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5 Vezes que “ser egoísta” me poupou muita merd*

Se colocar em primeiro lugar pode ser muito diferente de ‘apenas’ pensar em si.

Enrique Coimbra Publicado: 04/12/2015 15:26 | Atualizado: 04/12/2015 15:46

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Desde pequeno minha mãe me ensinou que ser egoísta é errado. Cresci para me tornar o que chamam de palerma: a vontade de todo mundo é mais importante que a minha, o problema de todo mundo é maior que o meu, e eu não posso reclamar, mas todos se sentem no direito de me acusar pela morte do Mufasa.

Me obrigando a dizer “sim” quando queria dizer “não” e tentando agradar o máximo possível de pessoas — mesmo que desagradasse a mim mesmo no trajeto —, precisei aprender que “egoísmo”, vez ou outra, não é ruim. É mais do que saudável e serve para que eu me sinta satisfeito com quem sou e com o que posso ser para as pessoas ao redor. Como a vez em que eu:

1. Contradisse o que esperavam de mim

A pressão para que eu me formasse na faculdade não era direta, mas meus pais sonhavam com esse momento por mim, o único dos três filhos com chances para pegar um diploma e ter carreira estável “no tempo certo”.

No penúltimo semestre para minha formação em Design Gráfico, já não aguentava mais me enganar dizendo que queria aquilo para o meu futuro. Eu queria escrever livros e gravar vídeos para a internet — o exato oposto de estabilidade ou “carreira”, ao menos no início. Fui “egoísta”, destruí todos os sonhos que meus pais cultivaram em cima de mim e corri atrás do que queria, mesmo contra as recomendações e pedidos.

Hoje eles têm orgulho do ser humano que me tornei, e mesmo que o susto de eu não obter um diploma tenha batido forte no passado, hoje o abandono da faculdade é lembrado como uma atitude corajosa e inspiradora para que até eles pensem fora da caixa quando necessário — e ver seus pais falando isso é bem foda!

2. Quando neguei convites sem mentir

Tenho amigos que não aceitam “não” como resposta. Quando chega a noite de sábado e tudo que quero é ficar debaixo do edredom vendo filme, nego o convite de ir à festa de um desses amigos, por exemplo, e ele insiste irritantemente.

Um ser humano normal inventaria uma desculpa atrás de outra para inviabilizar qualquer possibilidade de aparecer na festa, mas nunca gostei de mentir minhas razões. Então comecei a falar a verdade e insistir: “não tô no clima de sair hoje. Não, não, não”.

Assim me poupo — e poupo meus amigos — da minha indisposição, da minha falta de vontade em socializar, e de gastar dinheiro para ir e voltar rapidinho num evento onde, possivelmente, poderei me divertir, mas que não é minha vontade no momento. Fim de papo.

3. Quando escondi comida dos amigos

Confesso: já escondi pizza no congelador para meus amigos não verem. Não sou mão-de-vaca, unha-de-fome ou qualquer coisa do tipo — falando nisso, quem inventou essas expressões?!

É que quando comecei a fazer minha própria comida, as compras do mês, as laricas, os dias certos para cozinhar, tudo foi pensado para minha sobrevivência solteirística.

Uma vez amigos pediram para usar minha casa como espaço para uma social, mas a galera só trouxe bebida. Eles perguntaram se poderiam fazer comida e é óbvio que não neguei. Apenas pedi para deixarem uma porção pro meu jantar da noite seguinte.

Passamos o dia seguinte na rua. Pela madrugada, quando voltei para casa morrendo de fome, procurei a comida que pedi para guardarem e não encontrei nada. E isso se repetiu outras vezes. Agora, por segurança, quando sei que vem gente, guardo pelo menos uma refeição para me salvar dos perrengues de tentar arranjar comida tarde da noite, sozinho e desesperado.

4. Quando me escondi da família

Minha família é conhecida por repetir os mesmos erros constantemente, ignorando quaisquer avisos óbvios de que vai dar merda do tamanho de um Boeing 797.

Quando vejo alguém que amo cometer um erro catastrófico, tento alertar. Se a pessoa ignora o aviso e insiste em mexer no vespeiro, me afasto até a pessoa se resolver. Afinal, errar é humano, só que repetir os mesmos erros quando existem escolhas melhores é definição de sacanagem — e eu não sou obrigado a nada, meu bem.

5. Quando transei por mim

Soa estranho, né? Mas quero dizer que durante o sexo eu não me comparo se sou pior ou melhor que a pessoa com quem tô transando casualmente.

Eu e ela buscamos prazeres individuais usando o corpo um do outro. Eu me sinto desejado, com a autoestima no lugar, e acho que até me dedico mais para a pessoa ter o melhor orgasmo da vida — e alimentar um pouco minha mal nutrida vaidade, mesmo que só eu saiba.

“Ser egoísta” aqui e ali impede que eu crie problemas — o que me poupa o trabalho de resolvê-los —, porém é a generosidade, a gratidão e a empatia que dominam meus dias com mais frequência.

Equilibrei o que minha mãe ensinou sobre compartilhar com tudo que aprendi sobre amor próprio, e o resultado é um cara que não é um monstro frio que passará por cima de qualquer um em benefício próprio, nem o palerma que vai deixar de comer para alimentar o colega folgado.

O resultado é um ser humano tentando ser mais franco consigo e com aqueles que o cercam, pois ele sabe que tem direito de ser o que se é — e de dizer “não” ou “sim” para o que quiser.

Quando parei de querer atender expectativas, quando parei de me frustrar por não ser perfeito, apreciei um diálogo 100% privado num mundo onde o ruído social impede que a gente ouça a própria voz.

Até quando ela ecoa de dentro da gente.

Enrique Coimbra
"Sem H" mesmo. Escreveu os livros "Sobre um garoto que beija garotos", "Um Gay Suicida em Shangri-la" e "Os Hereges de Santa Cruz". Também grava vídeos para o canal "enriquesemh" do YouTube, é capista, e criou o site Discípulos de Peter Pan , sobre comportamento e bem-estar!

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