, numa forma de dominação.

Esse número expressivo demonstra  como o racismo estrutural presente na sociedade brasileira estigmatiza e inferioriza características culturais e religiosas da comunidade afro-descendente, reforçando a ideia da dominação da cultura branca sob as demais.

 

8. Esteriotipação do Favelado

Ao relatar o caso de uma amiga que foi esfaqueada pelo ex-namorado ciumento para Hariany e Deigo, Paula afirma ter pensando que o criminoso era um “faveladão”, mas se surpreender ao descobrir que, na realidade, era um “cara branquinho, que morou na Austrália ou Canadá”.

Com o fim da escravidão no Brasil, os negros trazidos à força para o país não receberam condições de assistência e de terras para que pudessem garantir seu sustento e de suas famílias. Com isso, os recém-libertados ocuparam as margens das cidades, criando as favelas.

A sociedade racista impõe um imaginário, desde sempre, que negros são perigosos. É o estereótipo de “pivete”, o negro, pobre, favelado.

No livro “O que é racismo estrutural”, o filósofo Silvio Almeia explica que do ponto de vista teórico, “o racismo, como processo histórico e político, cria as condições sociais para que, direta ou indiretamente, grupos racialmente identificados sejam discriminados de forma sistemática”.

Historicamente, a figura do negro é caracterizada como a do pobre, favelado e bandido, em consequência de anos de discriminação, preconceito e desigualdade econômica e social.

 

Se mesmo depois disso você ainda está perdido, fica a dica do nosso querido Renan do Choque de Cultura:

Fonte(s): Quebrando Tabu - Youtube, Nitro News, Geledes, O Dia, Revista Capitolina, Notícia da TV, Super Vestibular, Vice, Na Telinha, Afros e Afins Nataly- Youtube, Carta Capital, Pambazuka
Aline Vilela
Jornalista, se acha blogueira de Instragram. Gosta de tirar selfies e fotos do look do dia. Não come queijo, só se for na pizza (como é que é?). Arroz é por baixo e feijão por cima. Ama ler e passou a adolescência entretida com romances água com açúcar.

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